COM A ELEIÇÃO DE FRANCISCO, A IGREJA CATÓLICA REAFIRMA O SEU REACCIONARISMO – por Carlos Loures

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As informações que chegam sobre o novo papa apontam no sentido de que foi um  colaborador da Junta Militar. Quanto mais não fosse, pelo silêncio cúmplice. Mas há quem lhe atribua responsabilidades maiores como conivente em torturas, assassínios e raptos de crianças. Vamos saltar esses «pormenores». Não sei por que há tanta surpresa por a Cúria Romana ter eleito um reaccionário, um amigo de Videla…

As ignomínias da Igreja são uma constante na sua história. Para encontramos papas cujos pontificados foram a negação de tudo o que se diz ser  o objectivo do cristianismo, não precisamos de recuar muito na história, nem de falar de Alexandre VI, Rodrigo de Borja, Roderico Borgia, um valenciano feito cardeal por seu tio, Calisto III. O seu pontificado de  1492 a 1503 – amantes, filhos… assassínios, incesto com sua filha Lucrécia, nepotismo, com favorecimento de seu filho César… Uma enciclopédia com tudo o que um “bom cristão” não deve ser nem fazer. Os tempos eram outros e os crimes dos papas, sendo mais espectaculares, não eram tão graves. O nepotismo estava muito na base desses crimes.

Em 1406, lavrava o incêndio do Grande Cisma do Ocidente, Angelo Correr,  um cardeal veneziano, foi eleito papa, assumindo o nome de Gregório XII. Em Avinhão, outro papa, o antipapa,  Bento XIII, ditava as suas leis e os estados obedeciam a um ou a outro. Gregório XII anunciou como objectivo central do seu pontificado, acabar com o Cisma, comprometendo-se a resignar logo que atingido esse objectivo. Tão louvável intenção motivou a indignação da família Correr, já espalhada por lugares de poder. Era lá aceitável que alguém que, após ter atingido a cadeira de S. Pedro, a deixasse sem ser por morte? E obrigaram o velho a desdizer-se. Dez anos depois lá resignou. Um ano antes de morrer.  Só agora, seis séculos depois, outro papa resignou em vida.

Regressando a Francisco, motivo de surpresa seria a escolha de um homem íntegro e movido pela intenção de põr a enorme máquina da Igreja Católica Apostólica Romana ao serviço daquilo a que os cristãos chamam o «bem». Nos tempos mais recentes, a escolha é baseada em critérios políticos e em obscuros interesses económicos. Pio XI que terá iniciado uma boa relação com Mussolini, entrou depois em rota de colisão com o duce. Pio XII foi escolhido por ser um grande amigo dos dirigentes nazis e a  Cúria, apostando no cavalo errado, elegeu-o. Aliás, os enganos vão acontecendo –  João Paulo I terá sido um deles. Engano prontamente rectificado…

A Santa Sé cola-se sempre ao poder e apoia os regimes mais iníquos e que mais violam aquilo que se diz ser a moral cristã. É uma estrutura política reaccionária, uma barreira ao progresso, ao advento da igualdade, da liberdade e da fraternidade entre os seres humanos. A Igreja Católica Apostólica Romana tem sido ao longo da História um factor de retrocesso. Sempre um problema, nunca uma solução. O que não significa que não haja gente capaz, séria, espalhada pela hierarquia. Mas, na luta entre o bem e o mal ao longo da sua existência, o mal leva uma ampla vantagem.

Todas as religiões se apoiam no poder político e económico.  Mas a que reside em Roma, bate todas aos pontos. Como diz Guerra Junqueiro em Os Parasitas, dirigindo-se aos «funâmbulos da cruz» «andais pelo universo, há mil e tantos anos, ,exibindo,  explorando o corpo de Jesus».

2 Comments

  1. Estimado Carlos: “Todas as religiões se apoiam no poder político” siempre que sean de su “moral”. Porque en cambio estuvieron muy en contra de la República Portuguesa de 1910 y de la República Española de 1931, comprometidas con los más débiles… pero laicas. Luego, bien que se llevaron con Salazar en Portugal y con Franco en España, dictadores que amordazaron y sometieron vilmente al pueblo.

    1. É verdade, meu Caro Moisés – a Igreja Católica tem uma longa tradição de oportunismo político e de colagem ao poder. Não é um fenómeno exclusivo do Vaticano, pois sabemos como nasceu o luteranismo e como o judaísmo se misturou com o sionismo reaccionário; o islamismo, sempre que pode, cola-se ao poder político e impõe-lhe a sua lei. Porém, a Igreja Católica Apostólica Romana tem um funcionamento mafioso – à superfície tudo é amor, fraternidade e democracia – nos subterrâneos, circulam gordas ratazanas…

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