FASCISMO NUNCA MAIS – PEQUENO FASCISMO SEMPRE – por Luís Salgado de Matos

O 25 de abril foi feito para proteger os oprimidos e acabar com os opressores. A ideia é boa. Queira ler os dois casos ilustrativos.Imagem1

Primeiro caso. Num estabelecimento de ensino superior, um aluno drogado espancava os colegas e impedia o funcionamento das aulas. Os orgãos da escola assobiaram para o lado. De todos os docentes desse aluno, houve um que requereu que ele fosse suspenso. Assim foi. Tempos depois, a família foi falar com a direção da escola e convenceu-a sem dificuldade a autorizar o regresso desse aluno. O aluno regressou. Voltou a espancar os colegas. O professor pôs os pés à parede. O aluno foi de novo suspenso. A escola agiu, tarde, hesitante, contrariada e desencorajando os cidadãos pacíficos.

Segundo caso. Noutro estabelecimento de ensino superior, uma aluna  convenceu-se que um dado professor a amava muito e só não concretizava o seu amor por intrigas de uma inimiga. Em consequência, passou a agredir esse professor, na sua pessoa e nos seus bens. As agressões foram repetidas. A escola não tomou qualquer posição, apesar de estar ao corrente da situação. O professor agredido retardou queixar-se da aluna à escola por recear ser vilipendiado. Depois de uma agressão coletiva, o caso teve que ser entregue à polícia. A escola continua a ignorá-lo.

Estes casos são fascismo por extensão semântica: porque são casos de violência opressora. Na antropologia simples do «fascismo nunca mais», os alunos são oprimidos e os docentes opressores. O que acaba no «bullying». Por isso, os alunos têm o direito de se tornarem opressores. Os dois casos são da escola, mas o problema não é só da escola, longe disso. Quem diz alunos, diz por certo operários industriais, empregados de escritório, etc. É o «pequeno chefe», na terminologia de Jean-Luc Godard É o miserável que ataca os miseráveis, o cego do Lazarillo de Tormes que espanca o coxo. Para enriquecer? Nem por isso. Mandado por uma grande chefe? Que ideia.  . O pequeno chefe e o vândalo agem por conta própria. Alguém protesta contra o pequeno chefe ou contra o vândalo? Raramente e por pouco tempo. Pequeno fascismo, sempre!

O pequeno fascismo é complexo. Claro que combatê-lo não justifica o «grande fascismo». Mas ignoramo-lo: sindicatos ou partidos desprezam-no ou praticam-no. Os chefes burocráticas receiam parecer paleo-fascistas se o enfrentarem. Os tribunais consideram-no demasiado pequeno. É pequeno demais para a Provedoria de Justiça, que trata apenas dos interstícios entre a burocracia e os tribunais. A imprensa e a televisão ignoram-nos exceto se tiverem um lado anedótico. Ignorar o «pequeno fascismo», porém, é causa de muitos sofrimentos individuais e é intolerável. Mesmo sem dispormos de uma solução fácil, devíamos ao menos ocuparmo-nos do assunto. Para o nosso bem.

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