PARECE NÃO EXISTIR DIREITA NA VENEZUELA, por GILBERTO MARINGONI

Hoje há eleições na Venezuela. Estas eleições têm grande importância, não só para a Venezuela, mas também para o resto do mundo. Devemos prestar-lhes a maior das atenções. A salvaguarda das conquistas sociais conseguidas pelo povo venezuelano, obtidas como Hugo Chávez, são uma questão a que devem prestar atenção todos os que se debatem, como nós portugueses, com uma ofensiva para lhes tirar o que conseguiram num período de democracia, mesmo que muito relativa, tal como nós a seguir ao 25 de Abril. Ao ler este texto, há que recordar o período em que até o CDS, hoje patrono do neo-liberalismo (os seus líderes invocam a democracia cristã, que nem sequer explicam o que é), defendia o socialismo. Temos que estar atentos e não nos deixar cegar pela propaganda que jorra da comunicação social controlada pelo poder financeiro. Obrigado a Carta Maior e a Gilberto Maringoni.

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Quem chegar de Marte à Venezuela poderá jurar que o embate eleitoral se faz entre duas forças de esquerda, com algumas nuances entre si. O opositor Henrique Capriles alega ser um candidato “pós-Chávez” e não “anti-Chávez”. Não defende Estado mínimo, venda de estatais ou demissão de funcionários públicos.

Caracas – Quem se der ao trabalho de ler o programa de governo de Henrique Capriles, candidato opositor a presidente da Venezuela, fará uma constatação curiosa: não existe direita no país. Ninguém defende Estado mínimo, venda de estatais, demissão de funcionários públicos etc. etc. (Dilma no Brasil chegou a atacar alguns desses pontos, que atualmente formam as vigas mestras de sua gestão).

É um traço interessante dos tempos que correm. A direita avança em várias frentes – política, economia e costumes –, mas nenhuma corrente com alguma densidade eleitoral se assume como tal.

Quem chegar de Marte ao país caribenho poderá jurar que o embate se faz entre duas forças de esquerda, com algumas nuances entre si. Capriles, a exemplo de Nicolás Maduro, usa as cores da bandeira, as canções de Ali Primeira – o compositor de esquerda, morto em 1985 – e reivindica a figura de Bolívar.

No terreno das metas de governo, a questão social está no centro. Chega a afirmar que sua “normativa fundamental será a Constituição da República Bolivariana da Venezuela, de 1999” (Detalhe: em 2002, um dos primeiros atos dos golpistas foi revogar a Carta).

Não é à toa. Em 14 anos de chavismo – com todos os defeitos que os governos do ex-presidente possam ter – a agenda nacional mudou. A campanha se faz não apenas sob a sombra de Hugo Chávez, mas pautada pelos temas centrais de suas gestões.

Desse ponto de vista, Capriles faz um esforço monumental para se distanciar do apoio que deu ao golpe de Estado de onze anos atrás. Seu mote de campanha sequer é explicitamente de oposição.

Alega ser um candidato “pós-Chávez” e não “anti-Chávez”. Por isso, caso vença, não terá condições imediatas de desfazer a rede de proteção social montada a partir de 1998, sob pena de ver sua legitimidade virar fumaça em curtíssimo espaço de tempo.

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