OU NÓS OU O DINHEIRO!* – por Mário de Oliveira

* Transcrito com a devida vénia e os nossos agradecimentos (e com autorização expressa do autor) do Editorial 56 do jornal Fraternizar, edição 87, sexta-feira 12 Abril 201.

Ou nós, as populações e os povos da terra, ou o Dinheiro. Entre ambas as realidades, a incompatibilidade é total. Enganamo-nos redondamente, se, na afirmação em título, em lugar da disjuntiva, Ou, colocamos a copulativa, E. Porque o Dinheiro, onde estiver, sempre nos devora. O mal, é admiti-lo nas nossas vidas, tê-lo como parceiro nos nossos projectos. Pior que o lobo a cuidar dos cordeiros, é pormos o Dinheiro a cuidar das nossas vidas. O Dinheiro é o inimigo. Ou o decapitamos, uma e outra vez, sem hesitar, até o erradicarmos definitivamente da face da terra, ou ele apodera-se de nós, da nossa mente, da nossa alma, dos nossos corpos, das nossas entranhas, e nunca mais chegamos à dimensão de sujeitos e de protagonistas na história. Somos, por toda a vida, seus reféns, servos, súbditos, vassalos, escravos. Sem vez nem voz. E ele, o único Senhor, o único Deus, o único Amo.

Se quisermos ser sinceros, temos de reconhecer que é já esta a nossa presente situação, no país, na Europa, no Mundo. Nenhum povo, nenhum país, nenhum continente, tem voz nem vez. Apenas há o Dinheiro. A voz e a vez são próprias dos sujeitos, dos senhores dos seus próprios destinos, e, hoje, nenhum povo, nenhum país, nenhum continente dispõe de si e decide do seu presente e do seu próximo futuro. Nenhum. Todos somos reféns, servos, súbditos, vassalos, escravos do Senhor Dinheiro. Só ele põe e dispõe. Nas nossas casas. Nos nossos países. Nos nossos continentes. No nosso mundo. Podemos correr e corremos este mundo e o outro, temos a ilusão de que somos livres, que decidimos de nós e das nossas vidas, mas apenas obedecemos às leis e às ordens que o Dinheiro nos impõe.

De todos nós, os actuais executivos ou governos das nações, são, sem dúvida, os maiores escravos do Senhor Dinheiro. Já nem conseguem distinguir o dia, da noite, o fim-de-semana, da semana. Todo o seu tempo é do Dinheiro. Nem família constituída, podem ter. O Dinheiro rouba-lhes tudo. E, até, envelhecem, num curto espaço de tempo. Sempre num rodopio e numa velocidade que nunca antes se viu e que é mil vezes pior do que o suplício de Tântalo. Deveriam, por isso, ser os primeiros a atirar com a toalha ao chão e a desistir de vez do Dinheiro. Os primeiros a dar o grito do Ipiranga, não o do demencial messianismo/cristianismo, Liberdade ou Morte, mas o da mente humana cordial, Liberdade, Igualdade, Sororidade! Porém, estão já tão apanhados pelo Dinheiro, pela sua ideologia/idolatria, o demónio dos demónios, que só mesmo a morte, quando chegar, os libertará para sempre.

E pensarmos nós que no princípio, não era assim. No princípio, era o Amor, a Comunhão. A Terra e tudo o que a Terra produzia, era de todos. Até que chegou o Dinheiro, travestido de Deus. Com ele, chegaram também os sacerdotes e todo o tipo de livros ditos sagrados, com destaque para a Bíblia, que os próprios sacerdotes escreveram ou aprovaram. Passaram então a ensinar que a Terra e tudo o que ela produz, em lugar de ser de todos, era de Deus. E que Deus tem direito ao primeiro fruto, até ao primeiro filho, que os povos sucessivamente gerarem. Os povos acreditaram nos sacerdotes, na Bíblia e nos outros livros sagrados. E, em vez de crescerem em práticas económicas e políticas maiêuticas, que fariam deles sujeitos e protagonistas na História, cresceram em práticas religiosas e de caridadezinha. Os templos e os santuários tornaram-se muito mais importantes que a própria terra, nossa casa comum, no princípio, quando o Dinheiro ainda não existia.

Entretanto, há já uns dois mil anos, que, entre nós e connosco, ininterruptamente acontece Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria. Cresce em idade, em estatura, em sabedoria, em graça e, quando, já adulto, faz-se pobre por opção. A partir desse instante, passa a ver que Deus, o dos sacerdotes, da Bíblia e dos demais livros sagrados, mais não é que o Dinheiro. E anuncia aos pobres e aos povos este evangelho politicamente subversivo e conspirativo. Os sacerdotes não lhe perdoam e matam-no. Desconhecem que a sua morte na cruz do império é, para sempre, a grande revelação de que Deus, o dos sacerdotes, dos livros sagrados e das religiões, cristianismo, judaísmo e islamismo incluídos, é o Dinheiro, que só vem para roubar, matar as populações e os povos e destruir o planeta.

Postos perante esta revelação, nós, as populações e os povos, temos de escolher: ou nós próprios, ou o Dinheiro. Como populações e povos, cumpre-nos crescer, tal como Jesus, em idade, em estatura, em sabedoria, em graça e, quando adultos, fazermo-nos pobres por opção, a única maneira de decapitarmos o Dinheiro, disfarçado de Deus. Sermos, cada dia, economia e política praticadas, mesas compartilhadas. Permanentemente habitados por Deus Abba-Mãe que nunca ninguém viu e se dá a conhecer em nós, como em Jesus, quando nos fazemos pobres por opção e, desse modo, decapitamos o Dinheiro, o Deus dos sacerdotes, da Bíblia e de todos os demais livros sagrados e respectivas religiões.

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