REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Seja bem-vindo a  1931

 

J. Bradford DeLong e  Barry Eichengreen

Novo prefácio à obra de  Charles Kindleberger, The World in Depression 1929-1939

Parte II

Summers  tinha razão.  Nós falamos da nossa experiência pessoal: para a geração em que nós os dois temos  vivido – muito bem, obrigado – para além dos  ricos dividendos ganhos pelo capital intelectual que nós adquirimos  com e de Charles Kindleberger, ganhámos o nosso pão de cada dia a ensinar  aos  nossos alunos uma pequena parte do muito que  Charles Kindleberger nos ensinou. Nisto, e destas, três lições se destacam, a primeira  tem  a ver com o pânico nos mercados financeiros, a segunda com o poder de contágio, a terceira com a importância da hegemonia.

Primeiro, o pânico. Kindleberger argumentou que o pânico, definido como o medo avassalador e repentino  dando origem a comportamentos extremos pela parte das pessoas por ele atingidas, afectadas, é intrínseco ao funcionamento dos mercados financeiros. Na obra  The World in Depression, ele deu a melhor resposta de sempre pela explicação e ilustração com exemplos  face à questão de se saber como e porque é que o pânico ocorre e porque é que os mercados  financeiros se  desmoronam (3) . Kindleberger foi um defensor precoce da teoria e da escola dos mercados eficientes para quem os  mercados não só funcionam correctamente como também que  eles são intrinsecamente estáveis. O seu rival na tentativa de explicar a Grande Depressão, Milton Friedman, argumentou, o que ainda hoje se considera uma famosa argumentação  que a especulação nos mercados financeiros não pode ser desestabilizadora porque se os especuladores fossem desestabilizadores  nestes mercados e levando a que sistematicamente os valores dos activos  se desviassem dos seus fundamentais ou dos níveis de  equilíbrio, então tais especuladores perderiam dinheiro e eventualmente seriam eliminados nestes mesmos mercados.

Kindleberger discordava desta posição  observando que os mercados podiam  continuar a funcionar com comportamentos errados por muito, muito tempo mesmo . Ele balizou a sua  posição, re-elaborando e pondo em prática o trabalho  de Minsky, que argumentou que os mercados atravessam ciclos que se caracterizam  primeiramente por uma situação de boom de que se auto-alimentam seguindo-se depois o crash e, em seguida, o pânico, e finalmente pela aversão aos mercados e pela  depressão. Kindleberger estava bem documentado e de uma forma tal que nós lhe chamamos o quadro de análise Minsky-Kindleberger para explicar o comportamento dos mercados nos anos de 1920 e 1930 – comportamento à cerca do qual muitos economistas, por outro lado, consideravam que este comportamento poderia ter tido provavelmente pouca relevância no desencadear da situação em análise. O paradigma Minsky referenciando a possibilidade de pontos altos e de pontos baixos que se auto-alimentavam representa o quadro de trabalho na obra  The World in Depression. Depois, vem à tona toda a explícita glória do subsequente livro assim como o seu mapa recapitulativo da abordagem seguida  em  Manias, Panics and Crashes (4) .

A segunda lição-chave de Kindleberger, intimamente relacionada, é o poder de contágio. No centro de The World in Depression está  a crise financeira de 1931, sem dúvida, o acontecimento que se transformou de uma grave recessão na recessão económica mais grave e catastrófica  do século XX. A crise de 1931 começou, como observa Kindleberger,  num  centro financeiro europeu relativamente menor, Viena, mas quando deixou de ser gerível, transmitiu-se primeiramente  para Berlim e, em seguida, com consequências ainda mais graves, contagiou  Londres e Nova York também. Isto foi no século XX e foi o mais claro e dramático exemplo de que as  crises financeiras rapidamente se podem transformar  e expandir como verdadeiras metástases e quase que instantaneamente. Em 1931, estas metástases espalharam-se através de vários e diferentes canais. Os bancos alemães detinham  depósitos em Viena. Os bancos comerciais de  Londres tinham alargado os seus créditos aos bancos e às empresas alemães para ajudar a financiar o comércio exterior do país. Além das ligações financeiras, havia também  ligações psicológicas: assim que um grande banco caiu  em Viena, os investidores, não tendo nenhuma maneira de o saber  com segurança  começaram a temer que problemas semelhantes pudessem estar à espreita nos sistemas bancários de outros países europeus e nos EUA. Da mesma forma que os problemas de um país pequeno, a Grécia, poderiam ameaçar todo o sistema europeu em 2012, os  problemas de um pequeno país, a Áustria, poderiam , e puderam, constituir uma ameaça mortífera  para todo o sistema financeiro global em 1931, dada a ausência de medidas eficazes para evitar a sua propagação. Isto conduz-nos à terceira lição de Kindleberger, que tem a ver com a importância de hegemonia, definida esta como a preponderância de influência e do poder sobre os outros, neste caso sobre outros os  Estados-nação .

Kindleberger argumentou que na raiz dos problemas da Europa e do mundo na década de 1920 e 1930 estava  a ausência de um hegemonia  benevolente: um poder económico dominante capaz e disposto a assumir os interesses das potências menores e operando globalmente dentro do sistema internacional  tendo também em conta a estabilização dos fluxos  de despesa da economia global ou, no mínimo,  da economia do Atlântico Norte e que ao fazê-lo assim assumia  o papel de refinanciador ou de comprador em última instância. A Grã-Bretanha, sendo agora mais uma potência média em relativo declínio económico,  já não possuía os recursos compatíveis com estas necessidades. Com o poder em forte ascensão nos Estados Unidos, este país ainda não percebia que a necessidade de manutenção da estabilidade económica tornava necessário que os EUA assumissem este  papel. Em contraste com o período de antes de 1914, em que a Grã-Bretanha agia como potência hegemónica, ou depois de 1945, quando os EUA o fizeram, não havia ninguém para estabilizar a economia instável. Com a  Europa, deu-se a situação de sufoco na  economia mundial, deu-se a crise, a instabilidade,  a propensão para a Depressão. Isto é  The World in Depression de  Kindleberger em poucas palavras. Como ele o sublinhou em 1973:

“A depressão de 1929 foi tão grande, tão profunda e tão longa porque o sistema económico internacional tinha-se tornado instável devido à  incapacidade britânica e à falta de vontade dos Estados Unidos  em  assumir a responsabilidade pela  sua estabilização  em três elementos: (a) a manutenção de um mercado relativamente aberto para mercadorias em dificuldade de escoamento; (b) fornecer empréstimos de  longo prazo de natureza ou finalidade contra cíclica;  (c) não mistificar aos dados na crise e da sua evolução para assim se poder encontrar as devidas  respostas à crise, ou seja,  em que que se devem evitar todas as medidas que conduzam a um efeito de espiral ou seja que acrescentem crise (discounting in)[1] à crise. O sistema económico mundial era instável a menos que algum país funcionasse de modo a estabilizá-lo, como a Grã-Bretanha o tinha feito no século XIX e até 1913. Em 1929, os britânicos já não o poderiam fazer e os Estados Unidos não o queriam assumir. Quando cada país se virou para si-mesmo  para proteger apenas os seus interesses privados nacionais, o interesse público visto à escala mundial evaporou-se e com isso evaporaram-se  também  os interesses privados de todos …”

Posteriormente esses elementos de análise  estimularam um corpo considerável de  estudos económicos, especialmente sobre os  modelos de coordenação das políticas económicas internacionais com e sem um poder económico dominante e em ciência política, onde a “Teoria da estabilidade hegemónica” de  Kindleberger é, talvez, a principal abordagem usada pelos cientistas políticos para se entender como é que a ordem pode ser mantida no sistema em que  de outra maneira se tornaria um sistema internacional de certa forma anárquico. (5)

Poder-se-ia  esperar que algo teria sido aprendido com este  corpo considerável de estudos académicos. Ainda hoje, para nossa surpresa, o alarme e o desânimo, aquilo a que estamos a assistir é  uma reprodução inquietante da crise da Europa de 1931. Mais uma vez, pânico e disfuncionamentos a nível dos mercados  financeiros são largamente difundidos. E, uma vez mais, a Europa não tem nenhuma potência hegemónica – um poder económico dominante capaz de assumir e defender os interesses das potências menores e a operar num vasto  sistema internacional em que estaria a levar em consideração os fluxos de estabilização quer das finanças quer também das despesas através da economia europeia. O BCE não acredita que ele próprio  tem essa autoridade: o seu mandato, é o seu argumento, obriga a  que mecanicamente  se defenda  uma meta de inflação – que ele define na prática como sendo  um tecto para a inflação. Ele, o BCE,  não está autorizado,  habilitado, argumenta ele mesmo, a operar como um refinanciador de última instância face aos  mercados financeiros em situação de disfuncionamento, a indispensabilidade de um refinanciador  de  última instância  em tempos de crise, sendo  esta uma outra mensagem poderosa do livro The World in Depression. A UE, um conjunto diversificado de mais de duas dezenas de Estados,  considera que é difícil alcançar o consenso quanto à forma de reagir.  E mesmo naquelas situações muito raras onde parece que se alcançou qualquer coisa que se aproxima de um consenso, a capacidade de resposta e de aplicação do consenso supostamente alcançado, a seguir,  é de tal forma lenta, tão lenta, tão lenta quando comparada com a dimensão da crise e quando esta  é bastante rápida na sua acção.

O governo federal alemão, a encarnação política do único poder económico mais consequente na Europa, é um potencial hegemónico. Este  tem espaço para aplicar a política orçamental contra-cíclica. Ele poderia incentivar o Banco Central Europeu a fazer uma utilização mais activa da política monetária. O governo alemão poderia igualmente financiar um plano Marshall para a Grécia e sublinhar a vontade de assumir a responsabilidade conjunta, juntamente com os seus parceiros da UE, face a  alguma fracção de sua dívida pública global.  Mas a Alemanha ainda pensa apenas em si  mesma como o gestor de uma pequena economia aberta.

O governo alemão repete sempre que está para além da sua capacidade a  estabilização do sistema europeu: “os contribuintes alemães terão somente  que suportar  tanto, afinal”. Unilateralmente a tomar medidas para estabilizar a economia europeia não é, em qualquer caso, a sua responsabilidade, e é assim que o problema é entendido. A UE não é uma União onde os  grandes países dirigem e em que os  pequenos países os seguem docilmente,  quer ser  uma colecção de iguais,  pelo menos ostensivamente assim se mostra ela. A difícil história da própria  Alemanha em todo o caso torna difícil para o país fazer valer a sua influência e autoridade e é igualmente difícil para os seus parceiros da UE, mesmo para aqueles que mais desesperadamente precisam, aceitarem um tal posição, uma tal autoridade.(6) A Europa, todos concordam, precisa de fortalecer a sua vontade colectiva e a sua capacidade de acção colectiva. Mas, na ausência de um poder hegemónico  a nível europeu, isto é bem  mais fácil dizer do que fazer.

(continua)

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[1] No original o autor como alínea c) tem apenas o seguinte: “discounting in crisis”. Arriscamos uma interpretação desta expressão, a que está no texto.

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