Um Café na Internet
Tive uma máquina de calcular manual, uma Facit. Dez teclas para os algarismos, duas para o avanço e recuo de posições, uma barra, um sistema de rodas dentadas e uma manivela, bisneta da máquina de Pascal. Verdadeira jóia mecânica, fazia as quatro operações. Se bem me lembro, nas divisões aceitava doze dígitos para o dividendo, oito para o divisor e o quociente ia até dez dígitos. Sempre gostei de brincar e especular com números. Naquela época o Guerreiro, o chefe do escritório, andava a tirar o curso noturno do Instituto Comercial, já ia no segundo ano; só faltavam mais dois para acabar o curso. A Matemática era muita areia para a sua camioneta, nem sequer conseguia perceber o enunciado dos teoremas… Começou a disparatar:
– Tretas, é só tretas. Quem é que me prova que um número a dividir por zero é igual ao infinito? Isto cabe na cabeça de alguém?
Levantei a luva:
– Provo eu! Acreditas nos cálculos dessa Facit?
– É uma boa máquina!
– Mas Guerreiro, acreditas na Matemática que sustenta essa máquina?
– Nessa eu acredito, é palpável.
– Então agarra aí na Facit.
Agarrou. Mandei que pusesse um número qualquer no dividendo e ele pôs 1969. Mandei que pusesse zero no divisor e ele pôs. Mandei que fizesse a operação e ele começou a dar à manivela. Os dentes não engrenavam e a cada volta da manivela subia mais um ponto no quociente, um, dois, três, dez. cem, mil, dez mil, cem mil, um milhão, por aí acima…
– Estás a ver, Guerreiro? Mais máquina houvesse e mais aumentaria o quociente. E se tu ficasses a dar à manivela até ao fim dos tempos, e se a barra da máquina se estendesse até ao infinito, também o quociente lá chegaria… Está feita a demonstração!
Ficou aparvalhado, larguei-me a rir.
In LIANOR

