EDITORIAL – VAMOS FALAR SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO

No Editorial de 7 de Fevereiro anunciávamos o propósito de voltar a debater a questão do Acordo Ortográfico.

Imagem2Dizíamos ser nossa preocupação evitar debater temas fracturantes – temas que percorrem transversalmente ideologias, religiões, convicções filosóficas, estatutos sociais – a questão do Acordo Ortográfico atravessa todo o espectro político, ideológico. Encontramos entre os defensores, gente de esquerda, conservadores, católicos, ateus… Entre os que se opõem à sua adopção, o leque é semelhante e abrangente. É um tema fracturante e que, por isso, tem de ser debatido com especial cuidado. Vamos começar por voltar a publicar parte do que, desde a fundação do blogue, no Verão de 2011, publicámos a respeito desse assunto.  O Acordo Ortográfico vai, pois, a partir de hoje e durante algum tempo, ocupar o nosso espaço das 15 horas –  Uma coisa deve ficar clara: os coordenadores do blogue têm opiniões claras sobre a matéria e manifestá-las-ão neste período inicial, através da publicação dos seus testemunhos. O blogue no seu conjunto não tem opinião e recusa-se a ser bastião de quem defende ou de quem recusa o AO. Nessa medida, a filtragem de comentários será rigorosa – não permitiremos abusos de linguagem – as ideias rebatem-se com ideias e não com adjectivos ou expressões menos correctas. O respeito por quem não pensa como nós é condição sine qua non para se estar em A Viagem dos Argonautas.

 Na comunidade de falantes do português, há intelectuais de grande envergadura que recusam liminarmente o Acordo. Outros há de valor equivalente, que o aceitam. Não se trata de mais inteligência, menor cultura, de coerência, de incoerência, de traição ou fidelidade – trata-se de opiniões diferentes. Que têm de ser respeitadas. Observada esta regra, tudo pode ser dito.

 Vamos então falar sobre o Acordo Ortográfico.

4 Comments

  1. Mais do que “opiniões diferentes” deveria dizer-se “ideologias (nacionais / internacionais) opostas”, que emanam da própria conceção da língua portuguesa, quer como extensa e útil (transnacional), quer como identificadora de estados-nação (fundamentalmente Portugal e Brasil).

    1. Na Galiza, talvez seja assim. Em Portugal, trata-se mesmo de opiniões diferentes – sem interferência de interesses de classe, ideologias políticas, posições filosóficas. Veja-se quem assume a defesa e quem contesta o Acordo. Ver-se-á que é como dizemos – opiniões diferentes.

  2. Caro Carlos, as opiniões acham-se (a meu ver) ligadas à ideologia, esta, interiorizada, que em cada pessoa pode ser (e é) transversal. Penso que dificilmente se pode achar uma pessoa que participe de todo e por inteiro das denominadas ideologia de esquerda e ideologia de direita e mesmo ideologia de centro. Entre outros motivos (mais do que razões), porque cada âmbito ideológico integra (e mesmo desintegra) ideologias diferentes, mais ou menos extremosas, segundo o “falar” costumeiro.
    É opinião minha (e não só, penso), quer dizer, na minha ideologia pessoal não cabem espaços não ideológicos: tudo, nas convicções dos humanos, é antes fé e talvez depois racionalização, talvez. (Aliás, sempre, sempre interferida pelos sentimentos, bem ligados aos preconceitos de que dificilmente nos libertamos…: Daí a importância da criação literária, em particular, lírica, em que os sentimentos se evidenciam descontraidamente… e sem consequência graves?)

    1. Sem dúvida – de uma forma geral, as opiniões estão intimamente ligadas à ideologia. Porém, dependem da circunstância – histórica, social, política… Na circunstância histórica dos portugueses, o AO não assume a dimensão de uma clivagem ideológica – da adopção ou rejeição nada depende para nós. E o que dizemos no editorial de ontem, reflecte a realidade – enre os apoiantes do AO vamos encontrar marxistas, católicos, social-democratas, ateus… Entre os que são contra, encontramos o mesmo tipo de pessoas, a mesma abrangência. De um lado e de outro, grandes nomes da cultura nacional – gente que deu provas de amar o seu país, a cultura e a língua. Estudando a composição de ambas as «listas», não se podem tirar conclusões sobre ideologias ou sobre índices de patriotismo. O que se pode dizer é que a argumentação de quem defende é menos consistente do que a dos que rejeitam o AO. Menos consistente por se apoiar em aspectos mais práticos, pragmáticos. Saramago, que defendia o AO, baseava a sua posição em dois pontos – primeiro, o realismo – os brasileiros são cento e tal milhões e os portugueses apenas dez ou onze. Segundo, a consciência da resistência da língua às modificações – com graça, dizia que escrevendo nós «mãe» ou «mãi», não muda a importância da progenitora na vida das pessoas. Saramago, aliás, dizia também, como nós, que entre os opositores, estava gente de grande envergadura intelctual, figuras estimáveis e respeitáveis. Por isso, queremos erradicar deste debate intervenções que, apoiando ou rejeitando, não respeitem as posições contrárias. Lançar anátemas sinistros sobre quem pensa de forma diferente, é uma atitude que não aceitaremos.
      Mas, meu caro António Gil, gostaríamos muito de ter um depoimento seu sobre este tema a que está tão ligado – após a publicação dos textos de arquivo, começamos a publicar os testemunhos e opiniões recentes. A sua opinião será bem-vinda.

Leave a Reply