CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 40 – por José Brandão

Escadas acima, a cena mudava. O palácio era um convento. O rei esposo, feiíssimo, com um aspecto de idiota, olhar esgazeado, a peruca desgrenhada, parecendo bêbado, era um sacristão, ou coisa nenhuma: o ente que piedosamente fora encarregado de dar herdeiro à coroa. Por toda a parte se murmuravam terços, e havia santos por todos os cantos, em oratórios e nichos, com velas e lâmpadas acesas. Os aventureiros protestantes da guerra do conde de Lippe convertiam-se, para terem postos e a rainha por madrinha. O exército era uma confraria; e Santo António, que por ordem de D. Pedro II sentara praça em 1668 no regimento de infantaria de Lagos, subia ao posto de major-ajudante, depois de várias façanhas e proezas que no comando das tropas praticara contra os castelhanos — segundo o atestava o coronel. O paço, venerando o milagre, despachava o santo. Cheia de escrúpulos devotos, a rainha banira as mundanidades teatrais, proibindo as mulheres de entrarem em cena. Contavam-se as abominações perdidas do reinado anterior; e com os olhos no céu, e as mãos postas, a piedosa senhora pedia a Deus que lhe perdoasse os pecados do rei seu pai, a quem tanto respeitava. As damas descreviam as comédias do Pátio das Arcas, ou do Bairro Alto, e os coros infernais das bailarinas e cantoras da Rua dos Condes. Em boa verdade, diziam algumas com saudade, a companhia de Zamperini trouxe-a o núncio de S. Santidade, Galli, que vivia com eles em permanência. — E a rainha, não podendo explicar o caso, impunha silêncio, lembrando a impiedade de dar 1 200 ducados de ouro a Jomelli por uma cantata, e 25 contos à Conti e à Cafarelli por três meses de teatro em Lisboa. Tanto dinheiro poderia ter tido mais piedosa aplicação, e ter-se-iam evitado graves escândalos… O patriarca tinha sido forçado a castigar o Padre Macedo, o Grão-Macedo proibindo-o de ir à ópera, de fazer versos à Zamperini, e de usar o cabelo à italiana, polvilhado e penteado. Essas cantoras de perdição davam a volta ao juízo, e eram um sacrilégio: ia-se à missa do Loreto para as ouvir gargantear!

Melhor do que elas trinavam os castrati, o célebre António Antunes e o Tortinho da Sé: a música da igreja substituía bem a ópera. Com efeito, a da capela real era então, no dizer dos entendidos, a primeira da Europa, levando a palma ao próprio Vaticano. Para distracção bastavam as assembleias em casa, aos domingos, em que as cadelinhas vestidas de senhora representavam comédias com aprazimento geral.

As quatro ou cinco dúzias de açafatas comandadas por um frade, o rancho dos sopranos castrados, o viveiro de músicos e cantores, redondos e lustrosos, os seis mil cavalos e muares das estrebarias reais, a negrinha anã, valida, por nome D. Rosa, sempre vestida de encarnado; os mais anões e fidalgos e pretos, grandes e pequenos, com o portentoso arcebispo de Tessalonica, e o visconde de Vila Nova da Cerveira, o ministro de quem o poeta dissera ser «grã-besta que chegou a ser grã-cruz» — formavam o séquito inseparável da rainha, quando ia a Salvaterra, à caça, ou às Caldas, banhar-se. No séquito incluía-se também o rei.

A capital do seu reino recordava aos viajantes sábios, que tinham visto mundo, Fez ou Mequinez em Marrocos. Mas, por sobre Lisboa africana, havia uma outra Lisboa afrancesada; e a reunião das duas, e a cor raiada de preto e branco da população, produziam contrastes extravagantes.

«Há uns poucos de anos, quando se via um mocetão bem trajado, animado em galantes ditos, andando pelas ruas em ar de minuete, com os olhos em todas as janelas, tirando muitas vezes o chapéu às senhoritas, puxando da algibeira o lenço de cambraia, cuspindo nele para não sujar a rua, enfim, um casquilho completo, chamava-se-lhe bandalho (antes, no tempo de D. João V, tivera por nome faceira): agora diz-se peralta» (Nicolau Luís). O janota odiava os costumes nacionais, falava em francês ou italiano, e ia exclusivamente à Rua dos Condes, à ópera, porque detestava o teatro nacional, do Salitre ou do Bairro Alto. Meneando-se ostentosamente nas ruas, recebendo algum recado (ou fingindo) riqueza, o fidalgo janota era chamado por várias ocupações. Estacionava nas esquinas e nos adros das igrejas, namorando de estafermo, fazendo os sinais com o lenço (alcoviteiro das distâncias) ou partia escudeirando a dama. Corria apressado outras vezes, de uma missa a uma grade, a um oiteiro. Durante a Quaresma devia achar-se às quartas-feiras no Carmo, às quintas na Trindade, aos sábados na Graça; mas os grandes dias eram os das procissões. «Tomava então pílulas de azougue, espalhando-se como espadana pelas ruas, bebendo janelas, engolindo cortinas com um chapéu tão pequeno como a cabeça, quitó (espadim), casaquinha, luvas de manopla e gravata. Se tinha sege, esgotava a fortuna». As meninas, das janelas, faziam-lhe momices e acenos, chamando-o às vezes, à escada, para cochicharem; e pela noite fora ia aos conventos das freiras, onde mais de uma vez a polícia deu assaltos para expulsar as ternuras.

Por essas horas perdidas, nas ruas da mal cheirosa Lisboa — fedorenta, diz Ratton — despenhavam-se das janelas as cataratas de imundícies que os bandos de cães vadios exploravam. Ausente o peralta, Lisboa parecia Marrocos. Afigurava-se também um acampamento do Grão-Mongol das Índias no grande dia de Corpus, com as casas vestidas de damascos e tapeçarias, as varandas cobertas de colchas opulentas, as ruas toldadas de seda e tapetadas de areia e buxo, com o cortejo de padres vermelhos e brancos, de frades e fidalgos, plumas, luzes, pálios, leques, incensos e tropa, salvas de artilharia e foguetes, mendigos leprosos e bandos de crianças com sarna, correndo pelo meio do povo.

Um dia Beckford (opulento inglês que passou algum tempo entre nós e o contou), excitado por uma gritaria infernal na rua, chegou à janela: eram visitas. Vinham dois frades: o padre Teodoro de Almeida, humilde e untuoso, voz fanhosa e olhos em branco, e outro que falava em tom rotundo nas alucinadoras bebidas da filosofia. Cada qual trazia a sua missão. O da filosofia ofereceu um cestinho de doces, embrulhados em papéis recortados, da parte de uma abadessa fidalga que pedia o dote para duas noviças. O padre Teodoro, capelão das Salésias, trazia uma salva de prata com um crucifixo, e um bilhete de convite para uma grade. Os dois frades saíram acompanhados pela música do convento: seis pretos, vestidos de encarnado a tocar tambor e pífanos; seguidos por mais pretos que atacavam foguetes, por uma relé de velhas beatas pedintes, e de garotos tinhosos, saltando, berrando, a dar cabriolas. Os mendigos iam esmolando como faquires, os andadores dos conventos vendiam piedosamente uvas, rapé, e muitas coisas mais, pelas bentas almas do purgatório! Era Fez.

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