RETRATOS, IMAGENS, SÍNTESE DOS EFEITOS DA CRISE DA ZONA EURO SOBRE CADA PAÍS

Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota

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Has Spain’s Economic Contraction Now Become Self Perpetuating?

Ter-se-á a contracção da economia espanhola a partir de agora começado a auto-perpetuar-se ? 

Edward Hugh, 17 de Fevereiro de 2013

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Parte III

(CONTINUAÇÃO)

Assim, apesar do facto de que a balança  corrente do país  está  a mover-se continuamente para fora da zona vermelha, sublinhemos que isto  não significa necessariamente que o crescimento esteja já ali, ao voltar da esquina . Recentemente, realizei um trabalho sobre o processo de adaptação duma outra economia, a húngara, onde a balança  corrente está  agora regularmente positiva, mas a economia está a cair  continuamente na  recessão. Como eu apontei  nesse estudo:

Certamente há lições a tirar a partir do caso húngaro quanto às perspectivas de futuro na periferia sul da Zona Euro. A melhoria dos saldos da balança comercial  está  constantemente a levar a que os  saldos da balança  corrente em países como Portugal, Espanha e Grécia se comecem a situar fora da zona a vermelho. Mas longe de ser como o Japão e ter um grande valor  de poupança líquida externa  estes  países são mais parecidos com a Hungria com uma larga posição de grande investimento externo líquido negativo (novamente pairando em cerca de 100% do PIB em todos os casos) e, consequentemente, uma grande dívida externa. O que isto significa é que eles estão completamente nada preparados para receber o impacto total resultante do  tipo de envelhecimento da população que temos visto no Japão, um impacto que está, seguramente, agora apenas a  uma década de distância.

A lição húngara é a de que as exportações podem fazer bem, muito bem mesmo, e a balança corrente pode-se corrigir, mas a economia ainda pode continuar a definhar permanentemente à beira da recessão, incapaz de gerar o crescimento suficiente para saltar para  uma dinâmica de crescimento sustentável.

A Espanha, como a Hungria, tem uma elevada posição de investimento líquido negativo externo – cerca de 90% do PIB – o que significa que o país está extremamente mal preparado para o impacto total de uma população em claro envelhecimento.

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 A separação entre economia financeira –economia real

O que está fora de qualquer dúvida é que as condições da economia financeira melhoraram muito. O governo abriu o mercado à  sua dívida, os bancos têm uma sólida base em capital  para 2013 e são capazes de aceder ao mercado interbancário europeu para o seu refinanciamento  – mesmo que isto seja  ainda feito a  um custo  considerável em termos de juros pagos. Eis porque é que o ministro  Guindos pensa que a necessidade de um resgate se está  a reduzir ao longo do tempo.

Mas é claro que as condições da economia real continuam a deteriorar-se. A maioria das estimativas para 2013 apontam para uma contracção maior do que a estimada pelo governo (algo que já se tornou habitual), e muitos observadores continuam a esperar que se mantenha a tendência de crescimento negativo em 2014. O desemprego já está acima  dos  26% do final de  2012  e em que  este  poderá  atingir  os  27,5% no próximo mês de Dezembro praticamente  como uma certeza virtual e com um número acima dos  28% em 2014 o que é pavorosamente possível que venha a acontecer.

Assim, apesar de todas as comunicações positivas  que a  economia da Espanha está a receber daqueles que a apoiam a nível internacional, a desconexão entre a economia financeira e a economia real tem-se estado agora a tornar  marcadamente bem mais evidente  e o mais claro sinal disso mesmo  é que o que são agora, pelo menos por enquanto, os bancos bem capitalizados que são mesmo assim ainda incapazes de fornecer sistematicamente  crédito ao sector privado que, por seu lado, se  está a degradar cada vez mais.

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E se o sector privado não melhorar, então o sistema bancário terá certamente necessidade de  mais capital e ainda mais quando se está  longamente  abaixo da linha de água, abaixo da tona de água.  Até mesmo a flexibilização das metas de défice tem um preço -no próximo ano (2014) a dívida pública quase certamente vai escorregar  para lá desse limiar psicológico dos 100% do nível do PIB e ainda vai estar a aumentar. Isto significa que em algum momento se pode ter que dar uma reestruturação de dívida soberana em Espanha e isto certamente é uma hipótese que não pode ser descartada.

That something isn’t present in Spain at the moment, and indeed the danger is that as conditions deteriorate the contraction becomes self-perpetuating.

Talvez o pior de todos os pressupostos que os legisladores parecem estar a fazer  é o de que “as economias sempre recuperam”, uma hipótese que parece ser baseada nalgum aceitação  quase religiosa da teoria  da “mão invisível”. Na verdade, tudo que é necessário para que seja tudo menos uma verdade universal é um contra-exemplo e infelizmente o mundo real está cheio deles . A Argentina no século XX seria um deles, o país começou entre os mais ricos globalmente e veja-se como é que terminou o século. O Japão do Século XX seria um outro, e uma vez que se começa a olhar para o problema pode facilmente encontrar mais (veja-se a  Ucrânia ou a Hungria). Assim a retoma económica não é automática, e algo tem que acontecer para que esta venha a ocorrer. Isto é, qualquer coisa que não está actualmente presente em Espanha e, na verdade, o perigo é que, como as condições se deterioram,  a contracção da economia se venha a  auto-perpetuar.

(continua)

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