Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota de Introdução ao texto Sejam bem-vindos a 1931
Um texto extraordinariamente importante, de Bradford Delong e de Barry Eichengreen, autores que dispensam quaisquer comentários, a recolocar a questão de por onde terão que passar as vias de solução para o drama que assola a Europa. Uma nota de leitura exigiria tempo e, sobretudo, conhecimentos que pessoalmente não tenho para recolocar a questão do refinanciamento em última instância, em termos de análise económica, e no quadro do sistema monetário internacional, onde o problema é levantado. Este mesmo problema do refinanciamento de última instância é depois colocado pelos nossos dois autores e, pela mesma lógica, no quadro europeu, ou seja, no quadro do comportamento da Alemanha e do BCE face à crise. Aqui aparece pois e é tratada de forma clara a importância do refinanciador em última instância no quadro europeu e o papel que a Alemanha aceita ou não aceita a este nível do problema. Isto é tanto mais importante quanto os mecanismos automáticos de reequilíbrio, no quadro da actual estrutura da União Europeia e das suas políticas terríveis de desregulação e de austeridade prosseguidas, têm sido praticamente reduzidos a zero. Neste caso, então, estamos a cair num quadro de disfuncionamento global dos mercados e a resposta encontrada por Bruxelas é ainda a de aumentar esses mesmos disfuncionamentos, deixando os Estados soberanos ainda mais sob a pressão da ganância dos operadores de mercado. Políticas de austeridade e de desregulação foram o que se deu em 1930 e são também o que a União Europeia está agora a impor aos seus membros. Daí a razão de ser do título do presente texto.
Para uma melhor ou mais fácil compreensão das graves questões aqui levantadas neste trabalho, sugiro a leitura prévia do texto de Eric Le Boucher e depois a leitura do texto de Brunet sobre a internacionalização do yuan, uma vez que na opinião deste autor, a posição a que no limite, a longo prazo diríamos, a China se estaria a posicionar será a de querer assumir o papel de refinanciador de última instância na economia global, como o foram os americanos com o dólar, como o poderia ser a Alemanha sem esta violência no quadro do euro. É a posição de Antoine Brunet, uma posição que merece ser lida, independentemente de se concordar ou não com o ponto de vista deste autor.
Cabe-nos ainda agradecer a Bradford Delong a amabilidade de nos ter autorizado a publicar os seus textos, agradecimento que faço em meu nome pessoal e de toda a equipa do blog A Viagem dos Argonautas.
Júlio Marques Mota
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Seja bem-vindo a 1931
J. Bradford DeLong e Barry Eichengreen
Novo prefácio à obra de Charles Kindleberger, The World in Depression 1929-1939
Parte I
A obra da Charles Kindleberger sobre a Grande Depressão, hoje um clássico, teve a sua primeira edição há cerca de 40 anos. No prefácio a uma nova edição, dois grandes economistas ilustram e defendem que as suas lições serão sempre e definitivamente relevantes.
Os paralelos entre a Europa dos anos 1930 e os dias de hoje na Europa são gritantes, marcantes e cada vez mais assustadores. Nós vemos o desemprego, em especial o desemprego da juventude, a atingir níveis sem precedentes. A instabilidade financeira e a angústia são hoje a situação geral, por todo o lado. Há um crescente apoio político aos partidos extremistas, sejam à esquerda seja à direita.
Quer a existência de paralelos quer a sua trágica natureza não teriam escapado a Charles Kindleberger, cuja obra The World in Depression, 1929-1939, foi publicada exactamente há 40 anos atrás, em 1973 (1). Onde Kindleberger estudava o mundo, o seu centro de atenção ou de partida era a própria Europa. Embora grande parte da literatura anterior, frequentemente de autores americanos, estava centrada na Grande Depressão e nos EUA, Kindleberger sublinhou que a Grande Depressão tinha uma proeminente dimensão internacional e, em particular, tinha uma dimensão europeia. E foi na Europa, que se deram os piores efeitos da Grande Depressão e que se mostraram tanto no plano político como no plano económico. E foi igualmente na Europa, onde a ausência de uma autoridade de política governamental a nível do continente assim como a incapacidade de qualquer governo nacional individual ou de qualquer banco central poder assumir a adequada liderança teve efeitos mais calamitosos, quer a nível económico quer a nível financeiro (2) .
Estas foram as ideias, com que Kindleberger impressionou e marcou gerações de estudantes assim como o seu público leitor, em geral. Na verdade, qualquer um afortunado que vivesse na Nova Inglaterra no início de 1980 e possuísse algum interesse mesmo que limitado na história financeira e monetária internacional sentia-se obrigado em andar, em conduzir ou em viajar no T (era assim que o metro de Boston é conhecido pelas pessoas locais) e descer até MIT Sloan Building, a fim de ouvir as palestras de Kindleberger sobre estas matérias (incluindo mesmo os autores deste prefácio). Nós entendíamos talvez não mais de metade do que ele dizia e reconhecíamos não mais de um quarto das referências históricas e das suas alusões. A experiência foi intimidatória: Paul Krugman, que era membro do mesmo grupo e que foi agraciado com o Prémio Nobel pelo seu trabalho em economia internacional, explicou como é que as lições de Kindleberger o assustaram e quase que o colocaram longe das matérias de Economia Internacional. As lições de Kindleberger eram seguramente “cheias de sabedoria” nota Krugman. Mas então quem é que com 20 anos se sentiria sábio, para estas aulas ?
Havia realmente muita sabedoria nas lições de Kindleberger, sobre como é que os mercados funcionam, sobre como é que eles são geridos e especialmente sobre como é que eles podem estar a funcionar de modo ineficiente, de modo errado e por muito tempo até. Não é por acaso que, quando Martin Wolf, decano dos jornalistas financeiros britânicos, desafiou o antigo Secretário de Estado do Tesouro, Lawrence Summers, em 2011, a negar que os economistas tinham provado que eles próprios eram inúteis face à crise financeira de 2008-9, a resposta de Summers, ao contrário, foi a de que estes economicamente tinham sido muito úteis. Mas o que na verdade foi útil para entender a crise financeira não se encontra no mainstream académico, não se encontra no ensino dominante, o que se lecciona nas Universidades, não se encontra nos seus modelos matemáticos, engalanados com símbolos gregos e complexas relações abstractas, mas sim no trabalho pioneiro do jornalista financeiro Walter Bagehot no século XIX, no teórico das bolhas do século XX , Hyman Minsky, e “talvez mais ainda em Kindleberger”, in Wolf and Summers 2011).
