Pentacórdio para Terça-feira, 2 de Abril

por Rui Oliveira

 

 

 

   Talvez pela primeira vez nesta agenda cultural, a Terça-feira, 2 de Abril é um dia praticamente desprovido de espectáculos públicos originais.

   À parte uma ou outra conferência que mencionaremos no final, resta ao leitor interessado frequentar as exposições abertas na cidade de que lembraremos sobretudo as que encerrarão em breve.

 

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   Entre elas está a mostra fotográfica “Crónicas Brasileiras. Fotografias de José Medeiros”  (projecto dedicado ao trabalho que José Medeiros consagrou às terras do interior do Brasil) que a Fundação Portuguesa das Comunicações organizou nas suas instalações no Museu das Comunicações (Rua do Instituto Industrial, nº 16, a Santos) no âmbito das comemorações do “Ano do Brasil em Portugal” e que ficará aberta até o dia 4 de Abril.Jose_Medeiros_exposicao-

   Nascido em 1921 em Teresina, Piauí, no Nordeste do Brasil, e falecido em 1990, José Medeiros é um dos grandes nomes da fotografia brasileira. Tornou-se célebre graças ao seu trabalho como fotojornalista na revista ilustrada O Cruzeiro, de 1947 a 1961 e, depois, como director de fotografia do movimento «Cinema Novo» brasileiro, onde manteve sua objectividade humanística e o uso privilegiado da luz natural.

feitura de santo no candomblé   [Medeiros trabalhou em obras como A Falecida, de Leon Hirszman, Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos e Xica da Silva, dirigida por Cacá Diegues]

feitura   Ao lançar um olhar sensível e dinâmico sobre a sociedade do seu tempo, conferiu à fotografia documental e ao fotojornalismo uma ressonância ímpar no Brasil e a exposição permitirá ao público português descobrir a obra de um grande criador, que soube praticar e, ao mesmo tempo, subverter as regras do seu ofício.

   Esta mostra reúne mais de 80 fotografias (tiragens contemporâneas em gelatina e prata realizadas a partir dos negativos originais do artista conservados no Instituto Moreira Salles) e quase 30 documentos (exemplares da revista O Cruzeiro dos anos 1950-1960, publicações etc.). Dela fazem parte algumas das mais destacadas reportagens realizadas para a revista O Cruzeiro, nomeadamente fotos suas dos índios da região do Xingu, a reportagem mítica de Setembro de 1951 sobre uma cerimónia de iniciação ao candomblé (culto afro-brasileiro), bem como imagens do Nordeste e das áreas mais pobres do interior do Brasil.Jose_Medeiros_exposicao-700x700

   Algumas das imagens correspondem aos primeiros contatos dos indígenas com a fotografia, o que reforça o aspecto documental da sua obra, uma das chaves da renovação de sua linguagem.

    “Esses trabalhos mostram as raízes brasileiras, além das raízes do Nordeste, uma região historicamente mais carente. Com elas Medeiros introduziu a sensibilidade e uma postura mais humanista no fotojornalismo”, disse Sergio Burgi, curador da exposição ao lado de Elise Jasmin. “Estas fotos contrastam com «seu olhar mais crítico em direcção à sociedade urbana e à elite» da cidade do Rio, que também retratou para a revista «O Cruzeiro»”.

 

 

 

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   Outra exposição, por curiosidade também relativa ao Brasil, é “Bloquinhos de Portugal – A arquitectura portuguesa pelo traço de Lucio Costa”, inaugurada em Fevereiro passado no Espaço Brasil (na Lx Factory, Rua Rodrigues de Faria, nº 103) e que estará patente até 21 de Abril  (horário: de 5ª a Sábado, das 14h às 00h e Domingo das 14h às 21h).50c0ebebb3fc4b36f9000019_repercuss-o-da-morte-de-oscar-niemeyer_niemeyer_lucio_costa1-463x450

   Através desta exposição, a arquitectura portuguesa é vista, e desenhada, com olhos do Brasil − mais propriamente, os olhos de um dos maiores mestres da arquitectura mundial que, entre outras obras, desenhou o Plano Piloto de Brasília, juntamente com Oscar Niemeyer (ver foto), e recebeu alguns dos principais prémios nacionais e internacionais da sua época.

lucio costa 3   Nela se apresentam os registos feitos em pequenos blocos de desenho pelo famoso arquitecto e urbanista sobretudo durante a sua viagem a Portugal no ano de 1952, desconhecido até há pouco e aqui revelados ao público pelos seus curadores − Maria Elisa Costa (filha de Lucio  Costa) e José Pessôa.

   São deste último os esclarecimentos seguintes (recolhidos no  Boletim da Ordem dos Arquitectos, a quem agradecemos) :

lucio_costa 1   « O interesse de Lucio Costa pela arquitectura portuguesa vem desde 1937, através da sua participação, no então chamado Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional  (SPHAN), criado naquele ano por Rodrigo Mello Franco de Andrade.

   Como afirmou em um de seus textos “em nosso país a arquitetura trazida pelo colonizador (…) veio já pronta e teve de ser adaptada como roupa feita, ou de meia confecção, ao corpo da nova terra; à vista desta constatação fundamental, importa pois conhecer, antes de mais nada, a arquitetura regional portuguesa no próprio berço.(…) Cada mestre, oficial ou aprendiz – pedreiro, taipeiro, carpinteiro, alvanel – trazia consigo a lembrança da sua província e a experiência do seu ofício…” .

lucio costa 4   Mas foi somente em 1948 que conheceu Portugal e percorreu o país de Norte a Sul, com a mulher e filhas. Seduzido pela riqueza revelada nesse primeiro contacto, voltou quatro anos depois, viajando novamente do Minho ao Algarve, mas desta vez sozinho, e registando todos os lugares por onde passava, não com fotos, mas com preciosos croquis a lápis, e anotações escritas, preenchendo 290 folhas, em 5 pequenos blocos. Por incrível que pareça, esses bloquinhos ficaram perdidos durante 50 anos, e só foram encontrados – em sua casa – quando Lucio Costa já não estava mais entre nós.»

   José Pessôa refez agora todo o percurso, fotografou o que os croquis registraram, revelando a incrível pertinência, acuidade e precisão dos desenhos. Refazer esse percurso, confrontando dois registros feitos com intervalo de 60 anos – 1952/2012 – é o que a presente mostra nos oferece.

 

 

 

   Por último, como anunciámos, há, para os leitores interessados em história, pelo menos duas conferências, uma de acesso livre, outra integrando um curso com propina.

 

Seminario Construcao Estado Liberal_seminario_CH-UL_2013   Assim, o Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, através do seu grupo de investigação «Memória e Historiografia», organiza nesta Terça-feira, 2 de Abril, na sala 5.2. da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa o I Seminário de História Contemporânea «A Construção do Estado Liberal (Século XIX)», coordenado pela Professora Doutora Teresa Nunes.

   A entrada é livre.

   Do seu programa constam as seguintes palestras : às 14h15 – “Constitucionalismo Liberal: Os Direitos Fundamentais” por Ernesto Castro Leal (CH/FLUL); às 14h35 – “Liberalismo Cartista e Representação Política na 1ª Metade do Séc. XIX” por José Brissos (CH/FLUL); às 14h55 – “Estado Liberal, Desenvolvimento Económico e Crise dos Anos 90 do Séc. XIX” por Teresa Nunes (CH/FLUL); às 15h30 – Debate e Pausa.

   Segue-se às 15h50 a Conferência de Encerramento por António Ventura (CH/FLUL).

 

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   Já no mesmo dia 2 de Abril se inicia o I Curso de História dos Povos e das Culturas «Os Bárbaros do Ocidente Medieval» (coord: Prof. José Varandas), organizado pelo mesmo Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que consta de cinco sessões sempre  às Terças-feiras, de 2 de Abril a 30 de Abril de 2013, entre as 18h00 e as 20h00, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

   Sendo a inscrição de 10 € para estudantes universitários, ela é de 60 € para o público em geral.

   O tema da 1ª sessão é “Alanos, Godos, Suevos e Vândalos”.

 

 

 

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Domingo aqui)

 

 

 

 

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