Lemos no Diário de Notícias de ontem, 12 de Abril, na secção Alegações Finais, que um presidente de junta de freguesia ofereceu um emprego a Miguel Relvas. Com o parecer favorável da sua junta. Trata-se de um autarca eleito pelo CDS. A sua freguesia, devido à chamada reforma administrativa impulsionada pelo ex-ministro, vai ser obrigada a agregar-se com outras duas. Entretanto, em 2003, a sede foi inaugurada com a presença de Relvas, que na altura era secretário de Estado da Administração Local.
Por um lado, poderia parecer que o autarca estaria preocupado em não deixar o ex-ministro desempregado. Ao fim e ao cabo as forças políticas a que os dois pertencem estão ligadas numa coligação que governa o país (muitos acham que desgoverna, mas agora não vamos discutir isso). Mas ele reconhece que “Quando os ministros pensam em sair já têm para onde ir”, e tem a consciência de que a sua oferta de um lugar de condutor de máquinas não serve para Miguel Relvas. Embora diga esperar que este tenha habilitações suficientes para o lugar.
Entretanto, o presidente da junta de freguesia foi parte em duas providências cautelares e de uma acção que está no Tribunal Constitucional (estão a ter tanto trabalho, os senhores juízes!) com o objectivo de suspender o processo (apesar do laconismo, percebe-se perfeitamente que se trata da agregação de freguesias, prato forte da chamada reforma administrativa). Lamenta que o partido pelo qual se candidatou nunca o ter informado sobre o assunto, nem tenha respondido aos apelos que lhe fez.
Esta questão é muito mais do que uma simples graçola ou um desabafo. O autarca tentou, usando de algum humor, dar voz ao descontentamento que grassa devido ao ataque às freguesias, no qual Miguel Relvas teve papel destacado. Para quem conhece minimamente o nosso país sabe que as juntas de freguesias têm funcionado como um travão à desertificação de grande parte do país e ao aumento desmesurado da distância entre governantes e governados, e que a sua redução ou extinção não trará grandes poupanças nem ajudas ao pagamento das dívidas aos agiotas nacionais e internacionais. Em bastantes zonas do país têm demonstrado eficácia no apoio a idosos e a outros elementos da população em situação de risco. São um elemento importante na defesa do ambiente e têm um papel fulcral na compreensão dos problemas que afligem a população. Esta ironia do autarca é significativa porque simboliza o sentimento de impotência que domina as pessoas que estão longe do poder, não por distância geográfica, mas sim pela distância entre governantes e governados, tradicional no nosso país, pode-se dizer que secular, mesmo multisecular, que vem desde o tempo da centralização do poder real, e que divide o povo em diferentes camadas. O Eça e o Camilo já se debruçaram sobre o assunto, periodicamente ele volta à ribalta, até com as discussões sobre o regionalismo. Em Portugal, pesa uma ideologia que defende uma tradição rural vaga e mítica, prega contra o poder do estado, mas que está irmanada a uma praxis centralizadora e autoritária, que quer tudo na sua mão, que implica a redução ou mesmo a extinção de tudo o que se lhe possa opor. A reforma administrativa obedece a esse desígnio implacável, próprio dos que se acham predestinados a salvar a pátria mas que para o conseguirem têm de primeiro a destruir e escravizar. Vai a par com outras reformas, que também obedecem ao mesmo desígnio. Contra elas, o autarca, ao oferecer um lugar de condutor de máquinas a Relvas, usou uma arma simples e modesta, mas que não deve ser menosprezada: o humor.

