POESIA AO AMANHECER – 178 – por Manuel Simões

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CARLOS FRADIQUE MENDES

(“cerca de 1830 – 1888”)

SONETO

A cruz dizia à terra onde assentava,

ao val florido, ao monte nu e mudo:

“- Que és tu, abismo e jaula, aonde tudo

vive na dor e em luta cega e brava?

Sempre em trabalho, condenada escrava,

que fazes tu de grande e bom contudo?

Resignada, és só lodo, informe e rudo;

revoltosa,és só fogo e hórrida lava…

Mas a mim não há alta e livre serra

que me possa igualar! Amor, firmeza,

Sou eu só – sou a paz … tu és a guerra!

Sou o espírito, a luz! tu és tristeza,

ó lodo escuro e vil!…” Porém a terra

respondeu: – “Cruz, eu sou a Natureza!”

[Antero de Quental]

Deste heterónimo criado por Eça de Queiroz, Antero de Quental e Jaime Batalha Reis, publicou-se as “Lapidárias”, folhetim de versos na“Revolução de Setembro”, de 29/8/1869, e “Poemas do Macadam” no “Primeiro de Janeiro”, de 5/12/1869. Carlos Fradique Mendes é apresentado por Eça (“A Correspondência de Fradique Mendes”) como pertencente aos “poetas satanistas” que entrava no programa do “Cenáculo” para combater o lirismo aberrante que se produzia em Portugal.

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