Este ano iniciou-se com mais uma criança na minha família. Não sei como vai correr em relação a número de nascimento no país. Sei que, no ano que terminou, nasceram pouco mais de 90 mil crianças em Portugal, menos sete mil do que no ano anterior, segundo os últimos dados do rastreio neonatal.
Como ficamos a saber? Através do Programa Nacional de Diagnóstico Precoce, conhecido como o “teste do pezinho” , que consiste no rastreio a 25 doenças através de uma amostra de sangue, colhida no pé da criança entre o seu terceiro e sexto dia de vida. Foi o que este novo bebé foi também fazer, no Centro de Saúde.
Um bebé é um desafio para os pais, este de terem um filho. Abordarei só as alterações do dia a dia e não nos receios com o futuro, as despesas, etc.
Tenho seguido as alterações que os pais têm feito para se ajustarem ao pequenino ser que levaram para casa, desta vez já fora do aconchego do ventre materno.
Tenho visto como se vêm acertando nas novas formas de comunicação com o bebé: com o sorriso, o toque, a carícia, o falar-lhe, a manutenção do contacto visual…
Tenho visto como recebem os sinais dele vindos, tentando interpretá-los. No choro, por exemplo. Sabemos que nos primeiros meses de vida, em cada 24 horas, o bebé passa, em média, um total de 2 horas a chorar. O choro do bebé existe porque é um som que é difícil os pais ignorarem e os faz reagir. É uma forma natural, em defesa do cumprimento das necessidades da criança. Por incomodar os adultos fá-los pensar no que os bebés estarão a precisar naquele momento.
Tenho visto como tentam perceber o que o filho quer dizer em cada momento: tem fome ou sede? Tem necessidade de arrotar? Tem necessidade que lhe mudem a fralda? Tem calor ou frio? Está aborrecido?
Tenho visto como tentam acalmá-lo: embalando, andando com ele ao colo, cantando-lhe, fazendo sons ou com música suave, dando palmadinhas nas costas, acariciando o seu corpo.
Tenho visto como se entreajudam e se revezam, tentando não perder a paciência, afastando-se um pouco do bebé, para recuperar forças. Tenho visto como dividem tarefas domésticas e fazem mimos um ao outro. Tenho visto como incutem e repartem segurança e confiança. Este bebé parte com o seu próprio potencial e conta com tudo o que precisa para se desenvolver neste momento.
Minha mãe, ao escrever o poema que se segue, também poderia pensar neste descendente:
Havia o menino nascido.
No berço adormecido
tinha uma rosa na mão.
A flor viera sozinha,
Interrompendo um destino:
Deixou que as outras flores
fossem vivendo e murchando,
que o sol viesse e se fosse
e o vento colhesse as sementes.
Ela soube do berço e veio.
Pôs-se na mão do menino
e tomou-o como filho.
Lutou por ele quanto pôde,
invejas, ódio, moedas,
venceu-os um a um.
E o menino dormira, dormia
enquanto a rosa velava.
Não tinha fadas madrinhas,
mas ficou abençoado
para cada dia da vida.
Maria Cecília Correia

