EDITORIAL – PARA CADA UM SUA VERDADE

Imagem2Sendo óbvio para muitos portugueses que o Tribunal Constitucional fez a única coisa que podia fazer, sob pena de gerar um paradoxo – como poderia um órgão de defesa da Constituição sancionar a violação da Lei Fundamental – as opiniões são diferentes e o consenso pedido por Cavaco Silva é coisa impossível. Para Passos Coelho, Marcelo Rebelo de Sousa e demais gente do PSD, o TC cometeu um crime.   Usando o título da famosa peça de Luigi Pirendello, «para cada um sua verdade», fazemos um breve percurso pelas diversas «verdades» que sobre a decisão do TC se produziram. E desde já dizemos que não as pomos todas ao mesmo nível – há verdades aceitáveis (as que coincidem com a nossa) e outras ridículas. No fundo, quando falamos de Portugal, do povo português e dos seus interesses, estamos a falar de coisas diferentes. Mas vamos às citações.

Jorge Cordeiro, do Comité Central do PCP,  diz que «ao contrário do que cinicamente o primeiro-ministro afirma, não foi nem a decisão do Tribunal Constitucional nem a Constituição que criaram os problemas» «É o Governo, e só o Governo, que é responsável pela situação de declínio económico e retrocesso social que está a retirar Portugal para o abismo». Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, defendeu que é o «tempo de termos eleições para que o povo português possa escolher o seu destino»(…) «Não aceitamos esta chantagem do Governo e o Presidente da República, se quisesse assumir as suas responsabilidades, devia dissolver a Assembleia da República e provocar eleições». Eleições antecipadas é também o que defende António José Seguro E, ao contrário do defendido há dois dias por Cavaco Silva, entende que “o Governo não tem condições para resolver o problema» E pões de parte qualquer hipótese de o PS vir a colaborar com o Governo na procura de uma solução para ultrapassar a presente situação. “O país vai em direcção a uma parede, e querem que o PS se junte a essa locomotiva que vai em direcção a uma parede?”.

E o que diz Sócrates?

No seu papel de comentarista da RTP 1, José Sócrates opinou que Passos Coelho «tratou o Tribunal Constitucional como um partido da oposição e um inimigo político». O que «revela muito sobre a cultura política e sobre a orientação que o Governo decidiu seguir de ataque ao TC».Sócrates classificou como «impensável» declarações do primeiro-ministro, nas quais afirmava que o «TC punha em causa a credibilidade internacional do nosso país e os esforços dos portugueses».

E a voz do dono? Em entrevista a uma rádio alemã, Wolfgang Schaeuble,  ministro alemão das Finanças,  avisa que Portugal vai ter de encontrar medidas que compensem as perdas resultantes do chumbo do TC. «Portugal fez grandes progressos no último ano para assegurar um regresso aos mercados financeiros, mas que, depois desta decisão, o governo vai ter que arranjar medidas alternativas para continuar esse trabalho».  Um toque de humor – Esteban González Pons,  da direcção do PP, diz –  “Em Espanha os sacrifícios foram feitos por  todos e graças a isso Espanha não pediu o resgate da dívida nem teve que pedir financiamento extra», por isso, segundo ele «Portugal gostaria de ser como Espanha».

Para cada um sua verdade – a verdade de trabalhadores, pensionistas, desempregados, jamais será a mesma do que a dos poderes económicos, portugueses e estrangeiros. O que é estranho e anómalo, é que os primeiros escolham sistematicamente governantes que servem os segundos. É este tipo de consenso que o PR pede.

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