CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 39 – por José Brandão

                     

D. MARIA I – A PIEDOSA

 (reinou de 1777 a 1816)

Imagem1«O reinado de D. Maria I veio demonstrar que o braço de ferro do marquês de Pombal não pudera desviar da carreira da decomposição esta sociedade envenenada pela educação jesuíta. O ministro pôde exterminar a Companhia, mas não pôde extinguir o seu espírito, nem os seus discípulos, que eram em Portugal toda a gente, incluindo Pombal em pessoa. Pôde, à custa de vontade e dinheiro, forjar um Portugal aparente: não pôde alterar a índole adquirida do povo. Como charrua que revolve a gleba, exterminou as plantas visíveis; porém as raízes dos cardos e escalrachos ficaram e reverdeceram. Logo que a morte do rei condenou o ministro ao exílio, rebentaram do chão os cogumelos, a adornar o trono de uma rainha a quem nunca sobrou o juízo, e veio a morrer doida. Nos seus seis reis, a dinastia de Bragança contava já dois mentecaptos declarados: Afonso VI, D. Maria I.

Nobreza e clero, de mãos dadas, sentiam a necessidade de continuar a comédia do tempo de D. João V, que o importuno ministro viera interromper. Mas o abalo do terramoto amesquinhara ainda mais os espíritos, e a restauração do Portugal clássico demonstrou a realidade de um verdadeiro entremez idiota. Nem para farsas nem para óperas, como as do tempo de D. João V, havia já nervos. Cumpre-nos, pois, a nós registrar as fisionomias dos personagens e a acção da peça. Desse modo o leitor ficará sabendo melhor como era esse tempo do que se nos demorássemos a estudar os casos mesquinhos da política; o processo do marquês, a reabilitação dos réus do 3 de Setembro, etc.

As influências do confessionário e de alcova tornaram a ser dominantes, agora que no trono se sentava uma mulher, virtuosa sim, mas também a maior beata que a educação jesuíta criara no decurso de quase três séculos. Os empenhos ficaram desde então caracterizando a mola principal do mecanismo administrativo português; e à sombra deles, à sombra da camarilha que reinava no paço, instituía-se uma desordem tão soez como corrupta. O desembargador formou-se em tipo da pujança inepta, cheia de bazófias, ventripotente e faz-tudo, de uma nação que nada sabia. Pina Manique, o grande homem do reinado, era desembargador, intendente-geral da polícia, administrador da alfândega de Lisboa, feitor-mor das alfândegas do reino, provedor da Casa Pia, administrador das calçadas e da aluminação da capital, e muitas coisas mais.

À sombra da protecção desembargatória fervia o roubo. Um Sarmento e um Costa — era sabido por toda a gente em Lisboa — tinham loja aberta de lugares públicos. Um sargento-mor das ordenanças do Fundo comprara o cargo por 5 000 cruzados. Certa freira, querida de Luís de Vasconcelos, era considerada como um dos melhores empenhos. E o próprio arcebispo de Tessalonica, o confessor da rainha, omnipotente sol da monarquia, não se dedignava de proteger os Ferreiras, arrematantes dos contrabandos. Foi essa uma larga história, cheia de peripécias. Outrora as tomadias eram queimadas; mas a rainha convenceu-se de que melhor valia pô-las em praça, e aplicar o produto a obras pias. As tomadias não eram arrematadas, mas eram dadas por avaliação aos Ferreiras, que engordavam, engordando os seus protectores. Considerava-se como uma das melhores postas a de superintendente dos contrabandos. Os ministros eram criaturas singulares. O marquês de Ponte de Lima, dado por pródigo, nem por isso se julgava inapto para governar o reino. A sua paixão eram as grã-cruzes, e ocupou-se todo na grande obra de fixar de uma vez a cor das fitas de Cristo, de Avis e de Santiago. O cardeal da Cunha tinha uma ostentosa livraria: 11 000 volumes, a que alguns chamavam as onze mil virgens. Mas o grande, grande homem do tempo, era o arcebispo de Tessalonica, tão bruto e atrevido que não escapou a uma sova que lhe deram na matinha de Queluz, moendo-o com sacos de areia, e deixando-o pelas ruas da amargura.

Quem o conheceu de perto viu-o rústico e volumoso, exemplar acabado da brutalidade fradesca e fidalga do fim do XVIII século em Portugal. Tinha começado por cabo de esquadra, e conservava os hábitos: até com o príncipe do Brasil, o futuro D. João VI, a quem tratava de um modo incivil e grosseiro. Era rubro e gordo, e sentado à fresca, desabotoado, prazia-se em gozar as digestões, arrotanto soltamente, à portuguesa. O marquês de Pombal dera-o por confessor à rainha, então princesa do Brasil, por ver como ele era jovial e ignorante. D. Maria I fé-lo inquisidor-mor e seu ministro: quase rei. Sentia-se feliz, satisfeito, e dava largas à sua alacridade beliscando as moças do paço, e perseguindo-as pelos corredores, como um sátiro amável. A rainha, que era muito piedosa, julgava-o, porém, um santo, e nada sabia das suas travessuras. Enfadava-o bastante o governo, a necessidade de ensaiar os conselhos, antes de ir à presença da rainha; e quando olhava para a escada interior, que ligava os seus aposentos aos da soberana, dizia aos íntimos: «Forte praga é aturar essas mulheres, lá de escada acima!» Porém a sós, nos seus quartos, desforrava-se, à larga, sentado à mesa, onde tinha sempre frades seus íntimos, e o famoso truão D. João da Falperra, que lhe fazia estoirar de riso a boca atassalhada de leitão assado. Contavam-se então livremente, na intimidade, as crónicas do paço, os escândalos picarescos da corte, apimentados com as graçolas obscenas ou imundas que ainda faziam rir nossos pais: as graçolas portuguesas. Outra espécie de truão era o leigo que o sorvia, rechonchudo e chocarreiro, tosco e vulgar, almocreve de sandálias, carreiro de escapulário. O leigo dizia que só três pessoas tinham entrado no paço: o sábio, o santo e o bobo; mas o primeiro saía logo desanimado, o segundo mártir, e só o terceiro prosperava. O arcebispo, incapaz de malícia, meneava a cabeça, ria às gargalhadas, servindo-se do leitão louro, nadando em molho na bandeja de prata.

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