CANÇÕES DE EMBALAR por Clara Castilho

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A importância da literatura infantil é evidente, inquestionável – quantos daqueles que fazem a actual massa de leitores, não foram «agarrados» pelo Patinho Feio, de Hans Christian Andersen, pelo Coração, de Edmondo d’Amicis, pelo Oliver Twist, de Charles Dickens ou mesmo pelas fábulas de Esopo ou de La Fontaine, ou pelas histórias dos irmãos Grimm ou de Perrault? Os hábitos de leitura são importantes para a saúde mental e os chamados leitores compulsivos são, em regra, gente mais propensa a um raciocínio aberto.

Adolfo Coelho (1883) afirmou”os contos e rimas infantis parecem ser como o leite materno, que nenhuma preparação, por mais adiantada que esteja a ciência, poderá igualar”(1). Este autor chamou a estas criações literárias “pedagogia de amas”. Mal imaginava ele como a ciência viria a dar-lhe razão!

E continua: “ Da fórmula constam, essencialmente, ritmo e melodia, determinadas pela regularidade métrica e pela sonoridade das palavras, com relevo para a alternância de acentos fortes e fracos, para a rima e para as repetições. Constam ainda, gestos e mímica ligados intimamente à linha prosódica e também processos de carácter poético ou lúdico que alimentam a criatividade, com particular relevo para o nonsense. O seu modo de transmissão – de viva voz – pressupõe a proximidade, o prazer do contacto físico dos interlocutores e a permanente adequação comunicativa”(2).

Já aqui abordámos este assunto – “Os bebés e o mundo sonoro” – mas foi com especial prazer que voltei a encontrar este autor e ver nele esta intuição do que é hoje confirmado.

As mais antigas referências a canções de embalar portuguesas são do século XVI. E a diferença de nomes é deliciosa – canções de acalentar (quando o bebé está ao colo) e canções de embalar (quando ele está no berço).

Estes assuntos têm sido estudados no IELT, Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa.

Hoje, no corre-corre das nossas vidas, podemos comprar discos com músicas de embalar. Mas falta o contacto físico, falta o olhar olhos nos olhos… E aos fins de semana pais e filhos podem – pagando e bem! – participar em sessões de música para bebés. Que tal perguntarmos às nossas avós como eram as canções de embalar?

“A Lua nasceu e cresceu no além
A noite chegou também
Vai dormir meu amor
Vai dormir e sonhar
Deixa a lua crescer lá no ar

A roca poisou e largou seu fiar
Os olhos vai já fechar
Nada pode impedir
Que o amor durma bem
Nem mau sonho há-de vir
Nem ninguém

Tu verás meu amor
Como é bom sonhos ter
Deus te dê o melhor que houver
Anjo meu faz ó ó
Que eu velo por ti
Só aos anjos a lua sorri.”

(1) Elementos Tradicionais da educação, Lisboa, Livraria Universal

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