REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O Liberalismo económico terá dado origem a  Hitler?

TRÉMARECLE LIBÉRALISME ÉCONOMIQUE A-T-IL ENFANTÉ HITLER?    TEXTO DISPONÍVEL EM L’ESPOIR, CUJO ENDEREÇO ELECTRÓNICO É O SEGUINTE:
HTTP://LESPOIR.JIMDO.COM/2011/10/31/LE-LIB%C3%A9RALISME-%C3%A9CONOMIQUE-A-T-IL-ENFANT%C3%A9-HITLER/

Parte II

(continuação)

liberalismo económico - IVHindenburg com  86 ans em 33

Como hoje,  sente-se  o peso da chapa de chumbo ideológica  que pesa sobre Schleicher, forçado a justificar-se dolorosamente para dar trabalho  ao seu povo  em vez de seguir as recomendações dos antepassados de Alain Minc. O seu programa económico baseia-se, na verdade, no trabalho de um economista alemão dessa época, um  membro da sociedade Friedrich List, Wilhelm Lautenbach.

Num  memorando datado de 1931, ele escreveu: “a tendência natural para resolver uma urgente situação económica e financeira não  é a de  reduzir a actividade económica mas  sim de a fazer aumentar.”  Face a  um choque económico, explica ele, as políticas de rigor orçamental certamente aumentam a competitividade, mas pelo seu impacto negativo sobre a procura interna, essa política provoca  prejuízos para as empresas que são maiores que os ganhos de competitividade. Estas políticas são a prazo, portanto, pura e simplesmente  ineficazes, uma vez que eles aumentam o défice  orçamental contra o qual elas foram aplicadas, dado  o declínio das receitas do Estado. Estas políticas  “levam  inevitavelmente a um completo desastre económico e político”.

Ele defendia, portanto, os investimentos públicos com impacto positivo global e que  teriam sido feitos sem a ocorrência da crise. Para os financiar  sabendo que os   capitais  fugiram para o  estrangeiro e que a poupança doméstica é baixa, não há outro remédio senão recorrer ao  Reichsbank  por um sistema de financiamento de projectos,  vistos caso a caso, para evitar a inflação. Os organismos do Estado dariam a sua aprovação aos projectos propostos por empresas privadas se  estes correspondessem  a  “projectos necessários” e   o Reichsbank forneceria a seguir à referida empresa os créditos necessários definidos pelo organismo público .

Pode-se notar que se trata da criação de dinheiro pelo Banco Central, mas garantindo a produtividade futura do investimento, com a inflação efectiva e eficazmente controlada, embora o processo potencialmente laborioso pudesse prejudicar a dimensão do investimento. A análise de Lautenbach está pois muito perto da análise feita por Keynes sobre a explicação da crise, mas diferem nas soluções, em particular, sobre o uso da moeda  (Keynes era favorável à expansão monetária).

Mas a  quem é  que se estava a referir  Lautenbach a propósito das  políticas deflacionistas,   contra quem é que  Von Schleicher parecia procurar afirmar-se  no  seu discurso de rádio? Como é que se chegou   a  um tal estado de ruína da economia alemã e, por ricochete, também da  política? A política económica dos dois antecessores de Schleicher  na Chancelaria,  Von Brüning, Von Papen  dão-nos a resposta.

liberalismo económico - VO  “Chanceler da fome ” no  Reichstag

  «O  chanceler da  fome »

A Alemanha da década de 1920 viu a expansão de Sozialstaat,  com os salários a acompanharem  pouco mais ou menos a produtividade, com as políticas de  empregos públicos, com a forte pressão orçamental. No entanto o seu crescimento económico é muito baixo, e desde a estabilização do marco, em 1924, o valor da sua moeda, que está garantida em ouro, é forte. Da mesma forma, as exportações enfraqueceram e a sua participação no comércio mundial não é mais do  que  6,8% em 1925, contra 7,2% para a França por exemplo (em 1913, a França estava ao mesmo nível, mas a Alemanha representava  13,1%.). Enquanto que a França, cujo franco se deprecia naquela época, conhece uns anos de forte crescimento e de um grande reforço na competitividade das suas indústrias, a Alemanha não consegue relançar-se, em grande parte devido à sobrevalorização de sua moeda.

A principal consequência deste diagnóstico, é a fraqueza do investimento produtivo, que irá provocar desde o final de 1928 a recessão da economia alemã. A parte do investimento no produto nacional líquido alemão passa assim de  15,2% no período de 1910-1913 para 11,1% em 1925-1929.

A crise de 29, na Alemanha

São estes  os obstáculos às exportações alemães (especialmente as  desvalorizações ) e assim como a fraqueza do investimento produtivo,  que levaram à  diminuição da produção (segundo Holtferich). A estrutura concentrada das empresas alemãs (konzerns) também fomentou o desenvolvimento do desemprego.

Em 1929, o PIB diminuiu de 1,5%, o desemprego sobe para 5,9%. Desde Março de 1930,  Hindenburg, antes de bloquear o Parlamento que não chega a acordo para constituir uma maioria, chama   Von Brüning para a Chancelaria e a conselho de Von Schleicher.  Era já o fim do parlamentarismo alemão. O Chanceler governava  por decreto. Este será rapidamente alcunhado de “O Chanceler da fome”, denunciado pelos comunistas.

Na verdade, face à diminuição das  receitas de Estado devido a diminuição das receitas (dos impostos) e ao aumento dos  benefícios sociais (aumento do desemprego), face à  deterioração da balança comercial alemã, Bruning decidiu aplicar  um programa de deflação para reduzir as despesas do Estado e impulsionar a competitividade das empresas. No entanto a recessão aprofunda-se em 1930, o PIB cai de 7,8%, as exportações de 5,2%, subindo para 9,1% a taxa de desemprego. Nas eleições de Setembro, os nazis obtêm 18% dos votos, contra apenas 2,6% em 1928.

Mas em 1931, a situação agrava-se dramaticamente, ano em que o Danat, um grande banco alemão, declara falência, arrastado pela crise americana e pela falência do Credit  Anstalt em Viena. Os bancos alemães também estão muito expostos ao exterior, os seus fundos próprios são muito baixos, enfim, eles utilizam a poupança de longo prazo para financiar os créditos de curto prazo. O sistema bancário alemão está à beira do colapso. O Estado deve intervir e recapitalizar os bancos, convertendo os seus créditos em participações no capital próprio. Mas o crédito encontra-se consideravelmente diminuído, reforçando-se assim a depressão na actividade industrial, contudo já ela própria em plena queda . Em 1931, o PIB cai ainda de 7,8%, as exportações de 9,1%, o desemprego aumenta novamente e atinge os 13,9%.

liberalismo económico - VIFranz “Guizmo” Von Papen

Além disso, os capitais estrangeiros estavam agora a fugir da Alemanha em massa reduzindo as possibilidades de revitalização da produção e ameaçando a paridade ouro do marco. Perante esta situação Bruning recusa-se a desvalorizar. Ele, é verdade, inicia  uma política tímida do controle do mercado cambial  (o que equivale a uma desvalorização), mas por outro lado  vai aumentar a   taxa de desconto do  banco central o  que anula estes efeitos. O marco permanece forte, enquanto a Grã-Bretanha, grande concorrente industrial da Alemanha, contra todas as expectativas e crenças, desvalorizou a sua moeda no dia 31 de Setembro. As indústrias alemãs passam a ficar rigorosamente estranguladas.

Para fazer o ajustamento necessário, ou seja, para equilibrar o défice orçamental e o défice comercial, que eram não financiáveis sem desvalorização, Bruning conta com a redução do salário dos funcionários, baixados duas vezes de 10%, conta com  o aumento de 5% de imposto sobre os rendimentos, sobre a redução das ajuda ao desemprego, à habitação, às cantinas escolares, provocando ainda mais miséria e ainda menos actividade económica.

Ele apela a que se continuem a “prosseguir os esforços”, a não parar “a 5 metros da meta”, mas ninguém parece estar a ver o fim. Após as manobras desenvolvidas por Schleicher,  é então  Von Papen que o substitui  em Junho de 32 e que com os seus planos de  ‘ Setembro assume com  Bruning  a responsabilidade do   desastroso ano de 1932: menos 7,6% de crescimento,  menos 31% nas suas exportações, o desemprego é elevado para 18% e os 5 metros aparecem afinal bem longos…

É a República de Weimar propriamente dita, que é considerada responsável por esta situação e isto  por uma grande parte dos patrões. Sob a tutela de Halmaj Schacht, o ex-governador do Reichsbank, ter-se-á cada vez menos escrúpulos para defender os seus interesses  num  quadro  ditatorial, provavelmente ignorando   que a manobra em si-mesma lhe seria fatal.

liberalismo económico - VIIDistribuição de sopa pelo exército durante a crise

Porque é que foi aplicada esta política?

(continua)

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