O 16 DE MARÇO DE 1974 – UMA FALSA PARTIDA* – por Carlos Loures

*Estw twxto resulta da adaptação do que, em 16 de Março de 2011, foi publicado no Estrolabio

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Naquele princípio de 1974, as reuniões dos oposicionistas multiplicavam-se. E não eram já as reuniões sociais de que tenho falado, com bolos caseiros, uísque de Sacavém e canções do Yves Montand ou do Zeca. Desde a reunião de Torres Vedras em 1973 em que se verificara a cisão do MDP-CDE, que as reuniões assumiam um carácter mais objectivo. A esquerda, onde confluíam os embriões de partidos como o MES, a LCI, o PRP, a UDP, sentia que era preciso dar um golpe decisivo na ditadura.

Através de um jornalista amigo que, no quadro das suas funções, assistia às reuniões do MFA, e depois nos fazia o relato da evolução, fomos seguindo o caminho que as coisas estavam a tomar. Naquele princípio de 1974, as reuniões que fazíamos na Parede, eram animadas pelas informações que o tal jornalista ia trazendo. Sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, a tropa sairia para a rua..Naquele sábado pela manhã, quando começámos a ouvir as notícias na rádio e na televisão, pensámos que era o “tal” movimento que andávamos a seguir há meses. A facilidade com que a tentativa foi neutralizada, causou uma grande desilusão. Só na reunião da semana seguinte ficámos tranquilos – o “tal” movimento não fora ainda desencadeado. O que se passara então no dia 16 de Março de 1974?

Muito se tem dito sobre o assunto. Numa das versões, terá sido uma tentativa de os seguidores do general Spínola assumirem o controlo do MFA, impedindo os capitães de o liderarem e evitando radicalismos com que não concordavam. Noutra teria sido, pelo contrário, uma manobra para afastar os spinolistas. Na base desta tentativa de golpe terá, no entanto, estado a exoneração dos generais Costa Gomes e António de Spínola, ocorrida na sequência do episódio da “Brigada do Reumático», que terá levado o capitão Virgílio Varela, do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, a informar que, caso a Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas não reagisse a essa atitude do governo marcelista, ele sairia sozinho com a sua unidade.

Essa intenção seria concretizada na madrugada seguinte, quando os capitães do RI5, tomam o comando do Quartel e decidem avançar sobre Lisboa, sob o comando do capitão Armando Ramos. São, no entanto, a única unidade a sair, numa acção descoordenada e condenada ao fracasso, na sequência da qual são presos cerca de duzentos militares. Dias depois, na sua última Conversa em Família, Marcelo Caetano classificaria os acontecimentos das Caldas da Rainha como uma “irreflexão e talvez ingenuidade de alguns oficiais“.

O documento que transcrevo é a nota oficial, publicada na imprensa, na qual o regime anuncia a sua vitória sobre a falhada tentativa de golpe: «Na madrugada de sexta-feira para sábado, alguns oficiais em serviço no Regimento de Infantaria 5, aquartelado nas Caldas da Rainha, capitaneados por outros que nele se introduziram, insubordinaram-se, prendendo o comandante, o segundo comandante e três majores e fazendo em seguida sair uma Companhia auto transportada que tomou a direcção de Lisboa. O Governo tinha já conhecimento de que se preparava um movimento de características e finalidades mal definidas, e fácil foi verificar que as tentativas realizadas por alguns elementos para sublevar outras Unidades não tinham tido êxito.

Para interceptar a marcha da coluna vinda das Caldas foram imediatamente colocadas à entrada de Lisboa forças de Artilharia 1, de Cavalaria 7 e da GNR. Ao chegar perto do local onde estas forças estavam dispostas e verificando que na cidade não tinha qualquer apoio, a coluna rebelde inverteu a marcha e regressou ao quartel das Caldas da Rainha, que foi imediatamente cercado por Unidades da Região Militar de Tomar».

Após terem recebido a intimação para se entregarem, os oficiais insubordinados renderam-se sem resistência, tendo imediatamente o quartel sido ocupado pelas forças fiéis, e restabelecendo-se logo o comando legítimo. Reina a ordem em todo o País».

Esta última frase, “Reina a ordem em todo o País”, ficou famosa – era repetida ironicamente a propósito e a despropósito.

O professor e historiador Fernando Rosas, numa sessão realizada há três anos nas Caldas da Rainha, lembrou que o movimento das Caldas se verificou na sequência da publicação do livro de Spínola, “Portugal e o Futuro”, que terá deixado Marcelo Caetano à beira da demissão e que o presidente do Conselho pretendeu entregar o poder a Costa Gomes e a Spínola, tendo estes recusado. Por outro lado, o presidente da República, Américo Tomás, não aceitou a demissão.

Na opinião de Fernando Rosas, a revolta das Caldas foi a maneira da generalidade das unidades militares demonstrarem a sua repulsa contra a submissão das Forças Armadas simbolizada pela cerimónia de 14 de Março em que a chamada “Brigada do Reumático” foi jurar fidelidade ao regime. Por outro lado, a demissão de Spínola e de Costa Gomes a seguir à tal cerimónia a que nem um nem outro compareceram.

Muitos dos militares revoltosos eram próximos de Spínola e pretenderam desagravar a afronta que lhe foi feita. Isto, apesar de Spínola, não estando inteirado da conspiração, ter proposto que, em uniforme nº. 1 e ostentando as condecorações descessem a Avenida da Liberdade, na capital.

O coronel Ferreira da Silva, na altura do golpe o principal instigador da saída dos militares do Regimento de Infantaria 5 (actualmente, Escola de Sargentos das Caldas da Rainha), admitiu ter telefonado para o RI5 (Tomar) informando que a sua unidade iria avançar sobre Lisboa, com ou sem outras adesões, provocando a saída precipitada da unidade em direcção a Lisboa.

Já em Lisboa, os militares foram mandados para trás pelo coronel Monge, um dos oficiais do M F A, que percebeu que o golpe iria fracassar perante o elevado número de forças do regime que esperava a coluna revoltosa na capital. Cerca de 200 militares do RI 5 foram presos.

Otelo Saraiva de Carvalho interveio no fim. Contou como tendo sido informado da progressão da coluna militar depois desta ter saído, na madrugada de 16 de Março, dirigiu-se ao seu encontro. Deparou com uma elevada concentração de unidades militares e GNR à entrada de Lisboa. Terá sido da observação que fez do dispositivo militar governamental que extraiu a ideia de na «Ordem de Operações» para 25 de Abril, atribuir a Salgueiro Maia a missão de ocupar o Terreiro do Paço, atraindo ali as forças fiéis ao regime e permitindo que os outros alvos militares fossem ocupados e controlados sem oposição.

Ainda quanto ao 16 de Março, Otelo revelou que o major Casanova Ferreira procurou aliciar unidades militares, sobretudo, os pára-quedistas e a Escola Prática de Cavalaria de Santarém. Contudo, estas recusaram participar face à fragilidade do plano. Casanova Ferreira não desarmou, acreditando que, mesmo sem plano, “basta sair uma unidade para saírem todas as outras atrás.”

O adiamento da revolta proposto por Otelo e aceite por Casanova, seria, contudo, contrariado pelo capitão Virgílio Varela que não acatou a ordem de desmobilização. Os militares do RI 5, apesar das dúvidas que os assaltavam, como foi testemunhado nesta conferência, neutralizaram o seu comandante e saíram em direcção a Lisboa. O 16 de Março estava na rua. Uma aparente derrota, mas um excelente ensaio para a grande vitória do mês seguinte.

2 Comments

  1. É o que eu digo. A História tem sempre alguma coisa para ensinar e mal vão as coisas quando aparecem uns “troikianos” a querem “refundá-las”. Felicito-te por avivares as recordações mais excelentes que qualquer democrata pode ter.A População portuguesa está, ou não, à espera doutro 25 de Abril?CLV

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