FILIPE I – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

                   

Imagem2Lembro-me que o Cardeal D. Henrique não suportava a amizade que ligava o finado D. Sebastião a D. António, Prior do Crato. Por dois motivos:

Primeiro: Embora legitimado pelo Infante D. Luís, seu pai, D. António era filho de Violante Gomes, uma mulher do povo de alcunha “A Pelicana”. D. Luís fora o segundo filho de D. Manuel I. Ao Cardeal repugnava o casamento do irmão com uma plebeia. Também lhe repugnava o sobrinho, mistura de sangues era coisa que jamais poderia aceitar.

Segundo: D. António renunciara à carreira eclesiástica que o pai lhe preparara e para a qual não sentia apetência. Decisão que assanhara os furores piedosos do Cardeal.

Dois motivos que bastaram para o Cardeal o excluir da lista de pretendentes à Coroa. Os outros são D. Catarina, duquesa de Bragança; D. Manuel Felisberto, duque de Sabóia; D. Rainúncio, príncipe de Parma; D. Catarina de Médicis, rainha-mãe de França; e D. Filipe II de Castela, o preferido do Cardeal-rei.

Morre D. Henrique em 1580 e Filipe II manda as suas tropas entrar em Portugal. D. António, Prior do Crato, consegue reunir um exército de maltrapilhos para tentar resistir à invasão.

Os aristocratas portugueses omitem-se, jogam sempre pelo seguro, de longe assistem aos atropelos da populaça. Encolhem os ombros, suspiram, enfadados vão depois lamber as páginas dos Livros de Linhagens: casamentos cruzados, parentes em todas as cortes da Europa, dourada rede estendida por cima de todas as fronteiras do Velho Continente… A pátria pouco lhes diz, para eles é algo entre baldio e coutada. E são muito cautelosos, só puxam pelas armas quando têm a certeza antecipada da vitória.

É claro que nós, os pés descalços, os destravados, somos desbaratados pelos castelhanos na batalha de Alcântara. D. António consegue fugir para a ilha Terceira dos Açores. Mais tarde, com o auxílio, ora de franceses, ora de ingleses, fará mais algumas tentativas para restaurar a independência, todas frustradas. Irá morrer em Paris, em 1595.                                                           

Mas agora, em 1580, Filipe II, de Castela, já é também Filipe I, de Portugal.

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