Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 13. Algumas considerações sobre o texto “Uma Teoria da Estupidez” de Lane Brown . Por Júlio Marques Mota

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

Hermen Hesse

10 min de leitura

Texto 13. Algumas considerações sobre o texto “Uma Teoria da Estupidez” de Lane Brown 

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 2 de Maio de 2026

 

O texto que acabámos de ler [publicado ontem] – “Uma teoria da estupidez” de Lane Brown – é um texto de referência e é uma boa síntese da crise civilizacional que atravessamos, que nesta série é debatida longamente noutros textos também. No entanto, os dois últimos parágrafos deixaram-me um certo sentimento de insatisfação por tê-los considerado demasiado curtos para aquilo que neles se expõe ou talvez porque eu os tenha compreendido mal. Vejamos então, e repetindo-os, o que penso sobre cada um destes parágrafos:

  1. Penúltimo parágrafo:

“O anti elitismo transformou hoje o gosto pelo rigor tecnocrático e a especialização em desvantagem para a carreira na política — o que é uma má notícia para a extensa bancada democrata de imitadores académicos de Obama. Se tivesses investido algumas centenas de dólares na especulação em moedas digitais como em Dogecoins em vez do S&P há dez anos, [n.t. isto dito de outra forma seria – se andasses a investir na onda especulativa das bitcoins em vez de andares a investir na esfera produtiva] já te poderias ter reformado.”

O que está por detrás desta afirmação é que, por um lado, o mundo da incultura está a expandir-se e de tal modo que o elitismo passa a estar fora de moda. A incultura reina e o que dá rendimentos é o oportunismo pleno que dela resulta. Um sinal dos tempos a que o texto se refere longamente.

Mas, por outro lado, quer também dizer mais do que isso. Aqui o que está implícito é uma crítica aos democratas por falta de posição contundente contra Trump. A tese dos democratas tem sido a de que se devem fingir de mortos para não serem acusados de obstrução ao governo de Trump. Poder-se-á pensar que estamos a exagerar, mas sobre esta matéria retomemos um outro texto, de Robert Reich:

Enquanto Trump e os seus capangas privam os americanos dos seus direitos constitucionais e tomam o poder ilegalmente em outras nações, a suposta classe dirigente dos Estados Unidos permanece em silêncio. Ou pior, está a ajudar Trump.

Muitos reitores de universidades estão em silêncio ou a cederem às exigências de Trump. Muitos altos executivos de escritórios de advocacia renderam-se à sua tirania. Muitos diretores de grandes organizações sem fins lucrativos permanecem calados. Quase todos os líderes republicanos estão a aprovar o seu autoritarismo sem questionar. Muitos líderes democratas mal oferecem resistência.

Os piores infratores são os CEOs de algumas das empresas mais poderosas e influentes dos Estados Unidos.

Alguns uniram-se ao resto da América contra Trump quando ele tentou anular a eleição de 2020. Agora, calam-se sobre o que Trump está a fazer com a nossa democracia e o direito internacional. Ou estão ativamente o apoiá-lo para proteger e aumentar os seus próprios lucros.” Fim de citação.

 

Dois tipos de oportunismo estão subjacentes:

a) O dos velhos democratas eleitos que não estão na sua função de eleitos para defender o povo, mas sim a aguardar que completem o tempo de passagem à reforma completa e a crítica é mordaz: se é para isso, enfiem-se na especulação em Wall Street e uns pingos de informações privilegiadas dão-vos uma fortuna muito rapidamente e evitam esperar tanto tempo. Relembra-se aqui o que escreveu o criador de uma das maiores empresas financeiras de Wall Street, John C. Bogle da Vanguard, quando nos diz que o que Wall Street faz de útil num ano pode ser feito numa só semana. O resto, o que faz nas subsequentes 51 semanas é pura inutilidade do ponto de vista de criação de riqueza.

b) A contrapartida deste silêncio encontramo-la no mais descarado oportunismo pessoal de Trump. Trump tem um Empório, não o Empório Armani, mas sim o Empório Trump em que se vende produtos como sapatos Trump, a água-de-colónia Trump, a Bíblia Trump, os NFTs Trump, as criptomoedas Trump, os resorts Trump e a Universidade Trump. Essa contrapartida implícita encontramo-la igualmente no silêncio sobre Trump quando, como assinala Robart Reich, Trump está a processar a Receita Federal (IRS) em busca de uma indemnização de 10 mil milhões de dólares. Trump acusa a Receita Federal (IRS) de não ter feito o suficiente para impedir que um ex-funcionário terceirizado da Receita permitisse uma fuga de informação sobre as declarações de imposto de rendimento de Trump para o The New York Times em 2020. Utilizando essas declarações de imposto de rendimento, o The Times publicou uma série de artigos em que revelava que Trump pagou pouco ou nenhum imposto de rendimento durante muitos anos.

 

Deixemos o cidadão Trump e vejamos o que nos diz Reich sobre o Presidente Trump:

“A semana terrível que passou fez-me refletir: como os Estados Unidos chegaram a um ponto em que um único homem, apoiado pelo poderio militar do país, pôde ameaçar de morte, de forma crível, toda uma civilização?

Também me pergunto como 19 famílias americanas super-ricas conseguiram adicionar 1,8 milhões de milhões de dólares à sua riqueza nos últimos 24 meses — aproximadamente o tamanho da economia da Austrália — enquanto a taxa de pobreza infantil nos EUA mais que dobrou, passando de um mínimo de 5,2% em 2021 para mais de 13% atualmente?

Como chegámos tão perigosamente perto de uma catástrofe climática, com as temperaturas da primavera no oeste dos Estados Unidos já quebrando recordes — e, no entanto, os governos gastam mais de um trilião de dólares por ano subsidiando a indústria de combustíveis fósseis e os bancos canalizaram mais de 3 milhões de milhões de dólares para empresas de combustíveis fósseis desde o Acordo de Paris, enquanto quase não há fundos para proteger os ecossistemas vivos?

Como permitimos que a inteligência artificial, a tecnologia mais poderosa que o mundo já viu, ameace milhões de empregos; torne vulnerável o software que controla os nossos sistemas financeiros, energéticos e de defesa; e potencialmente destrua a raça humana — ao mesmo tempo em que permitimos que ela acumule tanto poder político que burla todas as salvaguardas e regulamentações?

Ocupei os mais altos cargos do governo dos EUA. Observei os nossos sistemas político e económico crescerem e transformarem-se nos últimos 50 anos, e passei grande parte desse tempo escrevendo sobre a sua evolução. Nunca hesitei em acusar aqueles que detêm o poder de abusarem da sua autoridade.

Embora eu tenha algumas ideias sobre como e por que o nosso sistema sacrificou a democracia e o pensamento crítico aos falsos deuses da ganância e do crescimento (qualquer pessoa interessada nas minhas reflexões provisórias pode ler o meu recente artigo “Coming Up Short“), não posso afirmar com certeza como chegámos a este ponto.

Apesar de como chegámos até aqui, como é que podemos mudar o rumo? Recuso-me a aceitar que não o podemos fazer, ou que seja tarde demais para o fazer.” Fim de citação.

 

  1. Último parágrafo (primeira parte) do texto de Lane Brown:

“Talvez o século XXI nos esteja a ensinar a fazer um teste diferente. Apesar do que acabei de dizer, há um artefacto compressivo de internet que pode encapsular perfeitamente tudo o que define o nosso momento presente: o meme do “mediano inteligente” (midwit).

A figura a que o autor se refere é a seguinte:

 

O meme “midwit” tem sido uma das imagens exploráveis mais em evidência na internet, que essencialmente tenta resumir o espectro de QI entre as inteligências de nível mais baixo, médio e mais alto, mostrando que às vezes as pessoas se envolvem em raciocínios excessivamente complexos, enquanto os indivíduos em ambas as extremidades da Curva de Bell de QI tendem a chegar a conclusões semelhantes, ainda que por meio de justificações diferentes.

Apesar de ser muito utilizado para expressar opiniões políticas, religiosas e outras opiniões controversas, o meme “midwit” mostra um padrão interessante na sociedade, especialmente se o relacionarmos com a cultura online.

O que é o Meme Midwit?

O meme midwit gira em torno da curva em forma de sino (distribuição Normal ou Laplace-Gauss, como é conhecida em Estatística) do QI, que representa a distribuição da inteligência numa população, funcionando como uma piada e crítica sobre inteligência e elitismo, zombando da pretensão de indivíduos medianos que superestimam as suas capacidades.

Tudo começou em fevereiro de 2011, quando o ativista e escritor de extrema-direita Vox Day cunhou a palavra “mid-witted”, que mais tarde foi transformada em “midwit” por utilizadores do 4chan [fórum de imagens online anónimo [1]] para se referir a uma pessoa de inteligência média.

Esta é a visão da sociedade que circula pela internet, em que 68 por cento da população é considerada mediamente inteligente, com 34% levemente acima da média, com 34% levemente abaixo da média da população, com 16 por cento em cada uma das caudas da curva. No lado esquerdo deste gráfico, temos 14 por cento a serem fracamente pouco favorecidos em inteligência e os restantes dois por cento a serem quase débeis mentais, enquanto do lado direito temos o monge enquanto figura de inteligência extremamente elevada, capaz de raciocínios complexos e de forma rápida e os dois por cento nesta lógica seriam mesmo gente genial. Nesta imagem, os 68 % situados entre um QI de 85 da média e um QI de 115% da média- são os mediamente inteligentes e são na imagem que circula na Internet os indecisos, os incapazes de decisão segura e rápida, complicam tudo e não decidem nada: isso fica para os outros. A figura do lado esquerdo representa o pacóvio, eu diria mesmo, o homem que decide primeiro, por instinto, e pensa como pode, mas depois. Tem certezas de tudo e não procura sequer explicação para as suas certezas. O monge, a figura situada do lado direita da figura direito, é o simétrico, pensa, pensa, explica-se através de explicações elaboradas e curiosamente considera-se que chega às mesmas respostas que o pacóvio. Esta é a visão das gentes que vivem no mundo online e esta gente é cada vez mais relevante em termos quantitativos e qualitativos (negativamente) em número cada vez mais elevado à medida que o tempo passa.  Talvez passe por aqui a resposta à pergunta feita por Robert Reich:

Onde estão as vozes progressistas que alertam sobre como uma guerra como esta pode facilmente sair do controle? Onde estão os historiadores que nos contam como outras calamidades semelhantes começaram? Onde estão as vozes que explicam todas as necessidades internas que estamos a sacrificar para financiar a máquina militar dos EUA?

Num relatório sobre a importância das redes sociais no quadro da formação mental da população relata-nos a Reuters:

“1. O envolvimento com os meios de comunicação tradicionais, como televisão, imprensa e sites de notícias, continua a diminuir, enquanto a dependência das redes sociais, plataformas de vídeo e agregadores online cresce. Isto é particularmente evidente nos Estados Unidos, onde a sondagem coincidiu com as primeiras semanas da nova administração Trump. O consumo de notícias nas redes sociais aumentou acentuadamente (+6 pontos percentuais), mas não se registou nenhum “efeito Trump” nas fontes tradicionais.

  • As personalidades e os influenciadores desempenham, em alguns países, um papel significativo na moldagem do debate público. Um quinto (22%) da nossa amostra nos Estados Unidos afirma ter deparado com notícias ou comentários do popular podcaster Joe Rogan na semana a seguir à tomada de posse, incluindo uma proporção desproporcionalmente elevada de homens jovens. Em França, o jovem criador de conteúdos informativos Hugo Travers (HugoDécrypte) chega a 22% dos que têm menos de 35 anos com conteúdos distribuídos principalmente através do YouTube e do TikTok. Os jovens influenciadores também desempenham um papel significativo em muitos países asiáticos, nomeadamente a Tailândia.
  • O consumo de notícias distribui-se cada vez mais por várias plataformas online, com seis redes a atingir agora mais de 10% de utilização semanal para conteúdos noticiosos, em comparação com apenas duas há uma década. Cerca de um terço da nossa amostra global utiliza o Facebook (36%) e o YouTube (30%) para aceder a notícias semanalmente. O Instagram (19%) e o WhatsApp (19%) são utilizados por aproximadamente um quinto dos inquiridos, enquanto o TikTok (16%) se mantém à frente do X, que regista 12%.
  • As mudanças nas estratégias das plataformas fazem com que o vídeo continue a crescer em importância como fonte de notícias. Em todos os mercados, a proporção de pessoas que consomem vídeo nas redes sociais cresceu de 52% em 2020 para 65% em 2025, e o consumo de vídeo em geral passou de 67% para 75%. Nas Filipinas, Tailândia, Quénia e Índia, mais pessoas afirmam agora preferir ver as notícias a lê-las, o que incentiva ainda mais a transição para criadores de notícias com perfil pessoal.
  • Verificamos que os robôs de conversação e interfaces de inteligência artificial estão a emergir como fonte de notícias, à medida que os motores de busca e outras plataformas integram informação noticiosa em tempo real. Os números são ainda relativamente baixos no geral (7% utilizam-nos para aceder a notícias semanalmente), mas significativamente mais elevados entre os jovens com menos de 25 anos (15%).” Fim de citação.

 

Tudo isto confirma o que nos diz Lane Brown no seu artigo, tanto no plano dos factos relatados como nas tendências assinaladas, dado o peso crescente que assumem as redes sociais na moldagem da maneira de ser das novas camadas de jovens. E afirma: “Apesar do que acabei de dizer”, e o que nos diz é que estamos a ficar cada vez mais burros e que “há um artefacto compressivo de internet que pode encapsular perfeitamente tudo o que define o nosso momento presente: o meme do “mediano inteligente” (midwit). A lógica do midwit é exatamente a da estupidificação, a da evolução coletiva para um mundo estupidificado e então o teste serve para quê? A menos que ao longo do século as nossas elites despertem sobre o que têm andado a fazer e criem formas de anular as tendências previsíveis para um futuro próximo. E creio que ele acredita que isso é ainda possível mudar o rumo das coisas!

Creio que Lane Brown estaria implicitamente a pensar da mesma forma que Robert Reich, acima citado, quando este escreve:

Apesar de como chegámos até aqui, como é que podemos mudar o rumo? Recuso-me a aceitar que não o podemos fazer, ou que seja tarde demais para o fazer.

Lane Brown diz-nos que a figura acima pode encapsular perfeitamente tudo o que define o nosso momento presente: o meme do “mediano inteligente”

Com alguma entorse podemos fazê-lo. Tomemos os Republicanos e os Democratas no Senado e Congresso como a figura do inteligente médio, o midwit. Globalmente não decidem nada, nada, não se opõem a nada do que é muito importante, e tem sido assim desde que Obama “roubou” poderes ao Senado, ele Prémio Nobel da Paz e para fazer a guerra. Lamentavelmente, o mesmo Senado e com outra configuração ratificou essa posição, esse roubo de competências, concedendo o poder de fazer a guerra de mão beijada a Trump no primeiro mandato.  E voltou a fazê-lo no segundo mandato e a tragédia está à vista. O Senado ainda não votou contra os poderes abusivos do Presidente Trump! 

Olhemos para a figura acima. Os democratas e republicanos indecisos serão aqui representados pelo “midwit”. Os broncos, os arrogantes e simplórios do MAGA, são aqui representados pela figura da direita, materializada em Trump e a esquerda não oficial e impotente, representada pelo monge sereno, perante a força arrogante do MAGA e da enorme complacência do grupo enorme dos midwt vive enredada e amedrontada nas suas profundas reflexões para encontrar uma saída da crise e não a conseguem vislumbrar. E o teste seria então: sermos capazes ou não de ultrapassar o mundo da idiotice em que se vive agora e que é tão bem retratado por Lane Brown?

 


[1] N.T. O 4chan é, segundo a IA Claude sonnet4-6, é um fórum de imagens online anónimo fundado em 2003 (língua inglesa). É um dos sites mais influentes da cultura da internet, conhecido por ser o berço de muitos memes e movimentos virais. No contexto do presente texto, os utilizadores do 4chan foram os responsáveis por popularizar e transformar o termo cunhado por Vox Day, adaptando-o para se referir a uma pessoa de inteligência média. O 4chan é frequentemente associado a este tipo de apropriação e ressignificação de termos, especialmente nos seus fóruns mais populares como o /b/ (aleatório) e o /pol/ (politicamente incorreto). Os utilizadores comuns não criam contas, perfis ou palavras-passe. A grande maioria das publicações é feita sob o nome automático de “Anonymous”.

Segundo Juan Ruocco, em artigo de Março de 2020 no Nueva Sociedad (ver aqui), é um fórum onde campeia a extrema-direita: é um submundo, uma fábrica de memes, um manual de explicações simples e conspirativas sobre a situação atual do mundo. Difusor de racismo e ódio, sob a forma da “ironia”, é uma celebração constante do “Politicamente Incorreto”, um lugar onde se pode conseguir a Red pill que permite ver a realidade que as elites ocultam. A grande maioria dos utilizadores do site identifica-se como neet (not in education, employment or training, que não estuda, trabalha ou recebe treino). Trata-se de homens desempregados ou com empregos de má qualidade, que vivem na casa dos pais, com pouca educação e quase nenhum contato com as mulheres. “Outro denominador comum é a crença, por um lado, de que a Europa está sendo invadida pela imigração árabe e de que, por outro lado, os EUA estão em um processo de decadência por culpa dos casais multiétnicos, do casamento entre pessoas do mesmo sexo e da educação sexual integral. A ideia da “grande substituição ” é que a população de toda a Europa, dos EUA e da Commonwealth (o que costuma ser chamado de” Ocidente”) está sendo substituída por imigrantes de origem árabe, como parte de uma conspiração liderada pelos organismos ou instituições internacionais (a Organização das Nações Unidas [onu], O Fundo Monetário Internacional [fmi] ou a União Europeia)….”

 

Leave a Reply