PRIMEIRO PARAÍSO FISCAL DO MUNDO, A CITY NO CENTRO DE UM IMPÉRIO OFFSHORE, por MARC ROCHE.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 Marc Roche, LE MONDE

City - ILondres, correspondente

Oficialmente, David Cameron colocou a luta contra a evasão fiscal no centro  da sua  Presidência do G8 em  2013. Em apoio desta cruzada, o primeiro-ministro britânico destaca a recente assinatura de  troca de dados fiscais entre o Reino Unido, por um lado, a Suíça, as Ilhas Anglo-Normandas e a ilha de Man, por outro lado.

Na realidade, a City  – termo que descreve  os serviços financeiros instalados em Londres – é o sector  de serviços financeiros que  pode ser considerado o maior paraíso fiscal do mundo. O primeiro centro financeiro europeu está situado, reconhecidamente, “em terra”, on shore. Mas está  no centro de uma teia de aranha de onde irradiam os paraísos fiscais “offshore” (offshore), ou seja, extra-territoriais, estes  territórios da Coroa ou das antigas colónias, cujo nome está inscrito na história das Finanças sombra: Ilhas Caimão,  Ilhas ango-normandas,  ilha de Man, Ilhas Virgens Britânicas, Gibraltar, Bermudas, Hong Kong, Irlanda, Dubai… Lugares que servem sobretudo para as  candongas  sobre capital fornecendo o pólo de Londres em liquidez.  O dinheiro colectado é gerido por instituições financeiras, instaladas na capital britânica.

E  Jersey, Guernesey e Man  contribuem para um décimo do volume global .

A ouvir Nicholas Shaxson, autor do livro Treasure Islands (The Bodley Head, 2009), dedicado aos centros financeiros  extraterritoriais – e um dos pilares da rede Tax Justice Network, uma  organização não-governamental na luta contra os paraísos fiscais-, a cidade abrigava 3 200 milhares de milhões (EUR 2 456 mil milhões) de depósitos offshore, ou seja 55% do total mundial. E Jersey, Guernsey e Man contribuem com a décima parte desse valor global.

UM ESTADO DENTRO DO ESTADO

Graças aos  seus centros de trânsito offshore, a City  pode   ser  capaz de  fazer frutificar os  seus petrodólares   do Oriente Médio, bem como os fundos dos oligarcas russos, dos armadores gregos, dos  empresários indianos e chineses, ou, mais recentemente, dos  ricos do sul da Europa, fugindo da crise do euro.

Para proteger a sua proeminência nas finanças offshore, a City  dispõe de  três vantagens chave. Primeiro de tudo, o formidável poder da City of London Corporation, a autoridade administrativa da cidade. O poder do Estado dentro do Estado, autónomo  face ao governo central, está no auge da sua fortuna e das suas possibilidades das suas ligações inter-pessoais: imponentes.

“Como um centro financeiro internacional,  forte da sua  tradição secular de  gestão patrimonial ,  nós atraímos r fundos de todo o mundo. Durante décadas, Jersey, Guernsey e outros centros similares fornecem-nos o capital. Estes candongueiros de offshore respeitam a  legislação europeia, “declarou-nos  recentemente-em um dos seus dirigentes.

Então a City pode contar com a experiência de um exército de advogados e contabilistas para inventar estruturas financeiras offshore de modo a colocar o dinheiro   ao abrigo do fisco . Com a ajuda desta rede, a gestão alternativa de activos – os hedge funds (fundos especulativos), o capital de investimento… – de que Londres é o centro da Europa, tem entidades apropriadas, conhecidas como veículos de finalidades especiais,  special purpose vehicles, conchas vazias que permitem  minimizar o imposto.

A constituição de uma outra especialidade britânica, os trusts,  estruturas de que não se conhece o  beneficiário, administrados  por um escritório de advogados  ou de  auditores , localizado  num  paraíso fiscal,  baralha as pistas para permitir  ocultar activos. Jersey, Guernsey e Ilhas Caimão são o Reino destas entidades, ao mesmo tempo,  jurídicas, virtuais  e impenetráveis.

Finalmente, os paraísos  fiscais  britânicos podem contar com a discrição da imprensa de Londres. Apenas o  Guardian, associado a DocuLeaks, faz   campanha para a proibição destas  estruturas opacas situadas na rectaguarda da coroa. Para outros, é silêncio de rádio. A maioria dos proprietários de jornais está ela própria  domiciliada em áreas offshore.

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