O GARDEN-PARTY, de Katherine Mansfield – 3 – por João Machado

e depois deste pequeno filme, a terceira parte de

O GARDEN- PARTY – III

Era mesmo. Mesmo ao entrar da porta, estava uma bandeja larga e rasa carregada com vasos de lírios rosados. Nenhuma outra flor. Apenas lírios –de cana, grandes flores rosadas, bem abertas, radiantes, quase assustadoramente vivas sobre hastes carmesins brilhantes.

― O-oh, Sadie! ―disse Laura, e a voz parecia um gemido. Curvou-se como se quisesse aquecer-se ao brilho dos lírios; sentiu-os nos dedos, nos lábios, a crescer no seio.

― Há algum engano, disse com voz fraca. ― Ninguém ia mandar vir tantos. Sadie, vá ver se encontra a mãe.

Mesmo nesse instante a Senhora Sheridan chegou ao pé delas.

― Está tudo bem, disse calmamente. ― Eu encomendei-as. Não são lindas? ― Pegou no braço de Laura. ― Ontem ia a passar pela loja, e vi-as na montra. E veio-me à cabeça a ideia de, ao menos uma vez na vida, ter todos os lírios de cana que eu quisesse. O garden-party é uma boa desculpa para isso.

― Mas pareceu-me ouvi-la dizer que não queria interferir em nada, ― disse Laura. A Sadie já não estava ao pé delas. O homem do florista ainda estava na rua, ao pé da carroça. Laura passou o braço à volta do pescoço da mãe e, suavemente, muito suavemente, mordeu a orelha da mãe.

― Minha filha querida, não me diga que preferia ter uma mãe toda racional, se calhar? Não queira uma coisa dessas. Aqui está o homem.

Ele trouxe mais lírios, mais uma bandeja deles.

― Ponha-os aí do lado de dentro, ao pé da porta, nos dois lados do alpendre, ― disse a Senhora Sheridan. ― Laura, achas bem assim?

― Claro, mãe.

Na sala de visitas a Meg, a Jose e o pequenino Hans finalmente tinham conseguido mudar o piano.

― E agora, que achamse encostássemos o sofá à parede e levássemos tudo o resto, menos as cadeiras, lá para fora?

― Muito bem.

― Hans, empurra estas mesas para a sala de fumo, e traz uma vassoura para tirarmos estas marcas no tapete – espera um instante, Hans ―Jose adorava dar ordens aos criados, e eles adoravam obedecer-lhe. Era como se ela os fizesse sentir que estavam num teatro. ― Digam á mãe e à menina Laura para virem já aqui.

― Muito bem, menina Jose.

Ela disse a Meg. ―Quero ver como está o piano, para o caso de quererem que eu cante esta tarde. Vamos experimentar A vida é enfadonha.

Pom! Ta-ta-taTi-ta!O piano explodiu tão apaixonadamente que o rosto de Jose se alterou. Apertou as mãos. Deitou um olhar pesaroso e enigmático à mãe e à Laura quando entraram na sala.

Esta Vida é Enfado…nha

Uma Lágrima…um Suspiro.

Um Amor de No…vo,

Esta Vida é Enfado..nha,

Uma Lágrima…Um Suspiro.

Um Amor de No…vo,

E então…Adeus!

Mas com a palavra Adeus, e embora o piano soasse mais desesperadamente do que nunca, a face dela brilhou com um sorriso brilhante, chocantemente antipático.

― Estou a usar bem a voz, não estou, mãezinha? perguntou a sorri.

Esta Via é Enfado…nha,

A Esperança vem para Acabar.

Um Sonho A…corda.

Foi então que a Sadie as interrompeu. ― O que é, Sadie?

― Por favor, minha senhora, a cozinheira está a perguntar se arranjou os letreiros para as sanduíches?

―Os letreiros para as sanduíches? repetiu a Senhora Sheridan com ar pensativo. As crianças perceberam pelo ar dela que não os tinha prontos. ― Deixa ver. ― Disse firmemente a Sadie, ― Vai dizer à cozinheira que os tenho prontos daqui a dez minutos.

― E agora, Laura,― disse a mãe rapidamente, ― vem comigo á sala de fumo. Tenho os nomes escritos num envelope que não sei onde está. Vai ter de os escrever por mim. Meg, vai já lá cima e tira essa coisa molhada da cabeça. Jose, vai acabar de te vestir imediatamente. Estão-me a ouvir ou tenho de dizer ao vosso pai quando ele chegar a casa á noite? E… e, Jose, se fores à cozinha acalma a cozinheira, está bem? Estou com muito medo dela, esta manhã.

O GARDEN- PARTY – IV

Lá conseguiram encontrar o envelope atrás do relógio da sala de jantar, embora a Senhora Sheridan não tivesse a menor ideia sobre como teria ido lá parar.

― Uma de vocês surripiou-mo da minha mala, porque eu lembro-me muito bem … queijo creme e requeijão. Escreveste?

― Sim.

― Ovo e… ― a Senhora Sheridantirou-lhe o envelope. ― Parece ratazanas. Não pode ser ratazanas, pois não?

― Azeitonas, mãezinha, ― disse Laura, por cima do ombro dela.

― Azeitonas, pois claro. Que mistura horrível. Ovo e azeitonas.

Lá conseguiram acabar, e Laura levoufoi levar tudo à cozinha. Encontrou Jose a acalmar a cozinheira, que não parecia querer aterrorizar ninguém.

― Nunca tinha visto sanduíches com um aspecto tão requintado, ― diziaJose com uma voz entusiástica.De quantas qualidades é que disse que há, cozinheira? Quinze?

― Quinze, Miss Jose.

― Bem, cozinheira, os meus parabéns.

A cozinheira varreu umas migalhas com a faca de cortar pão, e mostrou um grande sorriso.

― Chegaram da Godber, ―avisou Sadie, a sair da copa. Tinha visto o homem a passar em frente á janela.

Portanto as bombas tinham chegado. A Casa Godber era famosa pelas suas bombas. Ninguém pensava sequer em fazê-las em casa.

― Trá-las e põe-nas na mesa, menina, ― ordenou a cozinheira.

A Sadie trouxe-as para dentro e voltou à porta. Claro que a Laura e a Jose eram demasiado crescidas para ligarem muito aquelas coisas. De qualquer modo, não podiam deixar de concordar que as bombas tinham um aspecto muito atraente. Muito. A cozinheira começou a arranjá-las, limpando o açúcar gelado a mais.

― Não achas que nos fazem recordar todas aquelas festas em que já estivemos?

― Acho que sim, ― disse a prática Jose, que não gostava de recordar o passado. ― Parecem muito leves, como penas.

― Tirem umcada uma, queridas, ― disse a cozinheira com voz tranquila. ― A vossa mãe não dá por isso.

Oh, não podia ser. Imaginem, bombas logo a seguir ao pequeno almoço. Só pensar nisso causava sobressaltos. De qualquer maneira, dois minutos depois Jose e Laura lambiam os dedos com aquele ar pensativo que só o chantilly consegue causar.

― Vamos ao jardim, pelo caminho de trás, ― propôs Laura. ― Quero ver como é que os homens se estão a haver com o toldo. São tremendamente simpáticos.

Mas a porta de trás estava impedida pela cozinheira, por Sadie, pelo homem da Godber e por Hans.

Tinha acontecido alguma coisa.

―Tac, tac, tac, ― a cozinheira parecia cacarejar como uma galinha agitada. A Sadie tinha a mão a agarrar a cara como se estivesse com dor de dentes. O rosto de Hans contorcia-se com o esforço para compreender. Só o homem da Godber parecia estar contente; era ele quem contava a história.

― Que se passa? Que aconteceu?

― Houve um acidente terrível. ― disse a cozinheira. ―Morreu um homem.

― Morreu um homem! Onde? Como? Quando?

Mas o homem da Godber não deixava que contassem a história por ele.

― Estão a ver aquelas casinhas ali em baixo, meninas? ― Se as conheciam? Claro que as conheciam. ― Pois, vivia ali um rapaz chamado Scott, que trabalhava como carroceiro. O cavalo dele, na curva da rua Hawke, assustou-se com um tractor,  e ele foi projectado e bateu no chão com a parte de trás da cabeça. Morreu,

― Morreu! Laura olhava para o homem da Godber.

―Estava morto quando o levantaram, ―disse o homem da Godber com ar prazenteiro. ― Iam a levar o corpo para casa quando eu vinha para aqui. ― E disse para a cozinheira, ― Deixa mulher e cinco filhos.

― Anda cá, Jose. ― Laura puxou a manga da irmã e levou-a através da cozinha até passarem a porta forrada a baeta verde. Parou e encostou-se ali. ― Jose! ― disse, horrorizada, ― como é que vamos suspender tudo?

― Suspender tudo, Laura! ― exclamouJose espantada. ― Que queres dizer?

― Suspender o garden-party, claro. ― Porque é que a Jose fingia não perceber?

Mas Jose estava cada vez mais espantada. ―Suspender o garden-party? Minha querida Laura, não sejas absurda. Claro que não podemos fazer nada disso. Ninguém espera que o façamos. Não sejas tão extravagante.

― Mas nós não podemos de modo nenhum dar um garden-party com um homem morto mesmo do lado de fora do nosso portão da frente.

O GARDEN- PARTY – V

Era realmente extravagante, pois as casinhas ficavam numa travessa só delas, mesmo ao fundo de uma ladeira que conduzia à casa. Havia uma estrada larga de permeio. Era verdade que não deveriam estar ali tão perto. Constituíam uma ofensa para a vista, e não tinham qualquer direito de estar ali ao pé. Eram moradias muito humildes pintadas a castanho chocolate. Nas nesgas ajardinadas só se viam caules de couve, galinhas doentes e latas de tomate. Até o fumo que saía das chaminés tinha um ar de pobreza. Aos bocadinhos e a retalhos, tão diferente das grandes plumas prateadas que se desenrolavam da chaminé dos Sheridan. Viviam na travessa lavadeiras, varredores e um sapateiro, além de um homem cuja casa tinha a frente toda coberta com gaiolas de aves minúsculas. As crianças enxameavam. Quando os Sheridan ainda eram pequenos estavam proibidos de pôr ali os pés por causa da linguagem grosseira e das doenças que poderiam apanhar. Mas quando cresceram, a Laura e o Laurie  passeavam às vezes por ali. Era repugnante e sórdido. Voltavam de lá sobressaltados. Mas era preciso ir a todo o lado; devia ver-se tudo. Por isso lá iam eles.

― E pensa no que vai custar à pobre mulher estar a ouvir a orquestra, ― disse Laura.

― Oh, Laura! ―Jose estava a começar a ficar seriamente preocupada. ― Se proibires uma orquestra de tocar sempre que alguém tem um desastre, vais ter uma vida muito agitada. Tenho tanta pena do que aconteceu quanto tu. Também sinto muita pena. ― Os olhos dela endureceram. Olhou para a irmã da mesma maneira como quando eram pequenas e andavam à zaragata. ―Não consegues fazer ressuscitar um trabalhador bêbedo com sentimentalismos, ― disse suavemente.

― Bêbedo! Quem foi que disse que ele estava bêbedo? ― Laura olhou furiosa para Jose. Disse, tal como costumavam em ocasiões assim, ― Vou já dizer à mãe.

― Vai, querida,― provocou Jose.

― Mãe, posso entrar no seu quarto? ― Laura fez girar o puxador de vidro da porta.

― Claro, filha. O que se passa? Porque estás tão corada? ― E a Senhora Sheridan levantou-se da mesa de vestir. Tinha estado a experimentar um chapéu novo.

― Mãe, morreu um homem, ― começou Laura.

― Aqui no nosso jardim? ― interrompeu a mãe.

― Não, não!

― Que susto me pregaste! ― A Senhora Sheridansuspirou de alívio, tirou o chapéu grande e poisou-o nos joelhos.

― Mas oiça, mãe, ―disse Laura. Ofegante, meio engasgada, contou a história terrível. ― Claro que não podemos dar a nossa festa, pois não? ―implorou ela. ― Com a orquestra e toda a gente a virem por aí. Vão ouvir-nos, mãe; são praticamente nossos vizinhos!

Para espanto de Laura a mãe reagiu tal qual Jose; era ainda mais difícil de suportar com o ar divertido dela. Recusou levar Laura a sério.

― Mas, minha querida filha, sê razoável. Só soubemos disso por acaso. Se alguém tivesse morrido naturalmente – e não consigo perceber como conseguem viver naqueles buraquinhos tão acanhados ― nós teríamos a nossa festa à mesma, não é verdade?

Laura teve de responder que sim àquele raciocínio, mas sentia que estava tudo errado. Sentou-se no sofá da mãe e beliscou o folho da almofada.

― Mãe, é uma grande falta de sentimentos da nossa parte, não é?―perguntou.

― Querida! ― A Senhora Sheridan levantou-se e veio até ela, com o chapéu na mão. Antes que Laura a pudesse deter, colocou-lho na cabeça. ― Minha filha! ―disse a mãe, ― o chapéu é teu. É como se tivesse sido feito de propósito para ti. É demasiado juvenil para mim. Nunca te tinha visto a parecer tal e qual um quadro. Vê-te ao espelho!― E passou-lhe um espelho para a mão.

― Mas, mãe, ―Laura ia a começar outra vez. Não conseguia ver-se ao espelho; voltou-se.

Desta vez a Senhora Sheridan perdeu a paciência, tal como Jose anteriormente.

― Estás a portar-te de uma forma completamente absurda, Laura, ― disse friamente. ― Pessoas como aquelas não esperam sacrifícios da nossa parte. E não é muito simpático estragar a boa disposição dos outros como agora estás a fazer.

― Não compreendo, ― disse Laura, e saiu imediatamente do quarto da mãe e foi refugiar-se no seu. Aí, por acaso, a primeira coisa que viu foi uma rapariga encantadora ao espelho, com um chapéu preto ataviado com margaridas douradas, e uma longa fita de veludo preto. Ela nunca tinha pensado que podia ter aquele aspecto. Será que a mãe tem razão? pensou ela. E agora desejava que a mãe tivesse razão. Estarei a ser extravagante? Talvez fosse extravagante. Veio-lhe um vislumbre instantâneo da pobre mulher e das crianças pequenas, e do corpo a ser transportado para casa. Mas tudo lhe aparecia nublado, irreal, como uma fotografia no jornal. Vou pensar nisto quando a festa acabar, decidiu. E de algum modo pareceu-lhe ser o melhor a fazer…

O almoço acabou lá para a uma e meia. Às duas e meia estava tudo preparado para a batalha. Tinha chegado a orquestra, com os músicos de casaco verde, e instalaram-na num canto do campo de ténis.

― Minha querida! ―trinouKittyMaitland, ―não achas que são tal e qual rãs? Devias tê-los posto à roda do lago, com o maestro ao meio sobre uma folha.

Laurie chegou e cumprimentou-as a caminho de se ir vestir. Ao vê-lo Laura lembrou-se novamente do acidente. Queria contar-lhe. Se Laurie fosse da mesma opinião que os outros, então é que estava mesmo tudo bem. E entrou no átrio atrás dele.

O GARDEN- PARTY – VI

―Laurie!

― Olá! ― Ele ia a meio das escadas, mas virou-se e quando viu Laura encheu as bochechas e arregalou os olhos para ela. ― Acredita, Laura! Estás mesmo estonteante. ―disse. ― Que categoria de chapéu!

Laura respondeu com voz fraca ―Achas? ―, sorriu para o irmão e acabou por não lhe contar nada.

A seguir as pessoas começaram a chegar aos magotes.  A orquestra começou a tocar; os criados contratados despachavam-se entre a casa e o toldo. Por todo o lado viam-se casais deambulando, inclinando-se para ver as flores, cumprimentando, passeando sobre o relvado. Eram como passarinhos coloridos que tivessem poisado no jardim dos Sheridan naquela tarde, na sua viagem para – onde? Ah, que agradável é estar com pessoas que estão felizes, apertar mãos, acariciar faces, sorrir uns nos olhos dos outros.

― Querida Laura, que bem que estás

― Como te fica bem esse chapéu!

― Laura, pareces mesmo uma espanhola. Nunca te vi tão encantadora.

E Laura, animadíssima, respondia suavemente, ― Já tomaram chá? Não querem um gelado? Os gelados de maracujá são qualquer coisa de especial. ― Foi a correr ter com o pai e pediu-lhe ― Paizinho querido, pode-se servir qualquer coisa para beber á orquestra?

E uma tarde perfeita amadureceu lentamente, lentamente se foi apagando, lentamente fecharam-se as suas pétalas.

― Nunca um garden-partyfoi tão delicioso… ―, ― O maior acontecimento…―, ― Foi mesmo o máximo…

Laura ajudou a mãe nas despedidas. Ficaram lado a lado no alpendre até tudo ter acabado.

― Acabou tudo, finalmente, graças a Deus, ―disse a Senhora Sheridan. ― Junta os outros e vamos tomar um café acabado de fazer. Estou exausta. Pois, correu tudo muito bem. Mas estas festas, estas festas! Porque é que, miúdas, insistem em dar festas! ― E foram todos sentar-se debaixo do toldo deserto.

― Querido papá, come uma sanduíche. Fui eu que fiz o letreiro.

― Obrigado. ― O Senhor Sheridan deu uma dentada e a sanduíche foi-se. Pegou noutra. ― Suponho que não ouviram falar de um acidente brutal que aconteceu hoje? ― perguntou.

― Meu querido, ― disse a Senhora Sheridan, levantando a mão, ― ouvimos. Quase estragou a festa. A Laura insistia em que a suspendêssemos.

― Oh, mãe! ― Laura não queria que a arreliassem com o assunto.

― Foi um acontecimento horrível de qualquer modo, ― disse o Senhor Sheridan. ― O fulano ainda por cima era casado. Morava mesmo aqui em baixo na travessa, e deixa viúva e meia dúzia de garotos, ao que contam.

Caiu um silêncio pesado. A Senhora Sheridan abanicava a chávena. Realmente, era cá uma falta de tacto do pai…

De súbito, olhou em frente. Sobre a mesa restavam por comer sanduíches de todos os tipos, bolos, bombas. Iam ser deitados fora. Teve uma das suas ideias brilhantes.

― Já sei. ―disse. ― Vamos arranjar um cesto. Vamos enviar àquela pobre criatura alguma desta comida em perfeito estado. Seja como for, será o melhor regalo para as crianças. Não acham? E com certeza que ela tem lá vizinhos a visitá-la, fora o resto. Que bom ter coisas já prontas para comer. Laura! ― Levantou-se com um pulo. ― Vai buscar o cesto grande ao armário da escada.

― Mas, mãe, acha que é boa ideia? perguntou Laura.

Como era curioso que, mais uma vez, ela se sentisse diferente de todos os outros. Levar migalhas da festa. Será que a pobre mulher iria gostar?

― Claro que sim! Que se passa contigo hoje? Há uma hora ou duas insistias em que devíamos ser simpáticos, mas agora….

Está bem! Laura foi a correr buscar o cesto. A mãe encheu-o até cima.

― Vai tu levá-lo, querida, ― disse para a filha. ― Depressa, vai assim mesmo como estás. Espera, leva também os lírios. As pessoas do povo gostam tanto de lírios.

― As hastes vão-lhe dar cabo dos atilhos do vestido, ―disse Jose, sempre prática.

Era verdade. Mesmo a tempo. ― Então leva só o cesto. E Laura ― a mãe saiu do toldo atrás dela  ― em caso nenhum …

― O quê, mãe?

Era melhor não meter ideias na cabeça da criança! ― Nada! Vai depressa.

Estava a ficar escuro quando Laura fechou os portões do jardim. Um cão grande passou a correr como uma sombra. Na estrada vislumbravam-se clarões brancos, e abaixo na cova as casinhas estavam mergulhadas numa sombra escura. Tudo parecia sossegado no fim de tarde. Aqui ia ela colina abaixo até um lugar onde um homem jazia morto, e ela não conseguia perceber porquê. Porque é que não conseguia? Parou um instante. Pareceu-lhe que de algum modo tinha dentro dela beijos, vozes, colheres a tilintar, risos, o cheiro de erva pisada. Não tinha lugar dentro dela para nada mais. Olhou para cima, para o céu pálido, e tudo em que pensou foi, ― Sim, foi a festa com maior sucesso.

Agora tinha atravessado a estrada larga. Entrou na travessa, enevoada e escura. Mulheres em xales e homens com bonés de tweed passavam apressadamente. Homens debruçavam-se sobre tábuas, crianças brincavam nos vãos de porta. Um ruído surdo vinha das casinhas humildes. Nalgumas cintilava uma luz, e uma sombra, como um caranguejo, passava pela janela. Laura baixou a cabeça e continuou. Agora achava que devia ter trazido um casaco. Como o seu vestido brilhava! E o chapéu grande com a fita de veludo – se ao menos tivesse trazido outro chapéu! Estariam as pessoas a olhar para ela? É que deviam estar. Era asneira ter vindo; desde o início que ela o tinha percebido. E se voltasse para trás?

O GARDEN- PARTY – VII

Era demasiado tarde. Já estava em frente à casa. Tinha que ser aquela. Havia um agrupamento de pessoas à porta. Ao pé da cancela, uma mulher muito velha com uma muleta estava sentada numa cadeira, a observar. Tinha os pés poisados num jornal. As vozes interromperam-se quando Laura se aproximou. O grupo desfez-se. Era como se a esperassem, como se soubessem que ela vinha.

Laura estava terrivelmente nervosa. Atirando a fita de veludo por cima do ombro, perguntou a uma mulher que parecia estar ali à espera: ― É a casa da Senhora Scott? ―e a mulher, com um sorriso esquisito, respondeu: ― É sim, minha menina.

Oh, se pudesse estar longe dali! Disse para si própria, ― Deus me ajude, ― enquanto atravessava o pequeno quintal e batia á porta. Estar longe daqueles olhares fixos, ou escondida por qualquer coisa, nem que fosse um daqueles xales que as mulheres usavam. Deixo o cesto e vou-me embora, decidiu consigo própria. ― Nem vou esperar que o despejem.

Mas nesse instante a porta abriu-se. Uma mulher baixinha apareceu no escuro.

Laura perguntou, ― É a Senhora Scott? ― Ficou horrorizada quando a mulher respondeu, ― Entre faz favor, menina ― e a fizeram entrar no corredor.

― Não, ― disse Laura, ― não quero entrar. Só quero deixar este cesto. A minha mãe enviou…

A mulher baixinha no corredor escuro parecia não a ter ouvido. ― Venha por aqui, por favor, menina, ― disse com uma voz servil, e Laura seguiu-a.

Foi ter a uma cozinhamiserável, pequena e baixa, iluminada por uma lâmpada enegrecida. Uma mulher estava sentada ao pé da lareira.

― Em, ― disse a criatura que a tinha acompanhado. ―Em! É uma senhora. ― Virou-se para Laura. Disse vincadamente, ― Sou irmã dela, menina. Não lhe leva a mal, pois não?

― Mas claro que não! disse Laura. ―Por favor, não a incomode. Eu – eu só queria deixar…

Mas a mulher sentada à lareira virou-se nesse mesmo instante. A cara dela, inchada, vermelha, com os olhos dilatados, os lábios intumescidos, tinha um ar medonho. Parecia que não se tinha apercebido da presença de Laura. O que se passava? Que fazia aquela estranha na cozinha com um cesto? A que propósito? E o rosto triste franziu-se novamente.

― Está tudo bem, minha querida, ― disse a outra. ― Eu agradeço à senhora.

E começou novamente, ― A menina desculpa-a, com certeza, ― e o rosto dela, também muito inchado, esboçou um sorriso servil.

Laura só queria sair, ir embora. Voltou ao corredor. A porta abriu. Foi ter direitinha ao quarto onde jazia o morto.

― Gostava de o ver, não é verdade? ― disse a irmã de Em, e passou por Laura para ir até à cama. ― Não tenha medo, minha jovem, ― e agora a voz dela era amigável e trocista, e com afecto puxou para baixo amanta― ele parece uma estampa. Não tem nada de especial. Venha cá, querida.

Laura aproximou-se.

Jazia ali um homem novo, mergulhado no sono – dormindo tão profundamente, que parecia muito longe delas as duas. Tão longínquo, tão pacífico. Estava a sonhar, de certeza. Não o acordem mais. A cabeça dele mergulhava na almofada, os olhos estavam fechados; nada viam sob as pálpebras fechadas. Tinha-se entregue ao seu sonho. Que lhe importavam garden-parties, cestos ou atilhos de vestidos? Estava longe de tudo. Ele era maravilhoso, bonito. Enquanto eles riam e a orquestra tocava, esta maravilha tinha descido até á travessa. Feliz… feliz… Está tudo bem, dizia o rosto adormecido. Está tudo como deve ser. Estou contente.

De qualquer maneira era uma obrigação chorar, e ela não podia deixar o quarto sem lhe dizer alguma coisa. Laura soluçou alto, como uma criança.

― Perdoe o meu chapéu, disse.

Desta vez não esperou pela irmã de Em. Procurou a saída, atravessou o quintal, passou por aquelas pessoas à porta. Na esquina da travessa deu com Laurie.

Ele veio ao encontro dela. ― És tu, Laura?

― Sim.

― A mãe estava a ficar nervosa. Correu tudo bem?

― Mais ou menos. Oh, Laurie! ―Agarrou-lhe no braço, e abraçou-se a ele.

― Estás a chorar, não me digas? ― perguntou o irmão.

Laura acenou com a cabeça. Estava mesmo.

Laurie pôs o braço à roda dos ombros dela. ― Não chores, ― disse com num tom terno e quente. ― Foi terrível?

― Não, ― Laura soluçou. ―Foi maravilhoso. Mas Laurie…― Parou e olhou para o irmão. ― A vida não é, ― gaguejou ― a vida não é… ― E não foi capaz de se explicar. Não tinha importância. Ele percebia.

― É, não é, querida? ― disseLaurie.

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