O GARDEN-PARTY, de Katherine Mansfield – 1 – por João Machado

Nos próximos dias, vamos apresentar uma pequena série sobre o conto de Katherine Mansfield,  Garden Party. Além do conto, traduzido por João Machado, apresentaremos alguma informação sobre a autora e a sua época. Começamos com uma nota biográfica.Imagem1

KatherineMansfield nasceu a 14 de Outubro de 1888 na Nova Zelândia. Estudou em Londres, no Queen’sCollege, até aos dezoito anos.  Embora não fosse uma estudante extraordinária, tornou-se uma violoncelista notável, e começou as suas tentativas na literatura. Regressou entretanto à Nova Zelândia, onde entrou em conflito com a família. Parece também que, embora o ambiente na sua terra, à época, fosse de franca abertura ao progresso em vários aspectos, que Katherine ficou muito impressionada com a situação dos Maori. Voltou  entretanto a Londres, onde durante algum tempo teve uma vida de desequilíbrio, mesmo na parte afectiva. Apesar dos conflitos, continuou a relacionar-se com a família, tendo ficado profundamente chocada com a morte do irmão na I Grande Guerra. Na altura (1911) já tinha sido publicado o seu primeiro livro, Numa Pensão Alemã.Nele começou a revelar-se o seu génio. Mas entretanto o seu estado de saúde agravou-se e declarou-se-lhe a tuberculose, que havia de a levar.

KatherineMansfield (o seu nome verdadeiro era KathleenBeauchamp) faleceu aos 34 anos, prematuramente, acabando-se assim, logo no início, uma brilhantíssima carreira de escritora. João Gaspar Simões, na sua introdução ao volume GardenParty, publicado na colecção Os Contos Universais, da Portugália Editora, assinala o papel fulcral que a escritora desempenhou no reconhecimento do conto como forma maior da literatura. Neste capítulo só talvez Tchekovterá tido uma influência semelhante. KatherineMansfield, com certeza, foi influenciada por outros escritores, como Maupassant, Tchekov e OscarWilde, e, também, por Joyce.João Gaspar Simões assinala também que a escritora pertence à corrente realista, e refere a influência que sobre ela exerceu Elizabeth Gaskell (1810 – 1865), conhecida por Mrs. Gaskell, que descreveu de modo profundo e crítico os usos e costumes da época vitoriana.

KatherineMansfield consegue a aproximação do conto à poesia, na medida em que utiliza uma psicologia muito fina para descrever ao leitor os personagens das suas histórias e os seus sentimentos. E deste modo dá-nos uma descrição muito profunda da realidade, do que é a sociedade e dos problemas das pessoas.

Ouçam esta excelente leitura de The Garden Party,  de Katherine Mansfield ,  feita por Luci Burgoyne. Agradecemos à LibriVox e a todas as entidades envolvidas na realização deste vídeo.

 

O GARDEN- PARTY – I

E afinal o tempo estava magnífico. Nem por encomenda teriam arranjado um dia melhor para um garden-party. Sem vento, quente, e o céu sem uma nuvem. Havia apenas uma névoa de luz dourada a velar o céu, como às vezes acontece no princípio do Verão. Desde manhã cedo que o jardineiro andava a aparar e a varrer a relva, de modo que as ervas e os florões com margaridas até pareciam  brilhar. Quanto às rosas, quase que se era levado a pensar que elas se sentiam como as únicas flores que as pessoas nos garden-parties apreciam; as únicas flores de que toda a gente tem a certeza de saber o nome. Numa só noite tinham desabrochado às centenas; os arbustos verdes abanavam como se tivessem recebido a visita de arcanjos.

Ainda não tinham acabado o pequeno almoço quando os homens chegaram para armar o toldo.

― Onde quer que se ponha o toldo, mãe?

― Filha querida, não me perguntes nada. Este ano, estou resolvida a deixar tudo ao vosso cuidado. Esqueçam que eu sou a vossa mãe. Tratem-me como uma convidada de honra.

Mas não era possível à Meg ir vigiar os homens. Tinha lavado o cabelo logo antes do pequenoalmoço, e estava sentada a beber o café com um turbante verde na cabeça e um anel escuro do cabelo molhado em cada face. Jose, a borboleta, descia sempre em saiote de seda e com um casaco de quimono.

― Tens de ir tu, Laura, és a artista da família.

E lá foi a Laura a correr, com um pedaço de pão com manteiga ainda na mão. Era muito agradável ter um pretexto para comer ao ar livre, e além disso, ela adorava ter coisas para organizar; achava que nisso era melhor do que qualquer outra pessoa.

Quatro homens em mangas de camisa esperavam juntos no caminho do jardim. Carregavam aduelas com rolos de couro à volta, e traziam caixas grandes de ferramentas penduradas às costas. Eram impressionantes. Laura começou a achar que não devia ter o pão com manteiga na mão, mas não sabia onde o pôr, e sentia que não devia deitá-lo fora. Corou e tentou pôr um ar sério, e até um pouco míope, enquanto se aproximava deles.

― Bom dia―, disse, imitando a voz da mãe. Mas soou de um modo tão afectado que ficou com vergonha, e gaguejou como uma miúda pequena. ― Oh, …― ah…― vieram …― por causa do toldo?

― É verdade, menina ― disse o homem mais alto, um fulano magro e sardento, e poisou a caixa de ferramentas que trazia, deu um piparote para trás no chapéu de palha e sorriu para ela― É por isso mesmo.

Tinha um sorriso tão natural, tão simpático que Laura recuperou a calma. Que lindos olhos que ele tinha, pequenos, mas tão azuis! E quando olhou para outros, viu que também sorriam. ―Anima-te, que a gente não te morde ― pareciam dizer. Que trabalhadores tão simpáticos! E que manhã tão bonita! Não devia falar na manhã tão bonita, tinha de mostrar um ar grave. Claro, o toldo.

― Então, acham que pode ser no relvado dos lírios? Fica bem ali?

E apontou para o relvado dos lírios com a mão que não segurava o pão com manteiga. Os homens viraram-se para olharem para lá. Um baixinho forte mordeu o lábio inferior, e o alto franziu as sobrancelhas.

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