CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 33 – por José Brandão

Quando a infanta D. Catarina chegou à idade de poder matrimoniar-se, procurou a rainha D. Luísa, sua mãe, dar-lhe esposo que também fosse de interesse ao reino.

Tratou-se do casamento com Luís XIV, quando Ana de Áustria dizia preparar o consórcio de seu filho com várias princesas, para apressar a paz com a Espanha e casá-lo com a infanta D. Maria Teresa. Finalmente, por diligências do embaixador em Londres, Francisco de Melo, depois conde da Ponte, ajustou-se o casamento de D. Catarina com Carlos II de Inglaterra, pelo tratado de 23 de Junho de 1661, no qual, além das cláusulas relativas ao casamento, havia outras em que se firmava um tratado de aliança entre os dois países.

Imagem1Cortejo de despedida de D. Catarina de Bragança

El-rei de Portugal obrigou-se a dotar a infanta sua irmã com dois milhões de cruzados. Quando a rainha de Inglaterra, garantia-se a D. Catarina o livre exercício da religião católica.

El-rei de Portugal cedia à Inglaterra a cidade e fortaleza de Tânger, com todos os seus direitos. Em beneficio do comércio inglês na Índia, e para que el-rei da Grã-Bretanha estivesse em condições de melhor defender os vassalos portugueses naquelas paragens, cedia-lhe el-rei de Portugal o porto e ilha de Bombaim com os seus territórios. Concediam-se aos Ingleses, para exercício do comércio, nas cidades de Goa, Cochim e Diu, e bem assim na Baía, Pernambuco e Rio de Janeiro, os mesmos privilégios de que gozavam os portugueses. Cedia também el-rei de Portugal à Grã-Bretanha as praças e fortalezas que os Ingleses viessem a conquistar aos Holandeses e que tivessem pertencido a Portugal, e se a ilha de Ceilão voltasse por qualquer modo ao poder de el-rei de Portugal, cederia este a el-rei de Inglaterra a praça e porto de Gale e conservaria para si a praça e porto de Columbo; porém, o trato da canela seria repartido igualmente entre Ingleses e Portugueses. O mesmo se observaria se a ilha de Ceilão viesse a cair em poder da Grã-Bretanha.

Em troca de todas estas concessões, «e em razão também do mesmo dote, que tantas vantagens faz a todos os que antes se deram em algum tempo com filha alguma de Portugal», comprometia-se a Inglaterra a defender os interesses de Portugal e de todos os seus domínios, tanto por mar, como por terra, e à sua custa enviaria a Portugal dois regimentos de quinhentos cavalos cada um e dois terços de infantaria de mil homens cada um, preenchendo sempre o mesmo número à medida que ele fosse diminuindo. Todas as vezes que Portugal fosse invadido enviar-lhe-ia a Inglaterra dez boas naus de guerra, e todas as vezes que fosse infestado de piratas mandaria três ou quatro naus de guerra, convenientemente guarnecidas de marinheiros e com mantimentos para oito meses. Se Portugal se encontrasse em maior aperto, também a Inglaterra mandaria que concorressem a socorrê-lo todos os navios ingleses que estivessem no Mediterrâneo ou no porto de Tânger.

Partiu D. Catarina de Lisboa a 25 de Abril de 1662, chegou a Portsmouth a 24 de Maio e ali se consorciou no dia 31.

Foi pouco feliz a nova rainha de Inglaterra, amargurada pelas infidelidades do marido, pelo ódio que lhe votavam os protestantes e pelas agitações político-religiosas. A 11 de Fevereiro de 1685 faleceu Carlos II; anos depois resolveu D. Catarina regressar a Portugal. Viajou por França e Espanha, entrou no reino por Almeida e chegou a Lisboa a 20 de Janeiro de 1693.

Faleceu a 31 de Dezembro de 1705. […]

Casamento de D. Afonso VI

Tratou-se de fazer casamento a el-rei, posto houvesse razões, e decisivas, para o não tentar. Era quase impossível que o defeito de el-rei D. Afonso VI não fosse conhecido da corte e dos ministros. Antes de partir para França, como embaixador extraordinário, a negociar o casamento, o marquês de Sande, como lhe tivesse chegado a fama pública e constante da incapacidade de el-rei para ter filhos, propôs esta dúvida ao conde de Castelo Melhor; este respondeu, «com alguma perturbação», que a fama era falsa, porquanto em sua casa se criava uma filha de D. Afonso. Assim o referia o duque de Cadaval no processo de nulidade de matrimónio. Os acontecimentos seguiram seu curso até à lógica e fatal consequência.

Assentou-se no casamento de el-rei com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, filha de Carlos Amadeu de Sabóia, duque de Nemours. Tanto Carlos Amadeu, como sua mulher, a duquesa Isabel, eram já falecidos. O casamento foi negociado pelo marquês de Sande, embaixador de Portugal em Paris; naquela cidade foi assinado o contrato, a 24 de Fevereiro de 1666. Em Junho partiu D. Maria Francisca de Paris para a Rochela, onde a 27 se casou, sendo el-rei de Portugal representado pelo marquês de Sande, como procurador. Embarcou a 30 de Junho para Lisboa, mas por causa do mau tempo só no dia 4 de Julho largaram da Rochela.

A 2 de Agosto, de manhã, chegou a rainha a Lisboa. Pelas 6 horas da tarde, como quem não tinha pressa, foi el-rei vê-la a bordo e trouxe-a para terra com luzido acompanhamento. Passaram pela igreja das flamengas, onde os esperava o bispo de Targa, que lhes lançou as bênçãos.

Dirigiram-se depois à quinta de Alcântara, que estava magnificamente adereçada. Ali a rainha ceou com as damas, camareira-mor e oficiais da casa, el-rei ceou nos seus aposentos. Com aqueles que lhe assistiam desanuviou D. Afonso o espírito do aborrecimento que lhe causara toda aquela fastidiosa solenidade, e quando chegaram as horas em que devia dirigir-se ao quarto da rainha, não houve diligências nem persuasões que o obrigassem a isso, alegando pretextos de indisposições.

A rainha, segundo afirmam os contemporâneos, era formosíssima. El-rei aproximava-se dela, amável e atencioso; por descargo de consciência, dirigia-lhe galanteios, mas continha-se sempre na reserva, que em sãos pode ser virtude e em doentes é mera incapacidade.

Assim decorria a lua-de-mel de D. Maria Francisca, em desolação e tristeza infanda, que não podia ter sequer o lenitivo de um desabafo! Vítima inocente de conveniências e arranjos políticos, via-se amarrada a um tálamo vazio, com o seu pudor virginal exposto em breve a comentários irreverentes. Na sua ignorância da vida, nem lhe era dado imaginar o termo a que poderia conduzi-la aquele antagónico estado de casada e donzela, nem como libertar-se da ignomínia de um marido sem virilidade e sem espírito, aviltado por mórbida depressão intelectual e dominado somente por tendências abjectas.

Bem digna de lástima era a princesa pela cruel sorte que a trouxera a Portugal; e, todavia, como se não bastassem a torturá-la as observações maliciosas que facilmente adivinharia naqueles que a rodeavam, ainda no século XIX escritores levianos ou pouco escrupulosos deram largas à fantasia para lhe denegrirem a memória em conjecturas absurdas e difamatórias.

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