O GARDEN-PARTY, de Katherine Mansfield – 6 – por João Machado

A tradução de The Garden Party (de João Machado), foi dividida em sete partes. Terminamos a publicação amanhã.

Katherine Mansfield – An Ideal Family

O GARDEN- PARTY – VI

―Laurie!

― Olá! ― Ele ia a meio das escadas, mas virou-se e quando viu Laura encheu as bochechas e arregalou os olhos para ela. ― Acredita, Laura! Estás mesmo estonteante. ―disse. ― Que categoria de chapéu!

Laura respondeu com voz fraca ―Achas? ―, sorriu para o irmão e acabou por não lhe contar nada.

A seguir as pessoas começaram a chegar aos magotes. A orquestra começou a tocar; os criados contratados despachavam-se entre a casa e o toldo. Por todo o lado viam-se casais deambulando, inclinando-se para ver as flores, cumprimentando, passeando sobre o relvado. Eram como passarinhos coloridos que tivessem poisado no jardim dos Sheridan naquela tarde, na sua viagem para – onde? Ah, que agradável é estar com pessoas que estão felizes, apertar mãos, acariciar faces, sorrir uns nos olhos dos outros.

― Querida Laura, que bem que estás

― Como te fica bem esse chapéu!

― Laura, pareces mesmo uma espanhola. Nunca te vi tão encantadora.

E Laura, animadíssima, respondia suavemente, ― Já tomaram chá? Não querem um gelado? Os gelados de maracujá são qualquer coisa de especial. ― Foi a correr ter com o pai e pediu-lhe ― Paizinho querido, pode-se servir qualquer coisa para beber á orquestra?

E uma tarde perfeita amadureceu lentamente, lentamente se foi apagando, lentamente fecharam-se as suas pétalas.

― Nunca um garden-partyfoi tão delicioso… ―, ― O maior acontecimento…―, ― Foi mesmo o máximo…

Laura ajudou a mãe nas despedidas. Ficaram lado a lado no alpendre até tudo ter acabado.

― Acabou tudo, finalmente, graças a Deus, ―disse a Senhora Sheridan. ― Junta os outros e vamos tomar um café acabado de fazer. Estou exausta. Pois, correu tudo muito bem. Mas estas festas, estas festas! Porque é que, miúdas, insistem em dar festas! ― E foram todos sentar-se debaixo do toldo deserto.

― Querido papá, come uma sanduíche. Fui eu que fiz o letreiro.

― Obrigado. ― O Senhor Sheridan deu uma dentada e a sanduíche foi-se. Pegou noutra. ― Suponho que não ouviram falar de um acidente brutal que aconteceu hoje? ― perguntou.

― Meu querido, ― disse a Senhora Sheridan, levantando a mão, ― ouvimos. Quase estragou a festa. A Laura insistia em que a suspendêssemos.

― Oh, mãe! ― Laura não queria que a arreliassem com o assunto.

― Foi um acontecimento horrível de qualquer modo, ― disse o Senhor Sheridan. ― O fulano ainda por cima era casado. Morava mesmo aqui em baixo na travessa, e deixa viúva e meia dúzia de garotos, ao que contam.

Caiu um silêncio pesado. A Senhora Sheridan abanicava a chávena. Realmente, era cá uma falta de tacto do pai…

De súbito, olhou em frente. Sobre a mesa restavam por comer sanduíches de todos os tipos, bolos, bombas. Iam ser deitados fora. Teve uma das suas ideias brilhantes.

― Já sei. ―disse. ― Vamos arranjar um cesto. Vamos enviar àquela pobre criatura alguma desta comida em perfeito estado. Seja como for, será o melhor regalo para as crianças. Não acham? E com certeza que ela tem lá vizinhos a visitá-la, fora o resto. Que bom ter coisas já prontas para comer. Laura! ― Levantou-se com um pulo. ― Vai buscar o cesto grande ao armário da escada.

― Mas, mãe, acha que é boa ideia? perguntou Laura.

Como era curioso que, mais uma vez, ela se sentisse diferente de todos os outros. Levar migalhas da festa. Será que a pobre mulher iria gostar?

― Claro que sim! Que se passa contigo hoje? Há uma hora ou duas insistias em que devíamos ser simpáticos, mas agora….

Está bem! Laura foi a correr buscar o cesto. A mãe encheu-o até cima.

― Vai tu levá-lo, querida, ― disse para a filha. ― Depressa, vai assim mesmo como estás. Espera, leva também os lírios. As pessoas do povo gostam tanto de lírios.

― As hastes vão-lhe dar cabo dos atilhos do vestido, ―disse Jose, sempre prática.

Era verdade. Mesmo a tempo. ― Então leva só o cesto. E Laura ― a mãe saiu do toldo atrás dela ― em caso nenhum …

― O quê, mãe?

Era melhor não meter ideias na cabeça da criança! ― Nada! Vai depressa.

Estava a ficar escuro quando Laura fechou os portões do jardim. Um cão grande passou a correr como uma sombra. Na estrada vislumbravam-se clarões brancos, e abaixo na cova as casinhas estavam mergulhadas numa sombra escura. Tudo parecia sossegado no fim de tarde. Aqui ia ela colina abaixo até um lugar onde um homem jazia morto, e ela não conseguia perceber porquê. Porque é que não conseguia? Parou um instante. Pareceu-lhe que de algum modo tinha dentro dela beijos, vozes, colheres a tilintar, risos, o cheiro de erva pisada. Não tinha lugar dentro dela para nada mais. Olhou para cima, para o céu pálido, e tudo em que pensou foi, ― Sim, foi a festa com maior sucesso.

Agora tinha atravessado a estrada larga. Entrou na travessa, enevoada e escura. Mulheres em xales e homens com bonés de tweed passavam apressadamente. Homens debruçavam-se sobre tábuas, crianças brincavam nos vãos de porta. Um ruído surdo vinha das casinhas humildes. Nalgumas cintilava uma luz, e uma sombra, como um caranguejo, passava pela janela. Laura baixou a cabeça e continuou. Agora achava que devia ter trazido um casaco. Como o seu vestido brilhava! E o chapéu grande com a fita de veludo – se ao menos tivesse trazido outro chapéu! Estariam as pessoas a olhar para ela? É que deviam estar. Era asneira ter vindo; desde o início que ela o tinha percebido. E se voltasse para trás?

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