*Daniel Lacerda é um novo argonauta que oportunamente apresentaremos na rubrica UM ARGONAUTA POR SEMANA . Para já, deixamos uma informação sumária – Nasceu em Monte Real, Leiria. É licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa e DEA em Économie et sociéte – pelas Universidades de Paris VIII e Paris X. Exilou-se em Paris no final de 1968, dirigindo desde 1997 a revista lusófona, bilingue, Latitudes-Cahiers Lusophones, da qual foram publicados 34 números. Desde 1995 faz investigação, nomeadamente em história das ideias do séc. XVII e em história da Região de Leiria. Publicou o livro Isabelle de Portugal, duchesse de Bourgogne, Une femme de pouvoir au coeur de l’Europe du Moyen-âge, Paris, Lanore, 2008. O artigo que hoje publicamos, foi escrito há cinco anos, mas, por razões diversas, permanecia inédito.
É mistificador aquele que faz passar um mito pela realidade.
Não é a primeira vez que somos provocados por este comentador semanal do DN, pois frequentemente acicata os agnósticos e ateus (1). Homem encartado de diplomas de universidades estrangeiras, senhor de responsabilidades académicas, não descarta a presença na imprensa quotidiana, com invectivas de vária sorte, nas vertentes dos seus saberes. A sua inquietação, porém, dir-se-ia mal parada, pois o lança em especulações para que não está visivelmente preparado.
Desta feita perorou acerca da crença, mais precisamente, da crença ontológica na entidade Deus, pelo que aduz, lamentando-se que a vida pública seja “hoje ateia ou agnóstica”. Cavalo de batalha para que o Estado português volte ao antigo regime, ou siga os erros dos sionistas ou da maior parte de países de confissão islamista, de estrutura religiosa encastrada no aparelho de Estado, e, assim, pôr-se, naturalmente, a combater as heresias, como fizeram até à época do Marquês de Pombal. Parece ser este o sonho deste ideólogo, provavelmente aparentado a neotomista, que periodicamente bate nesta tecla.
Por aqui se vê ser homem de antanho ou crente nalgum visionarismo em moda nas Américas, prenunciando alguma reviravolta de pés à cabeça no velho Continente, actualmente entregue a um paganismo merecedor de correcção lá do alto, segundo se deduz.
A sua argumentação filosófica situa-o igualmente num tempo precedendo o racionalismo, isto é, anterior ao século XVII, pois começa por afirmar que o homem que recusa Deus pratica uma crença. Ora ficou bem estabelecido pelos pensadores racionalistas a distinção entre filosofia – domínio da razão – e religião – espaço da fé – da crença individual. Do ponto de vista da filosofia, o ateu, por consequência, situa no tempo a crença em Deus enquanto uma resposta mítica, a questões ontológicas para que a razão, a história das ideias e a ciência não possuíam então resposta demonstrativa. Hoje em dia, a resposta foi dada, mas nem todos os humanos possuem meio de a conhecer, como não conhecem outros fenómenos naturais, por deficiência de informação ou por a natureza (em sentido amplo) ultrapassar o conhecimento que se tem dela. Diversos teólogos, incluindo alguns portugueses, que passaram a vida a meditar os evangelhos, reconhecem o carácter mítico das parábolas registadas nesses e noutros livros das primeiras civilizações, que nomeiam uma entidade criadora ou reguladora da moral entre os homens.
Para os ateus, Deus existiu e existe, mas enquanto representação, que está registada na história do pensamento filosófico e de noções que as pessoas adoptam de uma e outra forma, constituindo a mundividência popular ou acientífica, condicionada ao âmbito da fé, da crença.
O articulista faz a apologia deste último saber, segundo ele, próprio dos pequeninos, benfazejos, porque captam uma hipotética sabedoria divina, da distinção do bem e no dom da criação. Vejam bem! e, mais uma vez, a sua ingenuidade filosófica nos espanta! Este homem vive noutro planeta. Rejeita toda a ciência pós-darwiniana, cujo centenário está actualmente a ser consagrado em toda a Europa, falando ainda do “criador”. Desconhece que as primeiras regras morais para regular a vida em sociedade precedem em muito os Dez Mandamentos difundidos por Moisés (e que até os inquisidores portugueses perseguiram), mas donde a igreja católica os adaptou ao seu catecismo. Lévi-Strauss não demonstrou as regras sociais que os índios do Brasil se deram, antes de os mensageiros de Cristo lá chegarem! Basta ler uma obra (2) do pensador português Uriel da Costa (1587?-1640) para saber que essas noções foram codificadas vários séculos antes da vida de Jesus, pela prática social dos povos, ainda anteriormente aos pensadores gregos. Os católicos adoptaram e continuam a propagar o livro da Génese, do Velho Testamento, enquanto processo histórico da vida do homem na Terra – um erro gravíssimo – pois desconheciam a existência do homem pré-histórico. Isto mostra outro aspecto do carácter mítico desses escritos depois chamados sagrados – a Sagrada Escritura.
O articulista monta um mau cavalo, ao querer pôr em xeque o marxismo e o ateísmo, que se apoiam na evolução da ciência, propondo ele uma visão eclética, em moda na América – mas que se espalha à custa do dólar – que explica a perfeição do homem e do mundo por um modelo de tipo platónico, dum suposto arquitecto omnisciente. Especulação para anjinhos.
Para divulgar o catolicismo no exemplo do profeta Jesus, seria mais favorável usar a sua doutrina (ou exemplo) social, de oposição aos mercadores corruptos e aos exploradores do próximo; ou a sua atitude tolerante perante os semelhantes: os desvios da prática sexual (com o perdão à adúltera). Perdão, tolerância face ao estranho, que se opõe à moral de “olho por olho”, prevalecente no Velho Testamento, que o judaísmo herdou. Os pensadores e historiadores da religião reconhecem aí a verdadeira inovação trazida por Jesus, personagem histórico, independentemente da sua inscrição posterior na tradição do cristianismo.
Mas, a inquietação deste comentador é de outra ordem. Observando-se que o incomoda a evolução das normas sociais no nosso país ao se adaptarem à modernidade europeia. O direito ao aborto, à homossexualidade indispõem-no.
A limitação da religião nas escolas também. O seu universo mental não é deste tempo; não se concilia com as conquistas da liberdade que a técnica e a ciência concedem ao homem (incluindo todos e todas) de hoje, alargando as normas morais sociais, reduzindo diversas dependências históricas (a mulher em relação ao homem, o filho em relação ao pai, o assalariado em relação ao patrão, etc.). As mentalidades sempre se arrastaram em relação ao avanço técnico (lembre-se os filmes de Antonioni). Mas há mentalidades e mentalidades!
Não, o ateu de hoje, em Portugal, teve de efectuar um trabalho crítico de informação e de reflexão para rejeitar a visão mítica propalada pela Igreja e pelos católicos. Deve ser, efectivamente, um intelectual ou homem de consciência rigorosa e impoluta. Em rigor, um pensador actual não pode ser católico a menos que rejeite uma área da sua consciência de homem livre.
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Referimo-nos a um comentário publicado no Diário de Notícias de 26.05.08 sob o título “A fragilidade de uma crença”, assinado por J. C. das Neves. (Passados cinco anos depois desta reacção, observa-se que J.C. Neves mantém o mesmo espaço e desfruta da mesma anuência, paciência de leitores e ouvintes. Nada mudou.)
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Exame das Tradições Phariseas (Amsterdam, 1624), obra queimada então pela Congregação rabínica, cujo único exemplar existente foi descoberto em Copenhaga em 1990 e publicada por Herman P. Salomon em Portugal, Braga, edições APPACDM, 1995.

Leitor do DN, desde que abandonei o Público – cuja qualidade desceu a profundidades abissais, pelas mãos de José Manuel Fernandes e dos títeres que por lá deixou, quando levou um pontapé para cima – há comentadores ou cronistas que nem leio, pelo nível intelectual rasteiro que, em geral, acompanha os fanáticos de qualquer tipo. Estão neste caso, entre os cronistas permanentes: um tal Alberto qualquer coisa, fascistóide que se apresenta como sociólogo e foi razão para eu deixar de comprar, mesmo ocasionalmente, a revista “Sábado”, onde também escrevinha e se permitiu ironizar com “as mãos inteiras” dos torcionários de Pinochet e as “mãos partidas” de Victor Jara, desvendando a sua concordância com a tortura e o assassínio político (aliás, se percebo que a “Sábado”, uma revista claramente de direita, o acolha, não consigo descortinar qualquer razão não venal para o seu recrutamento pelo DN); e o JCN, cuja esfuziante imbecilidade se manifesta nos mais variados campos, desde a Economia, de que é docente universitário – na Universidade Católica, claro! – até aos mais diversos temas que conflituem com o conteúdo escasso e imoto das suas petrificadas meninges. Naturalmente que leio muitos comentadores de direita, crentes (Anselmo Borges, padre e filósofo, é um dos meus cronistas preferidos, compensando-me da perda – com o Público – de Frei Bento Domingues) e, em geral, com ideologias mais ou menos diversas das minhas; alguns, mesmo ideologicamente assaz distanciados, até com o prazer de desfrutar de uma escrita de qualidade e uma argumentação séria, ainda que discordando (com frequência, mas não sempre) do conteúdo. Mas não leio o que sei, por saber de experiência (que nem precisa de ser muito longa) feito, não passar de fruto espontâneo e estéril da estupidez no seu estado mais puro: tratar-se-ia de inútil perda de tempo. E assim me poupo à irritação que a tolice forrada de reaccionarismo inevitavelmente provoca…