NOTÍCIAS DA BANDA DESENHADA – BDBD

UM MONSTRO SAGRADO DA BD: WILLIAM VANCE

A  gloriosa adjectivação de “monstro sagrado”, tem-se aplicado desde sempre aos actores/actrizes do Teatro/Cinema que, pela sua cilindrante carreira se demarcaram para sempre com este tão meritório termo-elogio.

Exemplos: Anna Magnani, Simone Signoret, Melina Mercouri, Edith Evans, Amélia Rey-Colaço, Vivien Leigh, Katharine Hepburn, Peter O’Toole, Jean Gabin, Totó, Peter Ustinov, Marlon Brando, etc. Mas também se poderá aplicar a certos génios da Pintura e da Escultura, por exemplo. Ou do Bailado… Ou da Música que para sempre ficará… E, obviamente, à Banda Desenhada. Duvidam?… Ora essa: será que não gostam ou não percebem mesmo nada de Banda Desenhada?!… É preciso conhecer os seus altos valores, quiçá, os seus “monstros sagrados”.

Pois, candidatos a essa invejável classificação, temos alguns bons valores entre nós… Não, não vamos citá-los por agora. Mas existem!

Pelo estrangeiro, para além do “terrível” canadiano Hal Foster e dos altos criadores europeus da “linha clara” (Hergé, Franquin, Jacques Martin, Eddy Paape, etc), do espanhol Jesus Blasco, dos italianos  Franco Caprioli, Hugo Pratt e Milo Manara, esbarramos com outros francófonos, donde se destacam, o suíço Derib e, pelos belgas inultrapassáveis, Hermann e Didier Comès e, sobretudo, Fred Funcken, Jijé ( já falecido) e o nosso “convidado” de hoje, esse imenso talento que assina como William Vance.Imagem1

William Van Cutsen, que optou por se assinar como William Vance em 1962, nasceu em Anderlecht a 8 de Setembro de 1935. Cursou na Academia de Belas-Artes de Bruxelas. Há vários anos que reside na zona de Santander (norte de Espanha) com sua esposa, a colorista Pétra, por sua vez, irmã do desenhista Felicisimo Coria, este que continua a desenhar a imparável série “Bob Morane”. Vance sempre se tem esquivado a comparecer em salões, festivais ou coisa que o valha. Em Julho de 2010, anunciou a sua retirada da carreira, dado que estava afectado com a “doença de Parkinson”, Uma amargura, infelizmente, verdadeira …

Ora vamos lá contar “algumas coisas” sobre a carreira e obra deste avassalador “monstro sagrado” da BD… Os que já conhecem alguma coisa dela, vão certamente tentar relê-la e descobrir o que lhes escapou. Os outros, se forem inteligentes, cultos e verdadeiros amantes da 9.ª Arte, ficarão certamente deslumbrados… Para vesguice repulsiva ante a obra de Vance, já nos basta a “cegueira” das nossas editoras-BD!…

Ele começou a trabalhar para uma agência de publicidade. Depois, com ilustrações para a revista “Tintin”, onde cedo começou a fazer “curtas” de quatro pranchas. Parte destas

“curtas” foram reunidas no álbum “C’Étaient des Hommes” (Ed. Deligne), hoje muito difícil de ser encontrado, sendo já portanto, uma admirável raridade.

Em 1964, com argumentos de Yves Duval, inicia a série “Howard Flynn”, de certo modo, no ambiente dos corsários. No ano seguinte, com argumentos de Louis Albert (aliás, Greg), aborda pela primeira vez o “western”, com a curta série “Ringo”. Em 1967, também com textos de Greg, inicia “curtas” com outro dos seus mais famosos heróis, Bruno Brazil (onze álbuns), que dará origem a narrativas longas e que se caracteriza pela invulgaridade que, a pouco e pouco, alguns personagens do Comando Caimão (chefiados por Bruno Brazil) vão morrendo, o que marca a posição atenta de que não são só os “maus” que morrem…

Neste entretém de tempo, elabora também várias aventuras de Bob Morane (do escritor Henri Vernes), substituindo o seu colega Gérard Forton, acontecendo que, em 1979, é ocunhado de Vance, o espanhol Felicisimo Coria que prossegue, até hoje, com Morane. E, ainda neste período, Vance elabora capas para as aventuras de Luc Orient, maravilhosamente desenhadas por Eddy Paape.

E ainda por este tempo, Vance, atreve-se à ficção-científica com “XHG-C3”, que é algo de inesperado e de espantoso na sua qualidade!

Genial e incansável, Vance, prossegue com mais duas séries de luxo: “Rodéric” e “Ramiro”, sendo que esta segunda, é uma série que lhe é bem querida, pois situa-se no seu país de adopção, a Espanha. Por falta de tempo, parou com ela, ao fim de nove narrativas, constando que existe uma ainda inédita…

Em 1976, criou o personagem Bruce J. Hawker, que a partir da quarta aventura, passou a ter André-Paul Duchatêau como argumentista. Bruce Hawker e Howard Flynn, até certo ponto, são séries paralelas mas, de qualquer modo, galvanizantes.

Acabou?… Não, de modo algum! Em 1991, mas apenas para dois álbuns, Vance desenha com o seu exemplar talento, duas narrativas da série “Marshal Blueberry” (um herói criado por outro “monstro”, Jean Giraud).

Mas, alguns anos antes, com argumentos de Jean Van Hamme (olha quem?!…), já dera início à fabulosa série XIII, que até deu num filme infeliz que a RTP 1 já exibiu…

Depois, XIII e Vance, pararam! A “Madame Parkinson” apunhalou-os e a nós todos… A obra imensa e diversificada (até com umas raríssimas escapadelas pelo campo humorístico) deste “monstro sagrado da BD” nunca foi correctamente levada com consideração e respeito, em publicações em Portugal, tanto por periódicos como pelas devidas editoras, donde se conclui que, cada vez mais, não passamos de um país demente e de obtusos…

Paciência, que Fátima já não faz milagres!

Ringo: o “western” também foi tema trabalhado por Vance
Bob Morane, segundo William Vance
Prancha de “Ramiro”

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