Há meia dúzia de dias, um daqueles amigos que só vemos de tempos a tempos e merecem conversas de horas “para pôr a escrita em dia”, como costumamos dizer, interpelou-me como quem encosta uma pistola ao peito:
– Olha lá, tu também és daqueles que ainda considera o 25 de Abril uma revolução especial e diferente quando à nossa volta só vemos uns canalhas no poder que bem podiam ser os herdeiros do antigo regime se houvesse, por exemplo, uma transição à espanhola?
Devo dizer que nos últimos anos tenho feito a mesma pergunta a mim mesmo e, mesmo não tendo dúvidas quanto à resposta, considero legítimas todas as dúvidas que vêm contidas na pertinente interrogação. E porque demorei uns segundos a responder, o meu amigo voltou à carga:
– Vá lá, sê franco! O Passos Coelho e o Seguro não estão bem para o pós-salazarismo/marcelismo como o Rajoy está para o pós-franquismo?
E olhou-me com ar triunfante, como se me tivesse encostado a um canto das cordas como os boxeurs poderosos perante adversários dizimados.
– Meu caro – respondi-lhe – por muito que creias ter razão, há ainda dois factores que fazem a diferença: os militares e o povo.
Povo? Militares? Ele abanou a cabeça descoroçoado. – Uns são da NATO, o outro vota enganado e, ainda assim, fazem o contrário do que ele julga decidir.
Pedi-lhe então uns minutos para me deixar discorrer. E resumo a seguir o que lhe disse.
O 25 de Abril foi especial, sim. Porque os militares, levantando as bandeiras de liberdade que custaram tantos sacrifícios, tantos anos de reclusão e tantas vidas a portugueses de gema, deixaram na revolução uma marca que ainda hoje não se apagou. A marca de uma revolução humanista, democrática, com princípios. Uma revolução que rompeu com o passado e rasgou o futuro. Franqueou o terreno aos partidos políticos, tanto aos que verteram sangue humano pela liberdade como os que apanharam a boleia perante o desmoronamento da ditadura; tornou bens de todos os portugueses os sectores da economia que tinham servido para impor a servidão aos portugueses; abriu o caminho para uma Constituição na qual os cidadãos se revêem sem vergonha de ser cidadãos; tornou possível a criação de um serviço nacional de saúde, de uma educação para todos, de uma cidadania activa e participativa através de uma miríade de organizações sociais desde os domínios do trabalho ao de bairro, de habitação.
O 25 de Abril feito pelos militares e sufragado pelos cidadãos que não hesitaram em descer às ruas trouxe a democracia, uma expressão da vontade plena dos cidadãos que pouco tem a ver com a caricatura em que, gradual e subversivamente, se foi transformando.
O que falhou?
Nada falhou. Houve apenas traição.
Os militares revolucionários, como é timbre dos revolucionários, foram homens de palavra. Transferiram os poderes para a “sociedade civil”, quando começavam até a ser insultados por aqueles a quem deram a palavra, por suposta tentação por um poder “não democrático”.
Bastou os revolucionários saírem de cena para que o sistema de poder fosse assaltado pelos contra-revolucionários – e não há moderação linguística que encontre designação mais apropriada.
Aos homens de palavra sucederam os vendilhões de palavras.
Fizeram reverter tudo quanto marcara a revolução nos campos político (participativo), social e económico.
Devolveram ao sector privado o que se tornara de todos.
Integraram-nos na CEE, depois União Europeia, sem nos perguntarem se queríamos. O objectivo era formatar uma “democracia ocidental”, cada vez mais desacreditada por Merkels e aparentados.
Impuseram-nos uma nova moeda, o euro, disfarçando e mentindo sobre os condicionalismos a que estaríamos sujeitos.
Criaram um “arco de governabilidade” de três partidos “institucionais”, eliminando todas as outras opiniões da área de poder.
Subverteram a democracia através da propaganda e da mentira, transformando a vontade do povo num ataque contra o próprio povo, institucionalizando o voto popular num instrumento para imposição da austeridade e do regresso à miséria e ao ostracismo de classes que só encontra paralelo nos tempos do salazarismo.
Do 25 de Abril de 1974 sobraram os homens de palavra – os militares. E o povo, que desceu às ruas com eles.
Pelo caminho passaram os Soares, os Cavacos, os Guterres, os Barrosos, os Santanas, os Sócrates, os Passos Coelhos, algozes do 25 de Abril – metam a mão na consciência os que ainda tiverem dúvidas. Das suas relações entre eles e o povo nada consta em favor do povo.
Do 25 de Abril sobrou o essencial, Por isso, Portugal está vivo!
