A LÓGICA DOS PARAÍSOS FISCAIS NA DINÂMICA DA ABSORÇÃO E REPARTIÇÃO DO EXCEDENTE ECONÓMICO, NA DINÂMICA DO CAPITALISMO MODERNO – II

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 

1. Os paraísos fiscais: uma leitura elegante e curiosa

Jean Claude Werrebrouck

JEAN CLAUDE WERREBROUCK,  LES PARADIS FISCAUX, DISPONÍVEL NO SITE A CRISE DOS ANOS 2010, CUJO ENDEREÇO É O SEGUINTE:
HTTP://WWW.LACRISEDESANNEES2010.COM/
(conclusão)

Por detrás da globalização estão ainda os Estados

Essa ambiguidade sobre a moeda e a finança é o vector de uma globalização que não é uma verdadeira globalização total: as fronteiras vão continuar a existir e vão facilitar uma grande osmose entre os empresários políticos e os empresários económicos. Por detrás da globalização ainda estão os Estados.

Os empresários económicos que compraram aos empresários políticos o fim das antigas fronteiras  sob a forma da livre-troca têm  tem que entrar na  grande máquina soberana que é a moeda para a redesenhar, daí a formação de um grupo social sincrético, hoje  chamado de  oligarquia, em  que é difícil distinguir o mundo político do mundo económico. Com movimentos cujo sentido é impresso pelas tradições culturais: nos EUA parte-se da finança para ir para o político, enquanto em França, parte-se do político para ir à finança.

Este grupo social com uma população de técnicos que o acompanha e que lhe é dedicado (advogados, especialistas em impostos, especuladores, informáticos,  matemáticos, avaliadores, etc.) está em força e constitui-se em classe mundial . Ainda precisa de se  apoiar em  fronteiras, e, portanto, nos Estados, para se  globalizar. E do lucro que esta classe mundial  “produz” ‘ ‘ paga uma parte, e isto não  é o resultado da produção de um bem ou de um serviço, mas a diferença entre Estados: especulação sobre os mercados cambiais, logo sobre as  taxas de câmbios,  sobre as  taxas de juros, mas também diferenças entre legislações diversas e mais particularmente sobre diferenças na legislação fiscal. Os Estados, portanto, são fundamentais também  ” grumos”: sem eles  não haveria lucro  ‘global’ assente nas simples diferenças.

Daí muitas das interrogações neste tipo de mundo sobre o valor acrescentado produzido: a partir de agora fabrica-se  dinheiro sem produzir riqueza. Os algoritmos produzem dinheiro manipulando outros algoritmos, manipulando-se as cotações , produzindo-se  a volatilidade e não a liquidez de mercado e a profundidade  do mercado. E como tudo  agora se pode tornar subjacente (moeda, taxas, CDS, matérias-primas, produtos agrícolas, etc., ou seja o mundo dos produtos derivados) os algoritmos produzem dinheiro sem mesmo saberem a sua  origem. Pelo menos com Philippe O Belo   sabia-se  de onde veio o dinheiro que ele “criava”.

Esta globalização abençoada faz com  que a empresa casino seja  preferível à indústria e em que as facilidades informáticas estão a  ajudar e é assim  toda uma população crescente que se encanta com este  mundo novo: torna-se possível, como o proclama em grandes títulos a publicidade dirigida para os desempregados da economia real, tornarem-se traders, vulgo operadores nas salas de mercado mesmo que estas salas sejam as de sua casa.

Como nas empresas casinos,  os especialistas em optimização fiscal  produzem dinheiro e pagam-se  sobre simples diferenças,  aqui a pressão fiscal entre os Estados. Optimização fiscal  e fraude fiscal sempre existiram… mas encontram-se grandemente o facilitadas quando o custo da utilização da diferença entra em colapso. Outrora, a fraude envolvia custos concretos muito altos devido aos controlos de câmbios e aos travões  sobre a livre circulação de capitais. Os estados não tinham ainda vendido as oportunidades ligadas às suas   diferenças, permitindo-lhes manter a sua autonomia. A classe globalizada  tem obtido pela tomada de controlo  parcial da moeda o fim  da protecção da diferença.  O falso valor que ela pode produzir é tanto mais  alto quanto  a diferença é alta. Concebe-se, portanto, o necessário aumento dos paraísos fiscais, é verdade também, aumento facilitado pelas ferramentas informáticas cada vez mais  poderosas.

Os números são conhecidos e torna-se desnecessário recordá-los. No entanto, deve-se precisar, e bem, que esta globalização é, em parte, outra coisa se que não seja uma gigantesca redefinição da partilha da antiga predação dos Estados.

A nível dos antigos Estados, o aumento contínuo do peso da economia  e o que parece estar-lhe associado, ou seja, o individualismo radical, apagam gradualmente a ideologia de um interesse geral e o holismo que lhe está subjacente. A  recondução  no poder dos empresários políticos passa agora cada vez mais pela  distribuição de “direitos de liberdade” e pelo recuo quanto aos deveres de cidadania . A recondução ao poder passa então  pela “abertura” e, em particular, pela  desregulação  tanto exigida pelos empresários económicos mais dinâmicos.

Esta abertura exigida, talvez favorável a estratégias de outros Estados que apostam na sangria dos mais antigos  (Luxemburgo ou Suíça, por exemplo) ou sobre uma construção de novos Estados, animados  pelos empresários  políticos dinâmicos ou simples criados de servir  do mundo da economia globalizada (“juridicões de palmeiras”.

A era dos ” grumos ” e não a da globalização redefine a relação entre as classes sociais. A classe globalizada  comprou aos velhos  Estados o enfraquecimento dos respectivos “Estado-Providência”  e mergulhou-os na dívida soberana de que a seguir se aproveitam enormemente uma vez que esta torna-se como “o mineral da finança”  a explorar como existe hoje o mineral de carne.

Uma vez esta compra efectuada, os antigos Estados perdem gradualmente  a sua face do Estado de direito. Os erros e os comportamentos erráticos das empresas casino  frequentemente instaladas em paraísos fiscais e os erros  da finança improdutiva podem implicar  grandes crises cujo  custo é suportado por pessoas que não podem fazer mais nada para além  de pagar impostos e perceberem que isto é  muito formalmente consentido. O que  marca uma nova etapa na muito antiga aventura dos Estados.

A operação  « offshoreleaks » permitirá ela mudar o mundo  ?

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