Platão em A República debate já o mistério da génese da poesia – para que serve? 
Milan Kundera responde que escreve pelo prazer de contradizer e pela felicidade de estar sozinho contra todos; tal como Fernando Pessoa, – fazer poesia não constitui uma ambição pessoal, mas a sua maneira de estar só. Neruda diz que a história prova a capacidade demolidora da poesia, e Gabriel Celaya vê-a como uma arma carregada de futuro. Um outro poeta, Luis García Montero, é mais modesto – a poesia é um ajuste de contas com a realidade.
Temo-lo declarado por diversas vezes – somos contra os «dias mundiais» – os direitos, sejam os da humanidade, os do homem, da mulher, da criança, dos animais devem ser respeitados todos os dias. Parece-nos mais uma forma de mitigar más-consciências do que um anseio genuíno de celebrar direitos adquiridos pela evolução histórica da sociedade. E essas celebrações surgem como operações de marketing, para potenciar vendas. Não será o caso do Dia Mundial da Poesia, que hoje se celebra, pois a poesia não é um produto com grande circulação comercial – na melhor das hipóteses, as livrarias registarão algum acréscimo na venda de livros de poemas. Seja como for, por decisão da XXX Conferência Geral da UNESCO, realizada em 16 de Novembro de 1999, foi criado o Dia Mundial da Poesia e escolhido 21 de Março, para o celebrar.
Segundo se pode ler na acta da reunião, a decisão tem o “objectivo primeiro de defesa da diversidade linguística” e de celebrar a diversidade do diálogo, a livre criação de ideias através das palavras, criatividade e inovação. A celebração permite fazer, segundo a UNESCO, uma reflexão sobre o poder da linguagem e do desenvolvimento das capacidades criativas de cada ser humano. Em suma, a decisão assenta no pressuposto de que a poesia contribui para a diversidade criativa, usando as palavras e os nossos modos de percepção e de compreensão do mundo. No mesmo dia, festeja-se o Dia Mundial da Árvore.
Menos mal, hoje, no começo da Primavera, celebra-se a poesia e a árvore.
Desde o primeiro dia, em A Viagem dos Argonautas, a poesia tem tido uma rubrica específica – desde há 163 dias, celebramos todos os dias a Poesia,. Às oito da manhã, a mão sabedora de Manuel Simões, traz-nos um poeta – é a Poesia ao amanhecer. Outra rubrica diária – Livro & Livros – fala frequentemente em livros de poemas… Não sentimos hoje necessidade de dedicar a edição à Poesia. Mas, como sempre, falaremos muito de poesia. E até falaremos sobre o Dia Mundial da Poesia. Cervantes dizia, mais ou menos, que ano farto em poesia é também um ano farto em fome. Não exageremos, pois.
