CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 36 – por José Brandão

O conde de Castelo Melhor no exílioImagem1

Quaisquer que fossem os erros políticos do conde de Castelo Melhor nos embaralhados negócios da corte, é certo que em matérias de governo ele bem servira o País, principalmente na preparação da defesa contra a Espanha. A ele cabe uma boa parte dos louros das últimas vitórias dos portugueses. O seu erro mais funesto foi pretender contrariar excessivamente uma revolução política que, dada a incapacidade do monarca, devia triunfar a breve prazo. Se D. Afonso não podia exercer dignamente as funções da realeza, e se, de facto, existia um só poder efectivo, que era o do valido, parecia que este, quando dizia defender a autoridade real, procurava defender a sua própria autoridade.

Vencido no papel que imprudentemente assumira, o exílio era uma consequência necessária, e, naquele tempo, benigna, se não fora excessivamente prolongado.

Chegando a Lisboa notícia de que o conde se refugiara no Convento do Buçaco, expediram-se logo duzentos soldados de cavalo que o procurassem e prendessem. Os soldados cercaram a mata, e, depois de fazerem buscas baldadamente, quiseram incendiá-la; os frades opuseram-se energicamente. Fizeram-se novas diligências com mais tropa e sem resultado; o conde escapou debaixo do altar-mor.

Disfarçado atravessou o conde de Castelo Melhor a Espanha em direcção a Paris, onde esperava encontrar protecção para alcançar a liberdade de voltar à pátria. Pouco depois de chegar a capital da França fez constar ao príncipe D. Pedro que se encontrava lá; o regente mandou insinuar-lhe o seu desejo de que o conde escolhesse para sua residência a corte de Sabóia. Para lá se transferiu o conde de Castelo Melhor ainda em 1668. O duque de Sabóia era Carlos Manuel II, casado com Maria Joana Baptista de Nemours, filha de Carlos Amadeu de Sabóia e, portanto, irmã de D. Maria Francisca Isabel de Sabóia. Com a cunhada contava talvez D. Pedro para ser vigiado o conde de Castelo Melhor.

Durante dois anos esperou em Turim algum indício de se lhe permitir o regresso a Portugal. Como as suas esperanças se frustrassem, tratava em 1671 de alcançar a protecção da corte de Luís XIV, onde tinha excelentes relações. Precisava de regressar a Portugal para tratar dos negócios da sua casa, e contentava-se se o deixassem viver obscuramente numa pobre aldeia. Em Sabóia mereceu sempre as mais altas considerações, e ali foi ouvido sobre negócios graves de politica internacional.

Como tardasse a solução que desejava, em 1675 resolveu ir para Inglaterra, onde esperava alcançar a protecção de Carlos II e da rainha D. Catarina. Partiu nos fins de Setembro ou princípio de Outubro e chegou a Paris nos primeiros dias de Novembro. Ali o esperavam uma desagradável novidade: o representante de Portugal naquela corte intimou-lhe, em nome do príncipe D. Pedro, ordem de voltar para Sabóia no prazo de quinze dias, sob a pena de ser considerado desobediente.

O conde de Castelo Melhor resignou-se a obedecer, e só a falta de dinheiro o impediu de cumprir a ordem no prazo marcado. Entretanto valeu-se de todos os recursos ao seu alcance para aplacar o ânimo do regente. Escreveu a Carlos II, à rainha D. Catarina e a outras grandes personagens de Inglaterra, pedindo a sua mediação. Escreveu até ao regente e a D. Maria de Sabóia, pedindo humildemente permissão de voltar a Portugal. […]

Em 1677 pôde o conde de Castelo Melhor mudar a sua residência para Londres, onde chegou nos fins de Setembro. Ali desfrutou uma posição de grande relevo e dela se serviu para prestar excelentes serviços ao seu país. A D. Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra, que tanto se empenhara a favor do exilado, retribuiu este com a maior diligência e habilidade nas dissensões que ela teve com o marido, que, segundo se receava, estava a ponto de divorciar-se dela.

Finalmente, em 1685, já falecidos el-rei D. Afonso VI e a princesa D. Maria Francisca de Sabóia, permitiu D. Pedro II que o conde de Castelo Melhor viesse residir na vila de Pombal. Só dois anos depois, em 1687, e a pedido de Jaime II de Inglaterra, foi autorizado a residir em Lisboa. Faleceu a 15 de Agosto de 1720, com oitenta e quatro anos de idade.

O conde de Castelo Melhor despede-se do rei D. Afonso VI na ilha Terceira

Ficou el-rei preso em seus aposentos, como vimos, e ali continuou algum tempo no seu habitual estado de espírito, com fúrias e despropósitos, que o autor da Anticatástrofe, sempre disposto a atenuar-lhe os defeitos, descreve nestes termos:

«Na primeira noite da prisão de el-rei se nomearam guardas para o segurar, todos eram criados do infante e de quem ele mais se fiava. Discorreu-se de seu tratamento e de se lhe tirarem as armas sem violência, pois se receava que mataria os que ficavam em sua guarda, e enquanto el-rei foi senhor das armas todos andavam mui temerosos, e tanto que os guardas não quiseram assistir onde ele estava com a sua gente, senão em outra sala logo fora, tendo sempre as portas fechadas à chave, e quando às horas de comer, ou fora delas, os criados de el-rei tinham de sair, ou entrar, haviam de vir só dois, um deles ficar entre as portas das duas salas, para avisar os guardas de qualquer movimento que el-rei quisesse intentar. E perguntando eu a um que se chamava Fernão Barbalho Bezerra como se haviam com a pessoa de el-rei e se estava ainda furioso, me disse: de suas fúrias me não dá a mim, o que trago no sentido são as armas que ele tem, porque se matar algum de nós ninguém lhe há-de pedir conta disso, nem castigá-lo, e pela menor defensa que façamos nos cortarão as cabeças.»

A prisão de el-rei era determinada pela necessidade de impedir que a sua pessoa servisse de pretexto para conspirações e tumultos. Pela mesma razão se tornaram grandes precauções policiais em volta do paço e na cidade.

Querendo D. Pedro tirar D. Afonso do aperto daquela prisão, e sabendo que ele desejava ir para Vila Viçosa, lhe mandou propor a mudança para o castelo da ilha Terceira, sadio e onde podia fazer exercício, porque era grande o âmbito do castelo. El-rei aceitou de bom ânimo.

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