Pentacórdio para Sexta-feira, 29 de Março

por Rui Oliveira

 

 

 

   Este final de semana pascal costuma corresponder a um decréscimo visível de espectáculos públicos (profanos, diríamos nós…) pelo que o leque de eventos é escasso.

 

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   Eventualmente porque são brasileiros, o facto é que o Espaço Brasil (na LX Factory – Rua Rodrigues Faria, 103, Alcântara) prossegue nesta Sexta-feira, 29 de Março, a sua “Semana Bossa Nova” apresentando às 22h30 a artista brasileira Paula Morelenbaum que vem a Lisboa, segundo a própria anuncia num recado dado para o Ano Portugal/Brasil, acompanhada por três excelentes músicos, Lula Galvão no violão, Guto Pires no baixo acústico e Rick da la Torre na bateria.Paula+Morelenbaum+PaulaM

   Lembra bem o Espaço Brasil que « Paula Morelenbaum e bossa-nova sempre foram “farinha do mesmo saco”, desde os tempos em que a menina Paulinha e futura Morelenbaum cantava ao lado de Antonio Carlos Jobim – participando das gravações dos discos mais importantes do maestro (como Passarim, Antônio Brasileiro e Tom canta Vinicius) e correndo o mundo ao seu lado».

   Já um pouco antes da formação do Quarteto Jobim-Morelenbaum, na década de 80, a cantora confirmara a sua vocação no grupo vocal “Céu da Boca”, prenunciando uma carreira de sucesso, que continuou com discos de Tom Jobim, com quem colaborou, até ao primeiro CD a solo “Paula Morelenbaum” (1993) seguido do “Quarteto Jobim-Morelenbaum“ (1999), intercalado com os songbooks de amigos e as excursões cada vez mais bem sucedidas e para destinos cada dia mais longínquos.paula_morelenbaum

   A sua carreira ganhou estofo com o trio intercontinental que formou com Ryuichi Sakamoto e Jaques Morelenbaum, dando lugar a “Casa“ (2002) e “A day in New York” (2003) e mais tarde a “Berimbaum” (2004) e Telecoteco (2008) onde participam Ryuichi Sakamoto, João Donato, Marcos Valle, Bajafondo, Leo Gandelman, Chico Pinheiro e Jaques Morelenbaum.Projekt1:Layout 1

   Os mais recentes, que Paula Morelenbaum (PM) diz ir cantar no seu concerto, compreendem Água (2010) de PM & João Donato (que lhe sucederá no palco do Espaço Brasil no Sábado) e Bossarenova (2010), uma curiosa experiência de colaboração de PM com Ralf Schmid e SWR (Südwestrundfunk) Big Band gravada em Estugarda (Alemanha).

   Um excerto desse álbum  (o tema de Baden Powell/Vinicius de Moraes “Samba em prelúdio”) gravado ao vivo em Maio de 2012 é o que aqui lhe damos a ouvir :

 

 

   Também do último álbum “Água” de 2010 com João Donato, lhe mostramos a canção “Flor de maracujá” , composta por este para Gal Costa :

   A colaboração entre estes dois músicos numa iniciativa de divulgação de “A Paz” de Gilberto Gil (além de outros temas) consta desta entrevista muito cantada a ver em : http://youtu.be/imVjewT6qBE

 

 

 

   No campo do jazz, apesar de tudo, a imobilidade não é total pois no Hot Club prosseguirá até Domingo, 30 (!) – não o referimos ontem, por lapso – a actuação do “Julian Argüelles Quintet”, enquanto ao ONDA JAZZ vem, julgamos que pela primeira vez neste espaço, o jovem compositor e guitarrista José Dias apresentar o seu álbum de estreia “360”.josé dias 360 CD

   Estarão ali no palco José Dias guitarra e os restantes elementos do Quarteto, Moisés Fernandes trompete, Pedro Pinto contrabaixo e Rui Pereira bateria.

   Em “360” (que contém oito peças de José Dias e uma de Rui Pereira) o José Dias Quarteto desenvolve – diz José Dias, formado na Escola do Hot Club e hoje investigador de Etnomusicologia − «… uma busca intensa por uma sonoridade própria no jazz português contemporâneo. Este disco é um fim de ciclo e o início de outro… As músicas nunca estão realmente fechadas e, se o álbum reflecte o trabalho feito até aí, ao vivo a música é recriada e ganha uma nova vida…».

   Diz quem o ouviu que em “360” o quarteto se distancia da linguagem do jazz tradicional e explora o diálogo entre diversos universos sonoros contemporâneos, em que a experimentação se assume como elemento central.

   Ajuize o leitor/ouvinte nesta gravação preparatória desse álbum :

 

 

 

   Por último, como prometemos ontem, lembramos duas exposições que encerram no próximo Sábado 30 de Março (pois no Domingo de Páscoa, 31 não abre) e que estão ambas instaladas no Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo sido objecto dum coro de elogio crítico.

 

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   Uma delas intitula-se “Lila Abdul”, o nome duma artista afegã (Cabul, 1973) hoje radicada nos EUA, que inclui uma instalação sonora “Time, Love and the Workings of Anti-Love” (2013) e uma série de vídeos do que resulta 542 fotografias tipo passe, na sua maioria homens, de todas as idades.

Time, Love and the Workings of Anti-Love   Tal resulta dum trabalho de meses em que, seguindo um fotógrafo de rua com a sua câmara rudimentar, a artista pretendeu, através dele, contar a história do Afeganistão. Quem já o viu, descreve esse trabalho como sendo “de uma beleza que magoa”.

   Os seus vídeos mostram ficções que tem tanto de encantatório como de melancólico. Filmados in loco, mostram as cicatrizes da guerra através de situações performativas insólitas, onde pedaços de ruína são intervencionados, como o avião soviético abandonado no solo, cujos buracos surgem tapados com algodão e a roda de miúdos deitada no chão e atada ao avião tentando pela força da vontade que ele se erga e volte a voar.

   “Nunca há imagens violentas, apenas a sugestão do que foi… Nas suas paisagens há uma quietude fantasmagórica. Mesmo que as tarefas sejam encenadas, a sua obra acumula algum do poder do documentário…” diz o curador Trevor Smith.

  white house 2005  war games (what I saw) 2006  war games 2(what I saw) 2006

 

 

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   A outra exposição, também com curadoria de Isabel Carlos, é da artista australiana Narelle Jubelin (Sydney, 1960) e intitula-se “Plantas e Pantas”.

   Nela Narelle Jubelin utiliza o bordado como meio de expressão, técnica que se tem vindo a revelar uma das sua marcas autorais. “Através dos seus pequenos quadros em petit point, ela procede a uma revalorização ambígua de um trabalho associado à condição feminina e condenado pela ideologia moderna” – considera a crítica do Ípsilon.

Alberto Carneiro Uma floresta para os teus sonhos   Mais recentemente começou a usar o vídeo nas suas reflexões sobre a arquitectura e o título da exposição em português joga com o duplo sentido da palavra «planta» que remete tanto para uma planta de jardim como para uma planta de edifício. Nesta exposição a artista criará um diálogo – por vezes em tensão – entre a sua obra e a própria arquitectura do CAM, instituição que Narelle Jubelin conhece bem desde que em 1994 integrou uma colectiva do programa “Lisboa’94 – Capital Europeia da Cultura”.

  Suscita surpresa que o início da montagem seja a obra do escultor Alberto Carneiro Uma floresta para os teus sonhos, uma instalação com dezenas de troncos de pinheiro cuja cor esverdeada sugere a aparência de eucaliptos, podendo fazer-se a relação entre esta obra e uma releitura que a artista australiana (em cujo país abunda o eucalipto) faça como base de todo o seu processo de trabalho.

   O leitor que veja e conclua.

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(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Quarta aqui)

 

 

 

 

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