POESIA AO AMANHECER – 166 – por Manuel Simões

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PEDRO ANTÓNIO CORREIA GARÇÃO

(1724 – 1772)

SÁTIRA III (fragmento)

De um novo frenesi hoje enlouquece

quase meia Lisboa, e vai lavrando

o mal como um rebanho que engafece.

Alça-se cada dia um novo bando

de Poetas, e praga tão daninha

anda os campos de Apolo devastando.

Não fica planta, fruto, flor, ervinha

sem ser abocanhada; maior dano

nunca fez a lagarta em qualquer vinha.

Cada um deles sem pejo e muito ufano

mais versos num oiteiro só vomita

do que fez Tomás Pinto em todo um ano;

Este daqui o empulha, este outro grita;

mas ele a cantilena leva àvante,

Pois lhe basta que um só – “bravo!” – repita.

Sofra-os muito embora essa ignorante

caterva, que em tropel a ouvi-los vem

com boca aberta e preito semelhante.

(de “Obras Poéticas”)

Correia Garção é um dos mais influentes poetas da “Arcádia Lusitana”, defensor dos clássicos, sem desdenhar o gosto por composições escatológicas e até pornográficas.

Por motivos ainda não esclarecidos, foi em 1771 encarcerado no Limoeiro. A sua obra mais conhecida é a “Cantata de Dido”, moldada sobre um passo da “Eneida” de Virgílio.

Glossário: “oiteiro”: festa conventual para comemorar a eleição de uma abadessa; “Tomás Pinto”: deve tratar-se do poeta Tomás Pinto Brandão (1664-1743).

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