CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 49 -por José Brandão

D. MANUEL II – O DESVENTURADO

(reinou de 1908 a 1910)

Rei morto, Rei posto.

«Cinco de Outubro de 1910. O último rei de Portugal caminha pesarosamente pelo areal de uma pequena praia da Ericeira. D. Manuel II, o Desventurado, está prestes a embarcar no iate real D. Amélia que o levará para longe da Pátria. Do seu pensamento não saem as imagens da grande tragédia que ele presenciara na véspera de subir ao trono em 1908. Nesse dia vê assassinarem-lhe o pai e o irmão mais velho. Lembra-se de tudo:Imagem1

Era um sábado, este primeiro dia de Fevereiro de 1908.

Cinco horas da tarde em Lisboa. No Terreiro do Paço encontra-se uma pequena multidão que não tira os olhos do rio que nasce em Espanha e vem morrer em Portugal. Entre os mais atentos estão dois homens com especial preocupação. Manuel Buíça, que esconde uma carabina, e Alfredo Costa com um revólver pronto. Ambos estão ligados à maior sociedade secreta revolucionária existente em Portugal. A Carbonária, espécie de ramo armado da velha Maçonaria secular.

No vasto estuário, desde os confins do Mar da Palha, frente a Cacilhas já se vislumbra os contornos do barco que todos esperam naquele momento. É o vapor D. Luís, que trás de volta à capital a família real que rege os destinos do País legado por D. Afonso Henriques em 1143.

O rei D. Carlos regressava de férias em Vila Viçosa onde fora caçar numa das suas propriedades da Casa de Bragança. O paço ducal de Vila Viçosa, um dos maiores palácios portugueses é o preferido para as férias da família real, sobretudo durante a época da caça. O melhor que tem este Palácio é a grande tapada que o circunda, numa extensão de quinze quilómetros. Nela se sucedem os prados e os bosques, os lagos propícios à pescaria e as coutadas de veados e de corças.

Logo no princípio de Janeiro deste ano de 1908, o soberano, a rainha e os dois filhos haviam vindo para Vila Viçosa. O mais novo, D. Manuel, voltara para Lisboa. O primogénito, D. Luís Filipe, ficara até ao fim das férias da família, companheiro inseparável do pai nas suas caçadas.

D. Luís Filipe acompanha os pais, a caminho da carruagem que os levará a todos à estação do caminho-de-ferro. Tencionam voltar por alguns dias durante o Carnaval e o soberano anuncia-lhe que vai mandar fazer obras no palácio.

D. Carlos deixou o traje civil e envergou a farda de generalíssimo; a tarja escarlate da gola cinge-lhe os refolhos da nuca e do duplo queixo; a pala do boné carregada para os olhos dá-lhe uma severidade exagerada.

O régio casal e o seu filho mais velho partiram da gare da vila alentejana pelas 11 horas e 40 minutos da manhã a caminho do cais fluvial do Barreiro.

O sol a pino invade a campina alentejana, por onde corre já o comboio em que a família real regressa a Lisboa. Até onde a vista alcança, sob o céu muito azul, os campos são imensas manchas pardas. Faltam precisamente sete semanas para que chegue a Primavera, e os campos estejam verdes, e as searas principiem a romper. Faltam sete semanas apenas, também, para que o príncipe herdeiro complete os vinte e um anos.

A atenção do príncipe prende-se em sua mãe. Vestida de escuro, a rainha vai calada e tem um aspecto triste, que lhe não é próprio. O pesado casacão em que se abriga e os ornatos do chapéu tornam ainda maior a sua estatura, de mais de um metro e oitenta de altura. O seu silêncio é significativo do desagrado com que regressa a Lisboa. Na véspera pedira ao filho para convencer o rei a atrasar por alguns dias a viagem, mas a diligência resultara inútil. Para D. Carlos estava fora de questão ficar mais um dia em Vila Viçosa.

Agora, já no comboio, o casal régio segue em silêncio, entregue aos seus pensamentos. E reparando que o pai ainda não acendeu hoje um único charuto, ele que é inseparável dos seus «Aquilas» e considerado o rei mais fumador da Europa, D. Luís Filipe sente que alguma coisa excepcionalmente grave preocupa o soberano.

A atmosfera é de inquietação em toda a comitiva que acompanha a família real. Durante a viagem não se falou de outra coisa que não fosse o ambiente de tensão que se vivia em Lisboa. Sabia-se que a vida do rei corria sério risco. Da capital fora perguntado para Vila Viçosa que espécie de transporte deveria ser utilizado no Terreiro do Paço: se os automóveis cobertos, se as carruagens abertas, (landaus). De lá se respondeu que as últimas.

Àquela hora, em Lisboa, no café Gelo, numa mesa a um canto, perto da porta para a cozinha, estão Manuel Buíça e mais quatro pessoas: três desconhecidos e Alfredo Costa. No meio da animação geral, aquela mesa é talvez a mais sossegada de todas. A imagem é a de um pacato empregado de escritório almoçando tranquilamente fora de casa e que tivesse convidado alguns colegas para o acompanharem ao café. O criado levanta os pratos e serve mais cerveja. Os três desconhecidos saem para dar lugar a um outro. A conversa decorre em tom baixo, sem pressas, como quem trata de negócio seguro. Buíça sorri ao encarar com o freguês sentado na mesa vizinha e atira-lhe, ao acaso, um dito banal:

— Estamos aqui, estamos em Timor… é o primeiro a levantar-se e a partir. Ouvem-no dizer aos que ficam:

— Vou entregar esta bengala e vou buscar o varino e o resto.

O varino está na moda. Chama-se assim a um capote, ou capa abotoada, que cobre o corpo até aos pés. É óptimo para o frio e muita gente o usa, mesmo em dias de sol, como o deste sábado lisboeta. É óptimo para alguém se misturar entre o público que circula nas ruas e passar despercebido. Um bom abrigo e uma boa forma de esconder uma arma das vistas inconvenientes.

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