Um Café na Internet
Ó Zé Dias Coelho, sumiste, clandestinidade! Um dia fui à tua procura no atelier da Praça da Alegria. Quem me atendeu foi o pintor Júlio Pomar e disse-me que raramente aparecias. Porquê? Certamente porque temias que a PIDE estivesse por ali à tua espera…
Mas acabei por te caçar no Jardim da Parada, em Campo de Ourique. Apontei a estátua da Maria da Fonte, de pistola levantada, e perguntei:
– E tu, ó Zé, quando é que dás uns tirinhos?
Levantaste os ombros, respondeste:
– No meu arsenal só há palavras e desenhos, não há balas…
Gargalhadas, um abraço e depois fomos tomar café numa pastelaria junto ao cinema Europa.
Casei em fins de 1953. Através de amigos comuns convidei-te a estar presente. Temeste que a PIDE, ao seguir-te, desembocasse na minha festa conjugal. Por isso preferiste ser representado por uma das tuas irmãs e um dos teus irmãos. Presente também esteve o José Manuel Tengarrinha, meu amigo pessoal e irmão da tua companheira Margarida. O teu cunhado dirá um dia:
– Sem o José Dias Coelho, o PCP teria tido dificuldade de um relacionamento tão regular e tão amplo com os grandes artistas plásticos do seu tempo, pois o diálogo que estabelecia nunca foi fechado ou redutor, mas sempre aberto e estimulante.
Ó Zé, a PIDE considerava-te um dos homens mais espinhosos da Oposição porque, contra a ditadura do Estado Novo, facilmente conseguias fundir e rearmar opiniões divergentes. Os esbirros localizaram a vizinhança do teu refúgio, seguiram-te e em 19 de Dezembro de 1961 cinco deles cercaram-te na Rua da Creche (bairro de Alcântara, Lisboa) e assassinaram-te com dois tiros à queima-roupa.
Recordo que uma vez disseste:
– Em toda a parte há um pedaço de mim que se quer dar…
Retomo e reformulo a tua frase:
– Para o Zé Dias Coelho há sempre um pedaço de mim que lhe quero dar!

