EDITORIAL – OS PROFISSIONAIS DA POLÍTICA

Imagem2Profissão, é um substantivo que vem do latim professione que significa «declaração, manifestação; declaração pública, oficial (de fortuna, de domicílio, etc.; acto de fazer profissão de; profissão, estado, mester».  Esta é a definição que José Pedro Machado, no seu “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, nos dá de um termo que no uso corrente apenas se utiliza na última acepção, a de mester. E inclui depois uma série de abonações de textos dos séculos XIII ao XIX, verificando-se que só recentemente o vocábulo assumiu o sentido actual – o de ofício ou mester.

Há nos povos governados por democracias representativas, aquilo que se pode considerar um sentimento atávico de desprezo pelos profissionais da política – «são todos o mesmo» é uma expressão que se ouve com frequência – mas quando chega a altura de votar, as maiorias são levadas a escolher entre esses profissionais, aqueles que o marketing político lhes indicou. Tal como se compra uma margarina com aditivos nocivos, mas que tem um anúncio televisivo convincente.

Temos aqui lembrado mais do que uma vez a infeliz declaração de Tito de Morais no seu discurso do 10º aniversário da Revolução de Abril na Assembleia da República, ao afiemar que  se a engenharia é matéria de engenheiros, a saúde da competência dos médicos e a Igreja da competência dos sacerdotes, a política por sua parte , é assunto de que só os políticos se devem ocupar. Em 1984 não havia ainda a noção de até que ponto uma classe política profissional poderia minar os alicerces do Estado democrático e pôr em risco o funcionamento das suas instituições. 1984 foi antes da girândola de corrupção que veio com as grandes obras, com os grandes projectos, e que cimentaram os laços de cumplicidade entre uma boa parte da classe política aos interesses das grandes famílias e dos grupos económicos internacionais. Foi antes da criação de uma nova oligarquia que, sob a fachada da democracia e aproveitando-se das liberdades que ela permite, destruiu a liberdade e criou uma nova forma de ditadura.  Mas em 1984, além da coincidência com o título do romance de George Orwell, havia já elementos para que José Afonso,  encerrasse uma entrevista com estas palavras: «Há, sem dúvida, uma diferença entre o fascismo e a democracia burguesa, embora, por vezes, em certos aspectos, esta possa resultar naquele». Nem ele podia saber como tinha razão.

Na nossa opinião, a democracia exige a participação política de todos os cidadãos e a existência de políticos profissionais constitui o grande óbice ao funcionamento das instituições democráticas. Os profissionais da política são os escaravelhos que roem os alicerces do Estado democrático. A política será uma profissão, mas não um mester. Uma manifestação, uma declaração pública de amor e respeito pela democracia.

Enquanto for um mester, um ofício, uma profissão, no sentido vulgar do termo, haverá liberdades políticas, mas nunca haverá democracia.

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