GIRO DO HORIZONTE – ESTÁ NA HORA – por Pedro de Pezarat Correia

 10550902_MvCyL[1] Aí temos em toda a sua crueldade, a ambição do tão aclamado Sá Carneiro, única “obra” que terá deixado da sua passagem pela política: um presidente, uma maioria, um governo. De direita, claro, populucha e inculta, reaccionária e beata, mesquinha e vingativa, vaidosa e balofa e até, pasme-se, desajeitada e incompetente. A que se identifica com o que de pior há na herança do fatalismo sebastianista e da reverência inquisitorial da nossa identidade e que trouxe o Portugal democrático de Abril ao estado comatoso em que se encontra.

 É dramático porque é um quadro que resulta de uma escolha livre, condicionada certamente, mas livre dos portugueses. O descrédito que este poder nefasto, tentacular, está a infiltrar na percepção da democracia, é uma ameaça que paira sobre a liberdade, porque cada vez mais as legiões dos desempregados sem retorno, da juventude sem futuro, dos reformados espoliados sem defesa, dos desencantados com as esperanças defraudadas, confundem os fundamentos do sistema com a prática perversa que o tem desvirtuado.

 O presidente da República tem estado no centro das críticas. É, para os poucos que ainda nele confiavam, o esvaziar do último reduto institucional. É notória a sua desqualificação para uma função que exige experiência política assente em cultura humanista, em sensibilidade social, em vocação dialogante, em convicção democrática, em perspectiva abrangente. Características que, comprovadamente, a sua personalidade não reúne. Ultimamente a essas carências tem acrescentado uma outra que, a existir, poderia compensar aquelas deficiências, o bom senso. Mas o bom senso tem estado arredado de Belém. Em tempo de crise aguda, quando mais se precisava de um presidente como reserva da República, mais sensível é a sua ausência.

 Confesso-me francamente pessimista. Mas o pessimismo não traz soluções. Há que tirar as convenientes lições que ajudem a corrigir erros e, pelo menos, evitar que se repitam. Porque a esses erros não podemos eximir-nos, são nossos. A forma lamentável como o sectores à esquerda – para mim os pilares virtuosos de uma democracia com substância social – geriram as candidaturas presidenciais que resultaram na eleição e reeleição de Cavaco Silva, não pode ser ignorada. Exactamente para que não se repita.

 A direita, actualmente coligada no poder, já tem o seu próximo candidato em maturação. Há anos. Durão Barroso, que fez da sua passagem por São Bento uma plataforma de acesso à confortável e compensadora cadeira da presidência da Comissão Europeia, que lhe confere visibilidade, contactos, fidelidades, lobbies, apoios, gere bem o seu tempo. Quando findar o seu renovado mandato em Bruxelas, que até teve a cumplicidade de um certo centro-esquerda português, estará em marcha o processo eleitoral para Belém. É o candidato natural para que este ciclo prossiga o seu curso, sujeição de Portugal às imposições da UE/Berlim, da tróika, do poder financeiro internacional. Em Portugal conta com os seus apoios fiéis a prepararem terreno, os barrosistas com óbvio peso no PSD, Paulo Portas no CDS. Barroso é o candidato natural para os que querem manter Portugal enfeudado ao império global, com provas dadas quando, primeiro-ministro, se rendeu à dupla Bush/Blair para a maquinação açoriana da agressão ao Iraque.

 À esquerda há soluções credíveis, capazes de ultrapassarem os factores de cisão que têm aberto o caminho à direita. Soluções que não passam necessariamente pelos inevitáveis nomes saídos das lideranças partidárias, por muito respeitáveis que estes sejam. Mas há outras personalidades, igualmente respeitáveis, mais consensuais, mais abrangentes, mais fiáveis, mais mobilizadoras. Não é este o espaço, nem o momento para avançar nomes, mas é-o para dizer que começa a ser tempo de olhar para esta questão com sentido construtivo. Há um moroso e complexo trabalho de bastidores a fazer. A história não perdoará se se falhar o próximo combate por demissão, por conformismo, ou por se insistir nas funestas divisões do passado.

 29 de Abril de 2013

2 comments

  1. Pedro Godinho

    Durão é um candidato mole, fraco mesmo.

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