DR. MENDES – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Sou rabino. A muito custo, eu e a minha família conseguimos fugir da Polónia quando foi invadida pelos alemães. Chegamos a Bordéus (França) em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não conseguirei o espanhol. Saio meio atordoado com a informação, não entendo o que se passa. Cá fora um francês, também ele refugiado e, ao que suponho, comunista, explica-me:

– Rabi, Franco foi ajudado pelos nazis durante a guerra civil espanhola. É por isso que não quer no seu território fugitivos do nazismo. Só os deixa passar se forem rumo a Portugal. Salazar, o primeiro ministro português, está entalado. Portugal tem uma aliança antiquíssima com a Inglaterra e um pacto recente com a Espanha. Se hoje pender para os Aliados, será invadido pelos alemães através de Espanha. Se pender para os alemães, a Inglaterra desembarcará tropas em Portugal. É claro que a simpatia do fascista Salazar vai para Hitler. Mas tem que fingir uma estrita neutralidade para evitar a intervenção quer do Eixo, quer dos Aliados. Por isso estou em crer que Salazar lava as mãos e vai impedir a entrada de refugiados em Portugal. Aliás o Dr. Mendes já me disse que tem enviado centenas de telegramas para Lisboa, pedindo autorização para dar vistos e até agora não obteve qualquer resposta.

– Quem é o Dr. Mendes?

– É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes.

Felizmente o comunista francês engana-se. Contra tudo e contra todos, até mesmo contra Salazar, o Dr. Mendes passa vistos a milhares e milhares de fugitivos do nazismo.

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