
O TIO PADRE
Como uma família fabrica os seus heróis

É provável que seja assim qie nascem os heróis de família. Um facto, algumas palavras, uma enormidade de lacunas e alguém que, décadas depois, tenta preencher o silêncio.
A memória oral tem um encanto frágil. Cada relato, transmitido de boca a ouvido, traz consigo não só o que foi dito, mas também o que foi esquecido, reinterpretado ou reinventado. Recordar é sempre reconstruir. Ao repetir uma história, nunca a preservamos intacta, apenas lhe damos nova vida, e nesse gesto há beleza e risco.
Há histórias de família que chegam até nós completas. Outras chegam partidas, como fotografias queimadas ou parcialmente rasgadas.
Desta, resta-me apenas um nome, um púlpito, uma queda e o silêncio que veio depois. Uma história de pessoas comuns, memória imperfeita, e do que ficou por dizer.
O meu tio bisavô era Padre. Nasceu em Meneses, Torgueda, Vila Real, no último quartel do século XIX. A família era rural e, a espaços, razoavelmente abastada, mas durante a sua infância, passou por momentos difíceis, o que poderia vir a fazer dele um lavrador iletrado, não fora a circunstância feliz dos parentes que tinha. Tal como todos os ganapos da altura, ajudava nas lides do campo, no penso e limpeza dos animais, na apanha de gravetos para o lume, no transporte da merenda para os que trabalhavam nos campos mais afastados, e nas lides mais ligeiras da casa. Mostrava-se, para além disso, de uma argúcia e de uma inteligência raras nos seus pares, o que incomodava a irmã mais velha, Teresa, que, por sua vez, desinquietava a mãe. Segundo a tradição familiar, terá sido a sua mãe, Joana do Patrocínio, quem procurou o padrinho de Joaquim que se interessou pelo acompanhamento e direcção académica do catraio, custeando as despesas necessárias. Dessa forma, levou-o para Amarante onde tratou de o encaminhar nos estudos. O padrinho era António Cândido Ribeiro da Costa, futuro grande orador parlamentar. O miúdo não deveria ter mais de 8 ou 9 anos. Lá fez os estudos preliminares necessários, até que a entrada no seminário lhes pareceu o caminho mais certo e normal. E aí, terá nascido a vocação. A influência do padrinho não terá sido pequena, e o caminho estava traçado.
Vamos encontrá-lo, mais tarde, já ordenado, como pároco da sua terra e de outra mesmo ao lado. Segundo a tradição familiar, os seus dotes de oratória, inflamados e vibrantes, valeram-lhe convites para proferir palestras em todo o Norte de Portugal, nos princípios do séc. XX. A sua palavra granjeou-lhe a afeição das populações das suas paróquias, e, segundo a mesma tradição, também a morte. Ainda novo, durante uma das suas vibrantes e emocionantes prédicas, feitas do alto do púlpito lateral da Igreja de Torgueda, enquanto falava, esbracejava e pulava, perante uma Igreja repleta de fiéis, tropeçou e caiu. Bateu com a cabeça nas pedras do pavimento, e morreu.
Na família, e em especial o meu pai, sempre se idolatrou Joaquim e o seu prestigiado primo e padrinho, e se contou que o meu tio, ainda muito novo, morrera ao cair do púlpito da igreja de Torgueda, durante uma prédica particularmente exaltada.
Uma igreja cheia de fiéis. Um púlpito. Um pregador inflamado. Um gesto demasiadamente largo. Um passo em falso. E o silêncio!
Nunca encontrei documentos que o confirmassem. Mas há memórias que sobrevivem precisamente porque nunca precisaram de papel, e dele há algumas histórias que nos mostram o seu humor e inteligência.
Entre as memórias que sobreviveram, há uma história, transmitida de boca a ouvido ao longo de gerações, que sempre ouvi contar em casa e que transcrevo em apêndice (1).
O Padre Joaquim Maio, primo, afilhado e discípulo de António Cândido, era conhecido na família simplesmente como o Tio Padre. Lamentavelmente, da sua vida só resta o testemunho oral, algumas histórias contadas pelos descendentes da sua irmã Teresa, minha bisavó, e, por fim, as palavras e escritos que recebi do meu pai, que por sua vez os recebera de uma tia.
É-me premente reconstruir aquilo que o tempo quase apagou.
Dois parentes, com idades separadas por perto de 30 anos, ambos conhecidos pela palavra. Um leva-a para o Parlamento; outro para o púlpito. Um torna-se a “Águia do Marão”; o outro, segundo a tradição familiar, morre precisamente no momento em que a palavra atingia o auge da sua intensidade.
Do Padre Joaquim Maio provavelmente nunca se virá a saber exactamente como morreu. Mas sei como a família o recorda. E é assim que ainda hoje vive entre nós, menos pelos documentos do que pela memória colectiva da família.
(1)
CONTA-SE NA MINHA FAMÍLIA
No princípio do século vinte muitas pensões não tinham casa de banho nos quartos. Ao fundo do corredor havia uma, que servia todos os quartos desse andar.
Na minha família havia um Padre. Quase todas as famílias tinham pelo menos um. Este, pelos anos vinte do século, era ainda um jovem.
O Tio Padre, fazia palestras e orava em muitos locais para onde era convidado. Um dia teve de se deslocar a Chaves, em pleno Inverno, para falar, a convite de uma qualquer organização. Foi de Meneses, onde residia, para Chaves, de charrete, como era hábito naquelas alturas.
Chegou a Chaves já o dia tinha acabado havia muito tempo, e dirigiu-se a uma pensão que ele conheceria bem, e onde já tinha quarto reservado. Jantou e recolheu-se.
Algum tempo depois, já em trajes de dormir, imagino-o eu em camisa branca e gorro por causa do frio, teve vontade de urinar. O frio era tanto que não lhe apetecia nada deslocar-se pelo corredor até à casa de banho.
Usava-se na altura e ainda se usou durante muitas décadas, ter um pote em cada quarto para utilizar sempre que as necessidades fisiológicas apertassem. Procurou-o por baixo da cama e como não o encontrou percorreu o quarto, que era pequeno, de ponta a ponta, não se esquecendo de procurar dentro do guarda-fatos, nas gavetas do pessiché, e por baixo da mesa de cabeceira. Nada! tinha levado sumiço. E ele apertadinho de todo, e o frio que apertava, que em Chaves, no Inverno, a coisa é dura.
De um modo ou de outro, o meu Tio Padre lá conseguiu resolver o seu problema.
De manhã, lavou-se na bacia que estava no quarto, usando para tal a água quase congelada que já lá estava e que ele havia despejado no dia anterior de numa jarra de porcelana que tinha uma rosa pintada, limpou-se a uma toalha de linho que lhe tinham colocado no quarto para esse efeito, desceu para tomar o pequeno-almoço, pagou a estadia e abalou para o seu destino.
Horas depois, a empregada da pensão entrou no quarto para as limpezas normais e reparou que em cima do pessiché estava a jarra da água com um bilhete encostado e que tinha qualquer coisa escrita nele. A pobre da rapariga não sabia ler, o que era comum nessa altura, e desceu as escadas em passo de corrida dirigindo-se ao dono da pensão.
– Ó se Maneli, o sô Padre esqueceu-se disto. Estava encostado à jarra de porcelana, a que tem a rosa pintada, que o senhor mandou colocar lá no quarto.
– Mostra lá rapariga.
A moçoila entregou-lhe a folha de papel, o sr. Manuel colocou os óculos na ponta do nariz, e leu:
“Rosa de porcelana pintada
Perfume não pode ter
Aqui deixo a minha graça
E o perfume do meu ser”
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Fantástica história e fantástico antepassado. Tomara a mim, a quem só contavam a história da bisavó que aprendeu a ler pouco antes de casar. Também devo ter padres na família, foi o que concluí dos meus estudos genealógicos. É bom saber algo sobre os nossos antepassados… Ainda excita mais a curiosidade quando o antepassado é o pai a quem não podemos perguntar nada