
Praxedes lá estava ontem a ver a ver passar a tropa que marchava para a escola de repetição. À noite não se conteve que não me entornasse por cima o seu entusiasmo.
― Ah! meu amigo! Palavra de honra que há muito tempo não via nada que mais me enchesse as medidas. Andavam por aí apregoando que já não tínhamos exército e eu, posto que não entenda nada do assunto, regalei-me de ver aquela rapaziada toda, desfilando de espingarda ao ombro. Desde as paradas do 24 de Julho, não tinha tornado a ver tanta tropa junta. Uma das coisas, então, que me deu no goto foi que, antigamente, olhava-se para os soldados e não se conhecia nenhum. Davam a impressão que os tinham alugado para vestir a farda, pôr um penacho e apresentar armas. E agora não. Não se ouvia senão dizer: ― Lá vai o Joaquim! Olha o António! Olha o marido da Quitéria! ― E rapazes finos então?! Só a minha mulher contou quatro namoros, que foram da minha Fifi. Pelos modos, ia lá um que tem setecentos contos e dois automóveis e eu disse adeus a uma porção de filhos de família. Sim, senhor, agora! sim. Exército para todos; mochila para pobres e ricos. Assim é que se entende. Noutras eras era um escândalo. Só os pobres diabos é que se viam com as correias no lombo. Pouca vergonha! Assim havemos de ter soldados, já não passaremos vergonhas, já não nos atirarão constantemente à cara com a nossa fraqueza. Foi sempre assim que eu entendi que devia ser o exército.
O Praxedes estava belo de patriotismo guerreiro. Perguntei-lhe então:
― Você, no seu tempo, onde assentou praça?
― Eu? Respondeu-me o nosso amigo. Fui refractário, mas arranjei a coisa com empenhos e, para que ao meu filho lhe não sucedesse o mesmo, livrei-o há anos pela junta.
2 de Setembro de 1913
IN PRAXEDES, MULHER E FILHOS. CADASTRO DE UMA FAMÍLIA LISBOETA. 1916, GUIMARÃES & C.ª, EDITORES. RUA DO MUNDO, 68 – 70. LISBOA.
