EDITORIAL – O DIA DO TEATRO E O TEATRO DO DIA

Imagem2Hoje, 27 de Março, é Dia Mundial do Teatro. A UNESCO assim o determinou em 1961. Temos dito o que pensamos sobre a hipocrisia que reside na decisão de criar “dias mundiais”, uma forma de tranquilizar as consciências. As pessoas deviam tratar bem os animais – o Dia Mundial dos Animais é o reflexo do remorso colectivo pela forma como são tratados os que connosco compartilham o planeta. Do mesmo modo a ida ao teatro devia fazer parte dos hábitos culturais das pessoas em geral – mesmo que os espectáculos teatrais registem hoje um pequeno aumento de afluência de público, isso não compensará as salas quase vazias durante os outros dias do ano.

As origens do teatro perdem-se na bruma dos tempos. Na antiga Grécia, encontramos as raízes do nosso teatro. Mas na China, mais ou menos pela mesma época – mil anos antes da nossa era e quando o mundo não era ainda uma aldeia global – surgem formas teatrais. No Japão e na Índia, também. Investigadores há que consideram o teatro como uma fenómeno próprio da evolução social. Em contrapartida, outros vêem-no como criações deliberadas e não como consequências desse processo evolutivo – na realidade, Europa e Ásia são um mesmo continente e não é de estranhar que o que acontecia num território não pudesse ser exportado para outro. Nas civilizações pré-colombianas, sobretudo entre os Incas, houve formas culturais que podemos considerar como teatro.

Mas hoje (logo hoje!), o dia do teatro tem um competidor de vulto – José Sócrates dá uma entrevista à RTP. É um actor desacreditado que vai tentar reabilitar-se. Outros actores, tais com Marcelo Rebelo de Sousa e Marques Mendes, atribuem-lhe a ambição de se vir a candidatar à Presidência da República. Há quem se escandalize. Com razão, mas é preciso não esquecer que temos um presidente como Cavaco Silva, há quase 40 anos colado ao poder – percurso cénico de um canastrão que nos deve ter custado mais caro do que a representação do papel de Pinóquio que Sócrates desempenhou com esmero (e que teve dignos seguidores com coelhos, relvas, gaspares… ).

A farsa da democracia prossegue. É pena que não suba ao palco só um dia por ano.

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