Miguel Relvas deixou finalmente o Governo. Por todo o país há reacções a esta decisão, a maioria obviamente de satisfação. Alguém disse mesmo que ele saiu porque Portugal não é um país das bananas (alguns diriam não é um país de bananas). Seria bom que isso fosse verdade. O facto é que ele foi ministro quase dois anos, tendo tratado de matérias muito complexas, como a reforma administrativa, o dossiê RTP e outras. Chegou a ser considerado como uma espécie de coordenador da equipa governamental, na sua qualidade de ministro adjunto e dos assuntos parlamentares. Contudo, há pelo menos vários meses que tinham chegado ao conhecimento do público os processos que utilizou para obter um diploma universitário. E é bom que se diga: não é crível que os seus companheiros próximos na política ignorassem a situação. E perguntar: como pode uma universidade dar guarida a uma situação destas? É verdade que estamos num país em que os chicos espertos são muito valorizados. Mas é por aí que o problema se agrava.
Miguel Relvas disse à saída: “Sei que só a história me julgará convenientemente e com distância”. Tentou adaptar à sua situação uma tirada já utilizada por outros, em circunstâncias bastante diferentes (e sem dúvida muito mais respeitáveis). Será julgado com certeza, mas não será exagero prever que o resultado vai ser pior do que ele espera. Mas entretanto com ele serão julgados não só o governo a que pertenceu, que não deverá deixar saudades à maioria das pessoas, mas também o seu país. Portugal não sai nada bem deste assunto. E aqui há matéria que exige reflexão cuidadosa. Com José Sócrates houve uma série de problemas, ainda na memória de todos. E como é que a seguir ganha as eleições um partido que coloca no governo uma pessoa assim? Podem tecer-se muitas explicações, mas o problema não se pode ignorar.
Tem-se falado muito das ideias que nos chamados países do norte se formulam correntemente sobre os habitantes dos chamados países do sul, incluindo os portugueses. Essas opiniões, apesar da sua grosseria e da sua falsidade, chegam a ser invocadas para justificar as diferentes situações em que se encontram os tais países do norte e do sul. Casos como o de Miguel Relvas servem de sobremaneira para dar alimento a quem deseja propagar essas atoardas. O facto de ele ter estado tanto tempo no governo torna ainda mais grave a situação. Não existe justificação para este tipo de coisas. Esta ambição incontida que existe em muitos políticos (e não só), que muitas vezes se procura apresentar como uma característica positiva para o desempenho de funções, tem na realidade contribuído negativamente para a má situação em que nos encontramos.


Com a saída do Ervas – nem sequer tinha categoria para ser Relvas – num tom de pura brincadeira, coisa imprópria para assuntos sérios, eu direi, por agora, Portugal 1 – Governo 0 !!!CLV