REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

O Liberalismo económico terá dado origem a  Hitler?

TRÉMARECLE LIBÉRALISME ÉCONOMIQUE A-T-IL ENFANTÉ HITLER?    TEXTO DISPONÍVEL EM L’ESPOIR, CUJO ENDEREÇO ELECTRÓNICO É O SEGUINTE:
HTTP://LESPOIR.JIMDO.COM/2011/10/31/LE-LIB%C3%A9RALISME-%C3%A9CONOMIQUE-A-T-IL-ENFANT%C3%A9-HITLER/

Parte IV 

(conclusão)

……

Epílogo

Enquanto Von Papen foi demitido por  Hindenburg, a  2 de Dezembro de 1932, é o próprio General Von Schleicher que se tornou Chanceler e que se apronta  a romper  com os planos de rigor. Querendo redistribuir as terras dos grandes proprietário aos desempregados e reanimar a indústria através do financiamento a ser feito pelo Reichsbank, verdadeiramente preocupado em  manter a República e restaurar o seu espírito pela retoma económica , extremamente atento às questões da igualdade de direitos  da Alemanha no estrangeiro, mas igualmente partidária de  uma aproximação económica com a França e a Rússia, o ” chanceler de um inverno” não terá o prazer de  aplicar sua política, uma vez que esta política desencadeia  a unanimidade contra si mesmo.

Aquele a quem o patronato alemão chamava já o “General Vermelho” ” é rejeitado por todos os partidos  (mas isto era já um hábito desde 1930), mas é rejeitado especialmente pelos mais ricos. Hjalmar Schacht, o antigo governador do Reichsbank, desejando a expansão  monetária e a ditadura, saberá  activar  a boa cunha  para fazer mudar a opinião de Hindenburg… : o ex-Chanceler Franz Von Papen. Influente e amigo do  filho do Presidente, este, vexado pela sua demissão, procura agora a demissão do General Von Schleicher.

Ele concorda em encontrar-se com  Hitler e Schacht. Em conjunto, eles planeiam  dar a Chancelaria a  Hitler e e tendo como  Vice-chanceler  Von Papen. Vários dos grandes financeiros e industriais que se reuniram com Schacht em torno de Hitler querem um forte poder que reprime a ameaça comunista.

Schleicher   deixa-se levar por  Von Papen e apesar das  informações dos seus  serviços, ele não acredita que a ameaça seja real. Em 28 de Janeiro o General deve demitir-se e a 30 de Janeiro, Adolf Hitler é chamado à Chancelaria por  Hindenburg.

A República, os partidos, Von Papen, Hjalmar Sacht, os industriais, todos vão ser varridos mais ou menos rapidamente pelo monstro que eles próprios  fabricaram .

Antes de ser  enviado para os campos de concentração, Schacht ainda terá ainda a  oportunidade de aplicar a sua política de  estímulos estatais  e de desvalorização do marco. A economia alemã,  certamente à  custa um massivo recrutamento no exército terá então  o crescimento e o fim do desemprego sem inflação. É claro, e em particular a partir da sua  desgraça  no  final de 1936, a economia alemã vai-se  fechar  de modo excesso sobre si-mesma provocando  uma explosão dos  preço das suas importações e os custos dos seus  erzatz (produtos de substituição local). O crescimento  desmedido  do consumo público, a estagnação do nível de vida, a fraqueza de bens de consumo, não  deixarão de fazer lembrar as economias do tipo da União Soviética.  Mas apesar destas derivas ,  a prova de que uma outra política teria sido  possível parece-nos bem ter sido  administrada assim como a importância decisiva da moeda, como o afirmava Keynes…

O general  Von Schleicher, por seu lado,  será assassinado na sua casa onde estava com a sua mulher  na noite das facas longas orquestrada por Hitler na noite de 29 e 30 de Junho de 1934.  O Marechal Hindenburg morrerá algum tempo depois, deixando todo  o espaço aberto para o ‘Führer’.

 A responsabilidade do liberalismo no  advento do nazismo é pois muito  pesada. No entanto não é total. A considerável deterioração da situação económica não explica, por si só, a ascensão fulgurante  do nazismo nas eleições. As sociedades europeias da década de 1930 estavam, na verdade, cheias de violência, desejosas de  vinganças  e prontas  para seguirem os  homens que defendiam o respeito pela força.  Teria sido  a primeira Guerra Mundial, que tinha criado este terreno fértil de ódio, assim como o resume Marc Ferro ao   falar   de muitos antigos combatentes e eleitores :

«Extremamente hábil a elogiá-los, a honrá-los com a pompa das  cerimónias  que os ligavam à ordem governamental , o Estado não assegurava aos seus antigos combatentes os direitos que eles tinham sobre a nação. Na ausência de um regresso da frente organizado, muitas das vezes eles ficavam  reduzidos ao desemprego, à mendicidade . As promessas e os discursos tornavam mais hediondo este desinteresse real  dos dirigentes e do Estado para com  todas essas pessoas infelizes. As antigas feridas ainda mal cicatrizadas voltaram a abrir-se: a lembrança amarga das  permissões, a consciência da injustiça, o ressentimento contra as emboscadas, a retaguarda , os deputados, todos cúmplices.(…)

Os vermelhos e todos aqueles que os estavam a repetir, tal como a vanguarda Dada,  atiravam para o descrédito  todos estes veteranos de guerra porque consideravam que estes últimos tinham desempenhado o papel de ingénuos,  que foram  meros fantoches agitados  pelo Capital e pelos traficantes de armas. Esta ridicularização dos veteranos de guerra  humilhava-os  e, por reacção,  levou-os ainda a cerrarem mais as suas fileiras , assim como a legitimar   os seus  sacrifícios,  em suma, levava-os a assumirem posturas nacionalistas.  Terá sido assim que se sentiram levados a ressuscitar a ideia  uma vez expressa por alguns dirigentes  militares que queriam que se alistasse toda a nação, ensiná-la  manu militari, o sentido do  dever. (…) Os amanhãs não cantarão . «

É a combinação da aplicação ideológica do pensamento económico falso e de uma sociedade violenta que resultou a ascensão do totalitarismo.

liberalismo económico - XIPaul Klee

Seria errado hoje imaginar-se  que a actual crise económica, que na verdade lembra a crise económica de  29-33  em muitas das suas características,   levará mecanicamente  ao mesmo efeito. O mundo mudou, as mentalidades também, e movimentos profundos, invisíveis  estão  muitas vezes a reagir [e quem sabe se não estão a trabalhar contra essa possível evolução]. Apenas a visão de alguns poucos, artistas, pensadores ou homens de acção conseguem, às vezes, captar o essencial, o que está diante de nós e que nós não vemos . O extremismo liberal levará a algo diferente do nazismo, para o bem ou para o mal, mas ninguém pode dizer a quê.

Trémarec, Le libéralisme économique a-t-il enfanté Hitler?    texto disponível em L’Espoir, cujo endereço electrónico é o seguinte:
http://lespoir.jimdo.com/2011/10/31/le-lib%C3%A9ralisme-%C3%A9conomique-a-t-il-enfant%C3%A9-hitler/

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