A REPARTIÇÃO DOS HUMORISTAS*. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

I

O grande Q. G. , tendo acordado em que um dos meios de prover as tropas do que se chama um bom moral é facilitar-lhes quanto possível o bom humor, organizou a Repartição dos Humoristas com delegações nas várias estâncias da Papelândia.

Ao começo certos poucos  inteligentes não acharam graça nenhuma  às chalaças dos humoristas oficiais; mas por fim todos acabaram por concordar que eram mancebos bem-dispostos, levando a guerra como ela deve ser levada e fazendo a diligência por alegrar a pobre malta que se aborrece tanto dentro da trincheira.

Um comandante de batalhão anda muito enfadado porque lhe falta a untura para limpeza de espingardas? Estas enferrujam-se o melhor que podem e dentro em pouco serão uma sucata ordinária? O comandante refaz a requisição enviada quinze dias antes e expede-a com nota de “Urgente”. Então, nessa mesma noite e com um “Confidencial” por fora, a R. H. (Repartição dos Humoristas) envia-lhe uma nota dizendo que foi por várias vezes notado o mau estado das espingardas, que isso é péssimo para a saúde das mesmas, e que severas contas serão pedidas aos comandantes de unidade. Com os cabelos em pé por causa dessas descomponenda, o pobre major, numa “Urgente”, mais urgente ainda, explica que pediu e tornou a pedir e que, já agora, pede mais uma vez. Então a R. H. sai-se com a melhor. Por um motociclista envia uma “Urgentíssima”, indicando ao desgraçado que “da untura que tem ceda metade ao batalhão vizinho”.

Doutra vez um batalhão, estando num estacionamento em que não havia água senão a que caía a potes do céu e tendo o Folgadinho escangalhado todas as bombas, pôs os seus carros especiais no serviço de ir a umas léguas próximas buscar o líquido indispensável. Ao cabo de dois dias partiu-se um deles, que, com conhecimento da estância imediata, foi para conserto. Ao cabo de quatro partiu-se o segundo e último, que teve o mesmo destino. O comandante envia uma nota aflitiva, pedindo pelo amor de Deus que se lhe envie um carro de água ao menos. Os humoristas cismam um bocado e na volta do correio escrevem: “Dos seus carros de água mande apresentar um para serviço urgente nesta Brigada”. Depois admiram-se que os majores se viessem todos embora.

 *In A Malta das Trincheiras, Migalhas da Grande Guerra, 1917 – 1918.

http://aviagemdosargonautas.net/2013/04/13/andre-brun-a-malta-das-trincheiras-migalhas-da-grande-guerra-1917-18/

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