A REPARTIÇÃO DOS HUMORISTAS*. POR ANDRÉ BRUN

1881 - 1926
1881 – 1926

II

A Repartição dos Humoristas não fala português como qualquer de nós, nem ao menos a língua do “pas compris” em que Folgadinho é mestre. Fala alínea, uma língua especial, um calão se preferem. Exemplifiquemos. Um artigo da ordem do C. E. P. explica que as botas serão requisitadas ao Depósito Central d’Alcatruzes em Calais, e uma circular da Brigada elucida que as requisições em triplicado devem ser entregues até ao dia 15 nos S. A. da mesma. Passam quinze dias e um novo parágrafo, esse da Ordem da Divisão, anuncia que as botifarras se requisitam directamente à divisão e no dia 10. Mas, passados não são outros quinze dias, o sistema volta á mesma.

Qualquer de nós que tivesse de comunicar isto aos seus contemporâneos diria simplesmente: ― “Participa-se aos interessados que as requisições de botas tornam a fazer-se como se faziam o mês passado”. Os humoristas, no exercício das suas funções, começam a falar alínea e dizem-nos o seguinte: “5.º Que o disposto na ordem… do C. E. P. a que se referia a circular n.º … dos S. A. desta B. I. torne a vigorar, ficando sem efeito o exarado na nota n.º … dos mesmos S. A. que esclareciam a alínea… da O. S. n.º… da… D.”

Isto chega à trincha no dia 14 à noite, num momento em que o cão do corneteiro a está bebendo de pé, em que a primeira linha se declara não muito segura e, dentro de uma caverna-secretária onde não se anda senão de cócoras, o pobre ajudante tem de procurar em quatro caixotes para descobrir a nota que elucida a circular e a ordem divisionária que modifica a ordem do corpo. A requisição não parte, portanto, a 15, pois não há forma de providenciar. E na tarde seguinte chega, vindo também da R. H., uma pergunta acerca dos triplicados que já não são duplicados e que deixaram de ir para o Q. G. D. para ir novamente para o Q. G. da B. I.

Sucede a miúdo que se extravia um papel, que se perde um dos fios de Ariadne que nos conduzem ao labirinto dos papéis, e então é que os humoristas estão nas suas sete quintas. Passam um bocado da noite regaladíssimos, de pés para o fogão, a forjar outra do mesmo género.

Os humoristas têm por vezes brincadeiras trágicas. Enfiam-nos de um dia para o outro num sector novo, sem nos darem um só papel ou um simples mapa. Em seguida requerem urgentemente um croquis do sector, o detalhe por coordenadas das obras a fazer, o dispositivo das metralhadoras ligeiras na escala 1/10 000, etc. Pouco falta para exigirem uma série de aguarelas dos pontos pitorescos e um panorama a óleo da linha inimiga. Quando recebem todos os desenhos, que fizemos Deus sabe à custa de que dificuldades, passam-nos a limpo com tinta de várias cores, copiam à máquina os relatórios, e fazendo um embrulho lacrado enviam-no-lo com a seguinte nota: ― “Junto enviamos a V. Ex.ª a planta desse sector e respectivo plano de defesa a que dará cumprimento imediato, comunicando com a máxima urgência as alterações que julgar convenientes”.

 *In A Malta das Trincheiras, Migalhas da Grande Guerra, 1917 – 1918.

http://aviagemdosargonautas.net/2013/04/13/andre-brun-a-malta-das-trincheiras-migalhas-da-grande-guerra-1917-18/

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