Um Café na Internet
Navegadores experientes há muitos. Mas Bartolomeu Dias terá frequentado as aulas de Matemática e Astronomia da Universidade de Lisboa e serviu na fortaleza de S. Jorge da Mina. Está portanto habilitado quer a determinar as coordenadas de um local, quer a enfrentar tempestades e calmarias como as do Golfo da Guiné. É quem El-Rei D. João II escolhe para chefiar a expedição em busca da passagem para o Índico.
Em fins de Agosto de 1487 Bartolomeu Dias larga de Lisboa, comandando duas caravelas e uma naveta com mantimentos e sobresselentes. Pêro de Alenquer é o piloto da caravela capitânia. A outra é comandada por João Infante e a naveta por Diogo Dias, irmão de Bartolomeu. A bordo levam dois negros e quatro negras, caçados por Diogo Cão na costa ocidental da África. Bem alimentados e bem vestidos, serão largados na costa oriental (se a alcançarem…) para que testemunhem, junto dos povos daquelas bandas, sobre a bondade e a grandeza dos portugueses e, ao mesmo tempo, recolham informações para se poder alcançar o reino do Preste João.
Em Outubro a frota atinge a Serra Parda e o Cabo do Padrão, últimos locais tocados por Diogo Cão, a cerca de 22 graus de latitude Sul. Estão no litoral da futura Namíbia, deserto, agreste, perigoso, e que virá a ser chamado Costa do Esqueleto, por causa dos muitos naufrágios que irão ali a ocorrer. Bartolomeu calcula que já deve estar perto do extremo sul da África (engana-se como se enganou Diogo Cão…) e manda que a naveta dos mantimentos, comandada pelo seu irmão Diogo, ancore e espere na recém-descoberta e cognominada Angra Pequena, enquanto as duas caravelas demandam o fim do continente.
Já muito longe, cerca dos 29 graus de latitude Sul, junto à foz de um rio, ventos contrários retêm as duas caravelas durante cinco dias e cinco noites. Por causa das muitas voltas que deu até conseguir dobrá-lo, a um cabo próximo Bartolomeu põe o nome de Cabo das Voltas.
Chuva, tempestade, tormenta… Durante 13 dias, navegando à capa, são fustigados e assoprados talvez para 40 graus de latitude Sul. Os barcos são pequenos, o ar e o mar são muito frios, os marinheiros não conseguem dominar as velas e todos já se dão por mortos. Mas, felizmente, o tempo amaina e Bartolomeu, auxiliado por Pêro de Alenquer, vira o leme para leste. Durante dias navegam e navegam porém terra não avistam, atordoados nautas… Bartolomeu manda então rumar para norte. Ao fim de alguns dias enxergam altíssimas montanhas. Enxergam mas por bombordo, não por estibordo como esperavam. Concluem que já estão a singrar pelo Índico, não mais pelo Atlântico. Tocados pela tormenta, sem darem por isso tinham dobrado o extremo sul da África, descobrindo assim o caminho marítimo para a Índia.
Durante Dezembro bordejam a costa que inflete para nordeste e, justamente porque é Dezembro, chamam Natal àquela região. Descobrem uma angra a que dão o nome “dos Vaqueiros” por causa das muitas vacas e pastores que por ali avistam. Com muitas recomendações e sinais de amizade, ali desembarcam os dois negros e as quatro negras caçados por Diogo Cão. Acham mais à frente a foz de um rio que designam “do Infante”. Chegam a um ilhéu e ali erguem um padrão, “o da Cruz”. Os marinheiros estão exaustos e não entendem o entusiasmo do comandante, temem que ele queira navegar até à Índia. A naveta dos mantimentos ficou longe, no lado de lá, na costa ocidental, e loucura é navegar sem contar com o seu apoio. Entre queixosos e sublevados falam com Bartolomeu. Este manda lançar ferro numa angra e convida as tripulações das duas caravelas a descer a terra. Pergunta-lhes o que acham que se deve fazer e eles opinam que o melhor será regressar ao Reino. Bartolomeu pede-lhes que aceitem navegar para norte durante mais alguns dias a ver que novidade encontram. Eles anuem e para norte partem as duas caravelas. Passam-se os dias e nada de novo acontece. A marinhagem volta a reclamar, já levanta fervura a rebelião. A contragosto, mas para evitar o motim, Bartolomeu manda inverter o rumo. No regresso, alcançam outra vez o ilhéu de Santa Cruz. Do padrão que ali assentara Bartolomeu se aparta como se abandonando um filho. Tão longe tinha chegado ele e o principal que perseguia quedara fora do seu alcance; não por quebra da sua vontade mas por quebra da coragem dos seus homens…
Cruzam vasta baía e mais à frente avistam o cabo do fim da África, o Tormentoso. Bartolomeu desembarca na praia que ladeia o escalavrado penhasco. É o dia 3 de Fevereiro de 1488. Calcula a latitude pela altura do sol e na carta marca o ponto: são 34 graus e 22 minutos de latitude Sul. Ao alcançar a Serra Parda e o Cabo do Padrão, Diogo Cão chegara apenas aos 22 graus; ficara portanto muito longe do fim do mundo. Junto ao Cabo, Bartolomeu implanta outro padrão, o de S. Tiago.
Antes de regressar à caravela capitânia, mais uma vez contempla o Cabo. Mar calmo e tempo claro. “Tormentoso, mas porquê, se a tormenta já lá vai?” pergunta Bartolomeu. “Assinalas o caminho para a Índia, por isso vou chamar-te da Boa Esperança…”

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