POESIA AO AMANHECER – 162 – por Manuel Simões

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GREGÓRIO DE MATOS

( 1633 – 1696 )

AGRADECIMENTO DE UNS DOCES A SUA FREIRA

Senhora minha, se de tais clausuras

tantos doces mandais a uma formiga,

que esperais vós agora que eu vos diga

se não forem muchíssimas doçuras?

Eu esperei de Amor outras venturas,

mas ei-lo vai, tudo o que é dar obriga,

ou já ceia de amor, ou já uma figa,

da vossa mão são tudo ambrósias puras.

O vosso doce a todos diz: comei-me,

de cheiroso, perfeito e asseado;

Eu por gosto lhe dar comi e fartei-me.

Em este se acabando irá recado,

e se vos parecer glutão, sofrei-me

enquanto vos não peço outro bocado.

É vasta a obra poética do que, pela veia satírica e obscena, era chamado “Boca do Inferno”. Os amores freiráticos são tema frequente dos cancioneiros barrocos, como neste caso em que o soneto joga com processos criadores de ambiguidade, com a carga erótica e o sentido duplo do verso final, dualidade já anunciada pelo primeiro verso da segunda quadra.

“Muchíssimas” (v.4) é um castelhanismo, fenómeno frequente na obra destes poetas que escreviam nas duas línguas.

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