DE COSTAS – por José Magalhães

Um Café na Internet

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De costas. Estava sentado ao balcão da pastelaria de costas para toda a gente.

Quando entrara ouvira o esmorecer das conversas até ao quase absoluto silêncio.

Sentia os olhares dos presentes cravados nas suas costas, como se ele não pertencesse àquele lugar. As pessoas clientes sentiam-se incomodadas com a presença dele. As pessoas empregados da pastelaria “apreciavam” o espectáculo e esperavam pelo desfecho. Também ele se estava a sentir incomodado. O coração batia forte e devagar, latejando nas têmporas.

De repente, um toque no ombro esquerdo

-Olá, viva, como está? Então lá foi, não é? É a vida! Tem de ter paciência… e força!

E ele a olhar fingindo não saber quem era que se lhe dirigia

-Bem, gostei de o ver. Até qualquer dia. Dê cá um abraço… e um beijo, já agora

E ao seu ouvido, baixinho

-Era muito amiga dela, sabe? Muito amiga. Desculpe-me não ter ido, mas só soube depois. Ninguém me disse.

Ninguém lhe disse! Claro que ninguém lhe disse, nem a ela nem às outras, fora ordem dele, que não queria que por lá aparecessem. As amigas não eram aquilo.

E ele lá ficou mudo e inerte a receber o amplexo, e o beijo húmido, e o cheiro muito leve a naftalina. De braços caídos, indiferente, mantendo o olhar distante e inquiridor.

-Dê um beijo a todos lá em casa.

E lá se foi, de cabeça baixa, fungando como se estivesse comovida, andar bamboleante e um pouco trémulo, que a idade não perdoa.

Não lhe apetecia nada falar com aquela gente, não, com gente daquela não queria mesmo, incomodavam-no. Desde a doença, anos atrás, que se tinham esquecido por completo da amiga de folias de muitos anos. Para quê lembrarem-se agora?

Outros toques nos ombros, novas palavras ocas, sem sentido, novo olhar vazio, da parte dele. Propositado, provocatório. Mais uns quantos abraços, e sempre o mesmo silêncio da sua boca. Durante todo este teatro, não disse uma só palavra. Até que se cansou. Levantou-se, olhou à volta enfrentando os presentes, olhando-os nos olhos, e dirigiu-se para a porta, primeiro com o cenho ferrado, depois, consoante se aproximava da saída, com um ar cada vez mais aliviado.

De novo aqueles olhares cravados nas suas costas. Sentia-os perfeitamente, mas já não o incomodavam. Tinha cumprido o seu propósito.

Após ter cruzado a porta, o ruído das conversas fúteis e vazias eivadas de bilhardices terá regressado como se espera. A vida na pastelaria, continuava.

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