Pentacórdio para Domingo, 31 de Março

por Rui Oliveira

 

 

 

   A ausência de acontecimentos culturais de interesse no Domingo, 31 de Março leva a que, por maioria de razão, realcemos uma NOTÍCIA EM ATRASO relativa a Sábado, ao mesmo tempo que chamamos a atenção para a possível visita nesse dia (já que se seguem dois dias “mortos”, o feriado dominical e o habitual fecho das 2ªs feiras) duma exposição importante em vias de encerramento próximo.

 

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   Neste Sábado, 30 de Março, então, a Reitoria da Universidade de Lisboa apresenta, pela primeira vez em concerto na sua Aula Magna, às 21h30, a Orquestra Universitária da Universidade Heinrich-Heine de Düsseldorf (Alemanha), dirigida por Johannes Stert, maestro e compositor alemão de mérito internacional, a qual traz no programa três obras magistrais de Berg, Wagner e Dvořák. A entrada é livre até à lotação da sala.

2 Orquestra_Dusseldorf   Nascido em 1963, Johannes Stert é um maestro que tem dirigido regularmente diversas obras no Teatro Nacional de São Carlos entre 2008 e 2011, incluindo uma tournée pela China realizada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa em 2009. Foi Maestro Titular na Ópera de Colónia de 1995 a 2004, onde dirigiu um repertório especializado em Mozart. Daí a 2006, assumiu o posto de Maestro Convidado Principal na Ópera de Graz (Áustria), onde ficou reconhecido pela produção de “Parsifal” de Wagner e de “Boulevard Solitude” de Hans Werner Henze. Em 2006 dirigiu a ópera de György Ligeti “Le Grand Macabre”, uma obra marcante, e posteriormente foi maestro em orquestras como a Orquestra Gürzenich de Colónia, a Staatsorchester Rheinische Philharmonie, a Cracow Radio Orchestra e a WDR-Radio Orchestra de Estugarda, entre outras. Actualmente, Johannes Stert é Director Musical da centenária Hilgen Orchesterverein (Alemanha).

   Do seu trabalho enquanto compositor, destacam-se “Ida, eine Traurige Humoreske”, “Engellieder” (a partir de poemas de Rilke), e “Aus der Stille”. 

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   Quanto à Orquestra foi fundada, em 1987, na Universidade Heinrich-Heine, por um grupo de estudantes apaixonados pela música. Após a sua formação, tornou-se, rapidamente, num dos organismos culturais mais representativos da cidade de Düsseldorf e da sua Universidade Heinrich-Heine. Do seu currículo fazem já parte várias digressões realizadas um pouco por todo o mundo e concertos em salas prestigiadas, tais como a Gewandhaus (Leipzig, Alemanha), a Filarmónica Nacional de Varsóvia (Polónia) e a Tonhalle Zurich (Suíça), vindo agora a Portugal actuar no Porto, em Coimbra e em Lisboa.

   O programa escolhido compreende de :

      Alban Berg (1885-1935) Concerto para violino “Dem Andenken eines Engels” (“À Memória de um Anjo”)   

      Richard Wagner (1813-1883) Prelúdio e “Liebestod”, de “Tristão e Isolda”

      Antonín Dvořák (1841-1904) Sinfonia Nº 8 em Sol Maior, op. 88

   Acrescenta o folheto de sala que «o programa interpretado pela Orquestra da Universidade Heinrich-Heine de Düsseldorf comprova a sua capacidade para dialogar com mundos musicais distintos… O anjo invocado por Alban Berg neste Concerto para violino é revelador de uma história trágica por trás da composição, pois se trata de uma referência a Manon Gropius, filha de Alma Mahler e do arquitecto Walter Gropius, morta aos 18 anos com poliomielite, a quem o compositor dedica este concerto emocionante, estruturado em modo dodecafónico.

   Quanto a Richard Wagner, ele foi exímio na exaltação de emoções e na exploração de paixões inebriantes através dos sons orquestrais (próprios) do Séc. XIX – é esta densidade emocional que marca o Prelúdio e o tema de “Tristão e Isolda”.

   Por fim a Oitava Sinfonia de Antonín Dvořák imprime uma ligeira dissonância a este programa, sendo uma composição pastoral e luminosa, que evolui por vezes para ritmos que evocam o movimento e a dança».

   Não havendo qualquer registo desta orquestra universitária, escolhemos mostrar-lhe a primeira peça sentimental de Alban Berg na íntegra, numa interpretação da Filarmónica de Nova Iorque (dirigida por Lorin Maazel), tendo como solista a violinista Anne-Sophie Mutter, em Abril de 2007 :

 

 

   No próprio Domingo, 31 de Março só o Espaço Brasil (na LX Factory) tem show, como já assinalámos, encerrando a “Semana Bossa Nova” das comemorações do Ano Portugal/Brasil com a apresentação às 18h de Bena Lobo, o cantor e compositor filho de Edu Lobo e Wanda Sá, que inicia aqui um circuito europeu de apresentação do seu 4º e último álbum “Valentia”.563796_484731808250109_1283895736_n

  Finalizado em parceria com o letrista e poeta Paulo César Pinheiro e com músicos da sua geração como Edu Krieger,Rômulo Pacheco, Úrsula Corona e Gabriel Moura, é (dizem críticos) sinal dum “criador em sintonia com o seu tempo, produtor duma música pop, contemporânea, mistura empolgante e sofisticada de samba, baião, afoxé e xote que já caracterizavam o seu trabalho presente nos três albuns anteriormente lançados”.

   Mostramos-lhe o tema título do seu CD anterior com Seu Jorge intitulado “Sábado” :

 

 

   Aprecie o leitor também este notável diálogo filho/pai com Edu Lobo cantando a conhecida canção deste compositor Ponteio – Era um, era dois, era cem… gravado em 2012 :

 

  

4 GM A Caminhada do Medo I, 2011

   A exposição a que aconselhamos visita próxima pois encerrará no Domingo, 14 de Abril é “Os Desastres da Guerra”, pintura e desenho de Graça Morais, que inaugurou o ciclo de exposições temporárias do ano de 2013 na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva,  comissariada por João Pinharanda com o apoio mecenático da Fundação EDP.5 GM Sombras do Medo 3, 2012 cartaz

   Do texto do Comissário no catálogo retiramos estes excertos :

«(…) O trabalho de Graça Morais trata do Tempo e do Lugar. Ela construíu a sua imagem investigando memórias e transformando realidades: a do Portugal rural que mudava e perdia o seu tempo e o seu lugar no Mundo. Através dela vimos Trás-os-Montes agarrando-se à lonjura do céu, à dureza do ar, à antiguidade da voz, à violência de uma beleza esquecida.

   As duas séries que agora se apresentam, (…), surgem claramente como sobressalto cívico. Graça Morais reage, já não apenas a um presente que perde o seu passado mas a um presente que perde também o seu futuro. As longas e intensas cenas rurais de Graça Morais olhavam um mundo que lentamente se desagregava, eram uma acção de conservação, uma homenagem. Agora, são uma denúncia, um alerta. O tempo, aqui, é imediato e o espaço também – e ambos desabam vertiginosos sobre nós.6 GM Sombras do Medo 1, 2012

   E, no entanto, cada uma das imagens que ela nos atira, retoma, repete, cita rostos, gestos, cenas que ao longo da história da Arte tantos outros artistas retomaram, repetiram, citaram transformando o quotidiano em alguma coisa capaz de durar para além do instante de um grito – transformando-o em imagens, em símbolos. (…)

   Há uma reinventada tradição expressionista na obra de Graça Morais que não encontra nunca tal grau de exasperação na pintura portuguesa que a precede; também não se encontra tal exasperação na literatura ou na música portuguesas. Porque procuramos o céu, se tem cores violentas? Porque erguemos um corpo, se é para ser crucificado? Porque se exibe a carne para um sexo ritualizado? Onde nos conduzem os caretos mascarados, cornudos, demoníacos? Ou as facas de matança e as lâminas das sacholas? (…)

7 GM A Caminhada do Medo VI, 2011   Onde nos levam os corpos dobrados sobre a terra, semeando, esperando e arrancando os frutos, dobrados sobre o colo, tecendo ou debulhando, dobrados sobre os joelhos, rezando ou penando? Penso que nos transportam directamente às imagens que a artista agora trabalha: aos indignados da miséria urbana, aos que têm fome e aos que têm raiva, aos sacrificados das pequenas guerras que proliferam como doenças endémicas, às cenas sacrificiais e às cenas de piedade em que cada homem e cada mulher repete os gestos de todos os homens e mulheres de todas as cidades cercadas, queimadas, destruídas: Babilónia, Tróia, Persépolis, Cartago, Estalinegrado, Berlim, Hiroshima, Sarajevo, Bagdade, … São gestos de morte e gestos de amor: cada um de nós, assassino; cada um de nós, figura de uma Pietà (…)

   Graça Morais usa fotografias da imprensa como fonte. (…) [Mas] Graça Morais altera escalas,  espaços, gestos, posições, direcções, muda protagonistas. Faz tudo para alcançar uma verdade sua que deseja venha a ser universalmente reconhecida. E, como sempre, são as construções ficcionadas que melhor nos trazem ao coração do real. Vejamos os casos de O 3 de Maio de 1808 em Madrid de Goya, da Guernica de Picasso ou da Execução do Imperador Maximilano, que Manet pintou em 1869. São essas pinturas que nos permitem] transcender o pessoal, o político, até o histórico, para integrar “o que aconteceu” (o facto isolado) no arco de sentidos profundos da tragédia humana».8GM A Caminhada do Medo XVIII, 2011

 

   E concluimos com o encómio do crítico José Luis Porfírio :

   “Graça Morais não nos mete medo, mostra-o, personifica-o, e isto sem qualquer demagogia ou apelo panfletário, o que dá a este seu conjunto de trabalhos uma força e uma gravidade raramente atingidos, correspondendo certeiramente aos tempos que o nosso mundo e a nossa terra estão atravessando. Celebrar o medo mostrando-o desta maneira é uma tarefa urgente, pois, através dos sentimentos que desencadeia, contribui para a lucidez desencantada tão necessária aos tristes dias que atravessamos”.

              9 GM A Caminhada do Medo X, 2011   10 GM Sombras do Medo 2, 2012

 

 

 

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Sexta aqui)

 

 

 

 

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